Por Euclides Moreira Neto (*)
Sempre fui um defensor de que o famigerado abrigo do Largo do Carmo deveria ser demolido e o espaço que ele utilizava devolvido à cidade para usufruto da comunidade como área de circulação e lazer para melhor apreciação do conjunto arquitetônico do conjunto de Casarões Coloniais daquela região, pois aquele abrigo não se justificava mais sua existência como fora inicialmente concebida.
Segundo meus olhar e de muitos especialistas em arquitetura, aquele abrigo – que classifico como estrovenga – fora construído para ser terminar de bondes e ônibus que circulavam na capital maranhense na década de 1950, ocupando a parte mais próxima à Rua Grande, naquela época a principal artéria comercial da cidade, mas ainda na década de 1960, os ônibus foram retirados do centro e os trilhos arrancados pela gestão do ex-prefeito Epitácio Cafeteira.
Na verdade eram dois abrigos, um saiu ainda na década de 1970 (se não me engano) e ficou esse outro, constituindo-se um ruído visual ao conjunto arquitetônico do lugar. Havia cerca de 10 ocupantes de boxes, que tiravam dali seu sustento, mas com uma extrema dosagem de insalubridade criticada por parcela significativa da população. Todavia, essa função social poderia ser facilmente remediada com a transferência dos locatários para outro espaço público, que a Prefeitura já poderia ter tomado e que agora vai concretizar.
Atualmente, por exemplo, São Luís dispõe de vários prédios em estado de ruinas no seu centro histórico e os locatários poderiam ser transferidos para um desses prédios, desde que convenientemente restaurados pelo poder público e ali realocados dignamente. Assim se recuperaria parte do centro arquitetônico/histórico ameaçado pela ação do tempo e dar-se-ia uma função social e econômica às pessoas que dependiam daquele abrigo.
Percebi que houve um grito geral por parte dos defensores da manutenção do referido abrigo, mas sua estrutura estava ameaçada e isso veio a calhar para que a decisão da Prefeitura de São Luís e do Instituto do Patrimônio e Histórico Nacional (IPHAN) decidisse por demoli-lo. Atitude que considero muito coerente, além disso, o IPHAN não permitiu que fosse utilizado aquele espaço com uma nova construção edificada, o que achei muito oportuno e providencial para o verdadeiro resgate que defendíamos: a restituição da área como espaço público para circulação e ambientalmente utilizado como praça e área de lazer.
Sobre esse assunto, já tive oportunidade de me pronunciar na crônica “ENTENDA O PORQUÊ DEVEMOS ACABAR COMO ABRIGO DO LARGO DO CARMO”, quando ressaltei que “Esse abrigo foi erigido em meados do século passado para atender a necessidade de ter um espaço para receber a população da cidade de São Luís que dependia dos bondes para sua locomoção, que abrangia o centro histórico, os bairro mais próximos do centro urbano e regiões mais afastadas como os bairros do Monte Castelo, João Paulo e Anil, que naquela época para chegar a estas localidades o povo percorria uma via conhecida como “Caminho Real” ou “Caminho Grande”, pois o centro produtivo da cidade estendia-se até esses limites geográficos”.
Ressaltei ainda que “Na verdade, no centro da cidade foram construídos dois abrigos, um que fica ao lado do início da Rua Grande (ou Oswaldo Cruz) e o outro que de ficava em frente à antiga Câmara de Vereadores de São Luís (o Casarão localizado ao lado dos correios) e está no início da Rua da Paz, que tempos antes havia sofrido modificações para alargamento daquela rua. Esse alargamento chegou a derrubar parte do Convento das Mercês, que chegou a perder três lances de janelas e a sua escadaria que se estendia até o meio do referido largo, que foi substituída por duas escadarias laterais. A cidade também perdeu um pelourinho que ficava em frente à igreja Carmo e que era o símbolo da escravidão colonizadora da região.
Naquela crônica defendi a tese de que “Espero (amos) que a revitalização agora anunciada reveja a manutenção desse abrigo, que a meu ver, sua demolição é uma ação de bom senso, constituindo-se extremamente pertinente e necessária, pois aquele local não abriga mais nada de bom para a cidade, pelo contrário tornou-se um espaço sem sentido e totalmente insalubre (…)”.
Afirmei ainda que “Atualmente não percebemos função social relevante para manutenção daquele “abrigo”. Os boxes são pouco procurados pela população que há muito deixou o centro da cidade e ali se tornou local para práticas ilícitas, que prefiro não nomeá-las para não causar desagravo à parcela populacional praticante. Por isso, torna-se premente que os poderes públicos envolvidos com essa reforma revejam essa revitalização e transfiram para local mais apropriado os atuais ocupantes do referido abrigo”.
Finalmente lembrei que “A afetividade que poderia ser proporcionada por aquela área geográfica está relacionada à devolução do espaço para ser utilizado como via passeio ou jardins pela população em geral que ainda se dirige a Rua Grande (a qual está também sendo revitalizada). Temos certeza que aos poucos moradores do centro histórico e aos visitantes de nossa cidade iria apreciar bem melhor o conjunto arquitetônico sem aquele ruído visual no meio do passeio. Portanto, para nossa cidade que carece de praças e espaços bem mais estruturados, devolva-se o espaço que o “abrigo” abiscoitou quando ainda existiam bondes na nossa cidade”.
Vale lembrar que Convento e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo localizam-se na naquela área geográfica (outrora considerado o coração da cidade), em São Luís e pertencem à Ordem dos Capuchinhos. A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, integrada ao convento é um dos templos católicos mais importantes e tradicionais da cidade. O conjunto localiza-se numa área tombada pelo IPHAN desde 1955.
Diante do exposto aproveito a oportunidade para parabenizar a Prefeitura de São Luís, na pessoa do seu gestor, Edvaldo Holanda Júnior, assim como o superintendente do IPHAN-MA., Maurício Itapary, pela decisão de demolir o referido abrigo. Com certeza aquele conjunto arquitetônico e histórico será mais bem apreciado pela população e pelos visitantes de nossa capital. Sem dúvida a cidade ganha e está mais leve sem aquela estrovenga arquitetônica. Pense nisso e continuamos a enfrentar esse período restritivo da pandemia da Corona vírus 19.
São Luís-MA., 19.10.2020
.(*) Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Cultural

