“Se o fazendeiro José tem uma plantação, e os gafanhotos estão sendo responsáveis por danificar 2% de sua produção, ele precisa tomar providências para evitar essa perda. Se o mesmo José tiver sua plantação atacada por javalis selvagens, que estão destruindo 22% de tudo que ele produz, é claro que ele também vai ter de agir para prevenir essa praga. É normal e óbvio que, numa conversa em uma roda de produtores rurais, quando alguém mencionar perdas por causa de pragas, José vai relatar que está muito preocupado com “os javalis”, pois eles estão lhe impondo perdas muito maiores que os gafanhotos, embora ambas as pragas devam ser combatidas. Acredito que nenhuma pessoa com o mínimo bom senso pensaria diferente.
Deixando de lado as pragas agrícolas, vamos analisar dados sociais: taxas de homicídios. Em 2023, houve 45.747 homicídios dentro das fronteiras de nosso país. Desse total, cerca de 42.000 vítimas foram homens, e 3.700 mulheres, e, desse quantitativo de mulheres que perderam a vida, aproximadamente 40% foram mortas por seus companheiros ou ex-companheiros (o neologismo “feminicídio”). Por outro lado, o número de homens mortos por suas companheiras é apenas 15% do percentual altergênero, ou seja, ínfimos 6%. É terrível imaginar que 40% das mulheres mortas tiveram suas vidas interrompidas por aqueles com quem elas um dia tiveram relação de afeto, quando somente 6% dos homens sofrem o mesmo revés. Em termos percentuais, observa-se uma sociedade bastante “remosa” (para usar o termo do maranhês) para as mulheres. No entanto, se analisarmos em termos quantitativos, chegaremos ao resultado seguinte: 40% de 3.700 mulheres equivale a 1.463 mortes, e 6% de 42.000 resulta em 2.320 homens eliminados por suas companheiras ou ex-companheiras, ou seja 853 homens mortos por suas companheiras a mais do que o contrário.
Em 2024, o panorama é o seguinte: 44.127 homicídios, sendo 3.642 mulheres e 40.485 homens. O número de mulheres mortas por seus companheiros aumentou em relação ao ano anterior: 1.492, um aumento de 29 vítimas de um ano para o outro. Para os homens mortos por mulheres, não há dados exatos, mas há uma estimativa de 2.800 a 3.500 homens vitimados, o que, no patamar mínimo, equivale a quase o dobro de mulheres mortas pelos companheiros.
O dado seguinte a analisar é o ano de 2025, quando houve uma redução significativa de homicídios: 34.086. O número de mulheres mortas pelos parceiros ou ex-parceiros foi reduzido para 1.470, enquanto o total de homens que perderam a vida pelas mãos das companheiras foi de 1.769 indivíduos. No total, foram 31.050 homens mortos e 3.036 mulheres.
Nos três anos analisados, 113.535 homens foram vítimas de homicídio, tendo 6.889 deles perdido a vida por ação de suas companheiras ou ex-companheiras. No gênero oposto, a tragédia alcança o vergonhoso número de 4.425 mulheres que tiveram a vida ceifada por quem devia delas cuidar, num total de 10.378 de vidas femininas perdidas nesse período. Diante de dados tão esclarecedores, observa-se que, para cada mulher morta dolosamente no país, onze homens tombam.
Essa realidade, embora escancare um país com níveis de violência comparados ao de sociedades em guerra (o conflito bélico Ucrânia-Putin matou 10.500 civis em 4 anos), não parece sensibilizar a sociedade. Os homens são mortos tais quais baratas, e ninguém levanta a bandeira em sua defesa. Já as mulheres, que sofrem um nível de violência extremamente inferior ao dos homens, são o foco da mídia, dos órgãos oficiais, das igrejas, das ONGs, da comunicação nas redes etc. É trágico termos notícia de 4.425 mulheres terem sido mortas no ambiente familiar ou em decorrência de relações conjugais em três anos no Brasil, mas soa no mínimo estranha a ausência de menções a um número muito mais assustador, que é o avassalador homicídio dos homens da nação. Ou seja, está-se gastando munição no combate aos gafanhotos enquanto os javalis destroem livremente a plantação.
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