20/01/2026

A poética existencialista de Bioque Mesito (*)

20 anos do lançamento de “A Inconstante órbita dos extremos”, trabalho que ganhou reedição este ano

São Luís – A obra “A Inconstante Órbita dos Extremos”, do poeta Bioque Mesito, foi relançada pela editora Penalux de São Paulo, em 2021. Com este título ele venceu o IV Prêmio Universitário de Literatura, no ano 2000. A primeira edição saiu pela Editora Cone Sul, em 2001, e arrebatou leitores ávidos pela literatura maranhense contemporânea, naquele momento de efervescência cultural do Brasil.

Tanto foi assim que o poeta Sebastião Ribeiro confessa no posfácio: “aquele livro, de um cara com um nome esquisito, mostrou-me os caminhos. Escrevo aqui como influenciado pela forma como se combinam plasticidade e força comunicativa em Mesito”.

Passaram-se 20 anos. O livro está reeditado. Apresenta músculos salientes, na carnadura literária do Maranhão. Tem sabor de fruta madura, desde a semente.

Bioque Mesito foi redator do Suplemento Literário Guesa Errante. Integrou o grupo Curare, que trouxe para a cena poética de São Luís um espírito coletivo de vanguarda, na década de 1990. Autor premiado, que busca uma lírica encharcada de lições modernas. Diferente de Rimbaud, nunca desistiu um minuto da poesia.

A temática existencialista atravessa o corpus da antologia. Mesito é um alfaiate preciso na busca pela linha da identidade, nas suas criações. Além de marcar, com perspicácia, a passagem do tempo:

A PENÚLTIMA

  1. eu não lerei o último
    poema meu
    talvez seja anacrônico
    ou até mesmo contrabandista
  2. terá por certo a perfeita alusão
    de mim
    sem me desvendar
  3. cicatrizes no peito
    olhos bem espantados
    2, 20 m de curiosidade
  4. suave como borboletas
    no cio
    metade eterno por todo tempo
    metade orgasmo por insatisfeito

(Bioque Mesito, 2021, p. 93)

O poeta se apropria das ações pretéritas e das ações futuras. Há uma modelagem desta coisa (quase medível) e abstrata, que constrói a existência: “suave como borboletas/ no cio/ metade eterno por todo tempo/ metade orgasmo por insatisfeito”. A numeração, no início de cada estrofe, traz a ideia de cenas sobrepostas. O leitor, certamente, encara os olhos do relógio ao final do texto.

Mesito vê no corpo um acontecimento de vivência máxima da poesia, logo podemos constatar na terceira estrofe de “Erótico só para os sensíveis”: “as ambiguidades que se compenetram/ homem e fêmea em gravidade/ sêmen e luz no cosmo a criar” (2021, p. 54). O autor de “O Existencialismo é um Humanismo” nos revela: “o corpo é por conseguinte, tanto a condição da consciência como a consciência do mundo, quanto fundamento da consciência enquanto liberdade” (SARTRE, 2000, p.16).
Liberdade é mais que imagem, ginga, invenção de uma nova sintaxe em Bioque Mesito. Parece mais a comemoração da vida; o encantar-se com as manhãs ensolaradas do poema. Com ela, destila a gravidade de ser homem no sal, dos dias.

Existem muitos temas na poética de Bioque Mesito, em outro momento, aprofundaremos. É um poeta que (encontra Sartre no deserto) e faz florescer a insurreição das palavras.
Enfim, A Inconstante Órbita dos Extremos completa 20 anos. Nós vamos comemorar!

* Paulo Rodrigues é poeta e ensaísta/ Publicado no Jornal O Estado do Maranhão

 

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