Por Dr. Hamilton Raposo de Miranda Filho(*)
O homem sempre consumiu algum tipo de droga, o fez para enfrentamento das adversidades, para o encontro com o sobrenatural, alívio da dor ou como forma recreativa e de prazer. O Homem contemporâneo usa droga para ser o mais inteligente, o mais bonito, o mais forte, o mais competitivo ou o mais atraente, ou simplesmente em busca do prazer.
A sociedade contemporânea em relação ao consumo de substância pode ser dividida em épocas, daí se têm:
1-época pré-internet: nesta fase o consumo de drogas estava relacionado com as crises existenciais, a possibilidade de liberdade plena e o fascínio pela utopia do sentimento da paz e do amor universal.
2-época da internet: relacionamos o consumo de drogas com a rapidez das informações, o aumento do nível de exigências e de demandas sociais, frustração por metas não alcançadas e pela rapidez e descartes das relações afetivas.
O consumo de drogas estre os estudantes de Medicina parece que tem uma relação com o conceito da sociedade em época de internet.
A Medicina é uma profissão que exige uma atualização permanente, portanto, o estudante de Medicina involuntariamente se afasta do contexto de universidade e a partir deste conceito de distanciamento, ele desenvolve suas relações sociais.
O estudante de Medicina não convive e não divide as dificuldades universitárias em suas demandas sociais e políticas. O estudante de Medicina se isola consigo e com outros estudantes do curso, ele não divide com a comunidade acadêmica as suas dificuldades, as dificuldades do curso e suas questões sociofamiliares. Em consequência, passa a ter uma maior necessidade de atenção, de concentração, de superação de metas e privação de sono.
Todos os artigos que li sobre o assunto (UFBA, UFRS, USP (2006, 2010 e 2016 respectivamente), revelaram que a droga mais consumida pelos estudantes de Medicina é o álcool, seguido por bebidas energéticos, cafeína, metilfenidato e maconha).
E qual a minha conclusão sobre o assunto e a minha experiência em um ambulatório de Psiquiatria com estudantes de Medicina?
1-Existe uma prevalência de transtorno de ansiedade e de transtorno misto de ansiedade e depressão.
2-A existência de uma demanda de estudantes a procura de estimulante cerebral (metilfenidato).
O uso de substância ou o distanciamento do estudante de Medicina da comunidade universitária, traz repercussões em sua saúde mental, das quais podemos citar:
1-excesso de cobrança desde o início do curso (família, colegas, professores, …).
2-o estudante de Medicina precisa e necessita aprender a dizer “eu não sei…”, parece existir uma lógica de que o acadêmico tem a obrigação de saber tudo que é ensinado ou estudado.
3-o estudante de Medicina, assim como o médico, precisam aprender a se cuidar.
4-o estudante de Medicina tem dificuldade de discutir outros temas que não sejam assuntos relacionados com o curso, estão distanciados das artes, filosofia, política ou qualquer outro assunto que não seja médico.
5-o imediatismo e a rapidez para solucionar problemas, provoca sofrimento, medo e ansiedade.
O resultado destas repercussões serão sentidas ao longo do curso ou no exercício da profissão, e a procura de substâncias lícitas ou ilícitas podem servir de apoio ou recurso imediato para tranquilizar a mente ou melhorar a autoconfiança.

