21/08/2026

49º Festival Guarnicê de Cinema celebra encontros, histórias e a força do audiovisual brasileiro em São Luís

Há 49 anos, o Festival Guarnicê de Cinema transforma telas em lugares de encontro. Encontro entre artistas e público, entre diferentes gerações, entre histórias e territórios. Nessa quinta-feira, 20, novas memórias começaram a ser construídas com a abertura da 49ª edição do Guarnicê, que, mais uma vez, reafirma o Maranhão como espaço de celebração e produção do cinema brasileiro.

Um dos festivais de cinema mais longevos do país, o Guarnicê é promovido pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC), e chega à sua 49ª edição com o tema “Encontro com narrativas humanas”. A programação segue até 26 de agosto, com exibições cinematográficas, atividades formativas e encontros que aproximam realizadores, estudantes, profissionais do audiovisual e espectadores.

A cerimônia de abertura foi marcada por poesia, música e emoção, além da presença dos homenageados desta edição, a atriz Marcélia Cartaxo e o ator Romulo Estrela. O público também acompanhou a exibição do filme Resta Um, dirigido por Fernando Ceylão, escolhido para inaugurar a programação do festival.

Para Rosélis Câmara, diretora de Assuntos Culturais da UFMA e coordenadora-geral do Festival Guarnicê de Cinema, a palavra “encontro” traduz a própria essência da trajetória do evento.

Um festival que atravessa gerações

Ao longo de quase cinco décadas, o Guarnicê se consolidou como um dos mais importantes espaços de circulação e valorização do audiovisual brasileiro. Para o reitor da UFMA, Fernando Carvalho, preservar essa história significa também reconhecer a importância da cultura maranhense e da produção cinematográfica nacional.

“O Festival Guarnicê é um festival que é realizado anualmente na nossa Universidade e é um festival que representa a cultura maranhense e tem formado gerações. É um festival que a gente precisa valorizar porque, se a gente valoriza o Festival Guarnicê, nós estamos valorizando a cultura do nosso Maranhão e o cinema brasileiro.”

A pró-reitora de Extensão e Cultura, Zefinha Bentivi, também destacou o papel da Universidade na continuidade do festival e na promoção da arte e da cultura. “Primeiro porque a história, a identidade do povo maranhense brasileiro necessariamente passa pelo audiovisual, sobretudo pelo cinema. O cinema tem uma responsabilidade enorme de assegurar a nossa identidade, de reconstruir e construir. E uma universidade pública, que faz um festival há quarenta e nove anos, tem um grande compromisso com a arte, com a cultura do seu país”.

Homenagens que atravessam gerações

Os homenageados desta edição, Marcélia Cartaxo e Romulo Estrela receberam o carinho do público e celebraram com emoção o reconhecimento por trajetórias que contribuíram significativamente para o fortalecimento do cinema brasileiro e para a valorização do audiovisual maranhense.

Marcélia Cartaxo, uma das grandes atrizes do cinema nacional, falou sobre a emoção de receber o Troféu Guarnicê: “Esse momento que eu estou vivendo aqui é muito especial, é muito maravilhoso”.

A atriz também celebrou a oportunidade de reencontrar o público maranhense e prestigiar a produção audiovisual brasileira. “Olha, eu fiquei muito feliz com o convite da Rosélis. E já tinha vindo algumas vezes aqui. Eu tenho até dois prêmios daqui, que eu acho muito lindo. E esse festival é um dos festivais mais antigos, e a gente tem o maior orgulho desse festival e a gente fica querendo vir participar, encontrar, bater papo com o pessoal daqui, ver os filmes que a gente vê muito pouco nas telas de cinema. A gente precisa de mais espaço aí para ver os filmes brasileiros. E é um orgulho muito grande poder ser atriz, conhecer o nosso Brasil, a nossa cultura. E esse encontro é maravilhoso, não só com o público, mas com todos os artistas locais, com os artistas convidados […] a gente tá muito feliz de estar por aqui e de prestigiar o Guarnicê”.

Maranhense raiz, Romulo Estrela também destacou a emoção de retornar à terra natal para participar de um festival que está prestes a completar meio século de história.

“Eu acho que, como um festival de cinema, é importantíssimo. O Guarnicê, em especial, é um festival que vai fazer cinquenta anos, nasceu com o propósito de reunir pessoas em torno do cinema, do audiovisual. E eu fico muito feliz de agora, hoje, fazer parte dessa edição, fazer parte desse encontro. E voltar pra casa, voltar pra casa sendo homenageado, fazendo parte disso, é uma alegria, é uma satisfação muito grande. Eu tô muito realizado”, expressou o ator.

Na semana em que o país se despediu de duas gigantes das artes, a noite de abertura do Festival Guarnicê de Cinema também foi dedicada à memória de Laura Cardoso e Glória Menezes, grandes mulheres da dramaturgia e da cultura brasileira. Artistas que atravessaram gerações e ajudaram a escrever a história do cinema, do teatro e da televisão no Brasil. A atriz, ativista maranhense e professora aposentada do curso de Serviço Social da UFMA Maria Ethel também foi lembrada por sua trajetória de atuação artística, acadêmica e social, que permanecem como parte importante da memória cultural do estado.

O cinema maranhense também ocupa a tela

Entre o público que acompanhou a abertura, estava a produtora e realizadora Ana Hortência Egito Macedo, que participa da mostra competitiva de curtas-metragens com Dona Cecília, dirigido por ela em parceria com Júlia Rantigueri.

Para Ana, o Guarnicê representa uma oportunidade de encontro entre quem produz cinema no Maranhão e um público interessado em conhecer essas histórias. “O festival Guarnicê de Cinema é uma referência para a gente que está no mercado cinematográfico. Então, vim prestigiar os filmes que são feitos aqui no Maranhão mas também que estão rodando o Brasil inteiro”

O curta acompanha o cotidiano de Dona Cecília, benzedeira de Porto Franco, cidade do sul do Maranhão, que, neste ano, completou 108 anos. “Esse filme é muito especial porque ele acompanha o dia a dia da benzendeira viva mais velha da minha cidade natal, que é Porto Franco, que fica aqui no sul do Maranhão”.

A sessão também representa uma forma de levar para outras regiões do estado histórias e personagens que fazem parte da identidade maranhense. Amiga de Ana, Vitória Mota, também natural de Porto Franco, esteve presente para acompanhar a realização do filme.

“Eu só vim prestigiar e acompanhar minha amiga, que está realizando esse trabalho maravilhoso. Eu também sou dessa cidade chamada Porto Franco e conheci Dona Cecília pelo filme”.

“Resta Um”: quando o debate vale a própria existência

O filme que inaugura a programação do Guarnicê é sempre um momento esperado. Este ano, a escolha do filme Resta Um, de Fernando Ceylão, reforçou a proposta do festival de provocar encontros, reflexões e diálogos por meio do cinema.

Na obra, ambientada em uma realidade paralela de caráter distópico, cidadãos são selecionados para participar de debates on-line. O resultado da disputa determina quem permanece vivo. Nesse universo, não basta defender uma ideia: cada participante precisa convencer o público de que sua própria existência vale mais do que a do adversário.

A premissa estabelece uma relação com o presente e com a forma como os debates públicos têm sido conduzidos, especialmente no ambiente digital. Para o diretor Fernando Ceylão, o filme dialoga diretamente com um momento marcado pela polarização e pela dificuldade de escuta: “Então, é um filme que, de certa forma, fala um pouco dessa loucura que a gente está vivendo no Brasil, de um país que é dividido, de pessoas que na internet são muito violentas, não se escutam mais. Se você pensa diferente de mim, e vice-versa”.

Fernando também pontuou sobre a realização de festivais no país e o sentimento de estrear a programação do Festival Guarnicê de Cinema. “Eu amo cinema. Eu sou do tipo que torço pelo cinema. Eu vejo, pode ser, uma comédia ultrapopular, um filme superautoral, eu estou 100% animado por esse sucesso. E a base disso está muito nos festivais. Porque é num festival que o filme começa a ser mais discutido, começa a ser mais visto, mais falado. E hoje, sensacional, eu acho que tinha que ter festival todo mês. E, poxa, a gente está muito, muito, muito feliz de ser chamado para abrir o festival. Abrir um festival é muito chique, mas ser chamado é muito chique, né? Você pedir para participar, chato, você entra, Oi, posso participar? Ser chamado, você chega, se achando. Então, estou ultrafeliz aqui no Guarnicê”, expressou o diretor.

Um encontro que prepara os 50 anos

Ao completar 49 edições, o Festival Guarnicê de Cinema olha para sua própria história, mas também para o futuro. Cada filme exibido, cada oficina, cada conversa e cada encontro ajudam a construir a memória de um evento que nasceu dentro de uma universidade pública e se tornou parte da identidade cultural do Maranhão.

A edição deste ano segue até 26 de agosto, celebrando o cinema como espaço de escuta, diversidade e aproximação. Em cada tela, uma história. Em cada história, uma possibilidade de encontro.

E, enquanto o Guarnicê caminha para celebrar seus cinquenta anos, São Luís continua sendo, por alguns dias, território de cineastas, atores, estudantes, realizadores e apaixonados pela sétima arte. Um lugar onde o cinema não apenas é exibido, mas vivido coletivamente.