Por Euclides Moreira Neto (*)
Há intervenções deixadas pela gestão da Prefeitura de São Luís, que acabou de ser concluída, que têm incomodado bastante os praticantes e apreciadores de nossas manifestações culturais: a falta de espaços para apresentações das manifestações de nossos grupos culturais de origem popular. Só para citar vou focar minha análise nos espaços da Praça da Saudade e na intervenção do entorno da Fonte do Bispo.
Afirmar e reafirmar que a cidade de São Luís tem uma das maiores diversidades cultural de nosso país não é nenhuma novidade – acho que já até virou jargão identitário – por isso as intervenções da Praça da Saudade e do entorno da Fonte do Bispo são emblemática, considerando que ambas estão contíguas ao bairro de maior efervescência de apelo popular de nossa capital, a Madre de Deus, pelo menos do ponto de vista de interesse que atendem à cadeia produtiva do turismo e da cultural local, especialmente aos ciclos carnavalescos e juninos.
Assim, ficamos surpreendidos quando vimos uma intervenção estruturante que deveria levar em consideração estes fatores de relacionamentos comunitários, que requerem a participação daqueles que vivem no local abrangido por tais intervenções são propositalmente ignorados e tentam com essas ações impor novas formas de convivência. Desse modo, a equipe da Prefeitura que planejou tais intervenções foi, no mínimo, leviana em desenvolver tais projetos.
Os maiores imbróglios estão relacionados à falta de espaços para as apresentações das diversas manifestações culturais que se utilizam daqueles locais públicos, pois não há como contemporizar a grande demanda de público apreciador e praticante que para ali se deslocam nas temporadas de cada ciclo festivo, além disso, os ocupantes dos quiosques (legais ou não) são atores comunitários que daqueles espaços tiravam o sustento para se mantiver sua sustentabilidade enquanto cidadãos atuantes naquele meio social.
Entendo que deva haver sim um disciplinamento do uso dos espaços públicos, mas a partir de negociações com a comunidade de cada espaço, fator que não houve de forma nenhuma, e se houve, alguém foi enganado, pois, pelas queixas que ouvimos dos que se consideram prejudicados, não respeitados o cumprimento das promessas efetuadas ao isolar tais espaços para a realização das tais intervenções.
Com relação às intervenções do entorno da Fonte do Bispo, que ironicamente, parece ser um local que já teve uma fonte, mas que para as gerações contemporâneas, era algo invisível, pois não se conseguia ver essa fonte fisicamente, o local ficou com a fama de já ter havido um ponto de captação de água para os moradores daquela região em época passadas e que, agora, pode contar com uma fonte moderna, iluminada, que tem encantado os transeuntes, especialmente a molecada que pode até desfrutar de um banho refrescante.
Nesse contexto, espaço do entorno da fonte do Bispo é mais complexo, pois vários interesses estavam em jogo, uma vez que os responsáveis por tais projeções não respeitaram o espaço da Passarela do Samba, local prioritário e essencial para as manifestações do ciclo carnavalesco de nossa cidade (Escolas de Samba, Blocos Tradicionais, Blocos Organizados, Tribos de Índios, Casinha da Roça, Blocos Afros, etc), além de outras manifestações que ocorrem durante o ano todo e que desse ciclo estão com a presença ativa e atuante, como os grupos de Tambor de Crioula.
Desse modo, a confusão está formada, a falta de diálogo da equipe e do próprio Prefeito que deixou o cargo na gestão da cidade, saiu cantando glórias por ter maquiado a cidade com intervenções em dezenas de praças (apesar do material utilizado, segundo minha percepção ser de má qualidade, que não deverá durar dois invernos) está deixando uma herança complicada para o atual Prefeito Eduardo Braide, que deverá ter a missão de contemporizar os interesses em questão.
Sobre ainda o espaço da Passarela do Samba, que é vital para a sobrevivência dos grupos que participam dos concursos oficiais da temporada carnavalesca, a área foi espremida com a eliminação da via auxiliar de acesso e produção artísticas dos eventos que ali eram realizados, incluindo a construção de vários quiosques que deverão ser ocupados pelos antigos ocupantes que invadiram a área de parada de ônibus daquela região, prejudicando assim, os próximos eventos culturais que ali deverão ser realizados.
Vale ressaltar que essa confusão só está a existir porque os gestores que concluíram seus mandatos não tiveram a humildade e esperteza de chamar os interessados em conversar e verificar quais as medidas mais corretas poderiam ser postas em execução. Eu, pessoalmente não fico surpreso, pois vejo que o viés religioso foi o grande condutor que provocou tudo isso, pois todos sabem que o senhor Edvaldo Holanda Júnior professa a religião evangélica e nessa vertente ele não estava nem aí para manifestações culturais consideradas pagãs, ou seja, manifestações que se utilizam de práticas satânicas como os personagens que coabitam o imaginário do ciclo carnavalesco.
Sinceramente, acho que ainda é possível fazer as correções necessárias para evitar um mal maior, pois o Prefeito Eduardo Braide tem se mostrado solícito e sensível para as causas que envolvem os praticantes de nossas manifestações culturais de origem popular. Pensem nisso. Continuamos a atravessar o período da Pandemia da Covid 19.
São Luís, 12 de janeiro de 2021.
(*)Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Cultural.

