Por Euclides Moreira Neto – Ph.D. em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo/UFMA
São Luís vive uma contradição paisagística. Ao mesmo tempo em que anuncia obras de embelezamento e arborização, a cidade assiste, impassível, suas próprias plantas morrerem de sede. Planta-se muito. Cuida-se quase nada. E o resultado é um cenário de desperdício de dinheiro público e de frustração da autoestima do ludovicense.
O exemplo mais doloroso e visível está na Praça do Sol, na Ponta D’Areia. Ali foram plantadas, com grande alarde, mais de dez palmeiras imperiais. Espécie nobre, cara, imponente, que deveria marcar a paisagem de um dos cartões-postais mais fotografados da cidade. Hoje, quem passa por lá vê um cemitério vegetal em câmera lenta. As palmeiras estão amareladas, com as folhas secas, condenadas a morrer por absoluto descaso. Estamos em pleno período de estiagem prolongada e não há um caminhão-pipa, não há uma equipe de irrigação, não há o gesto mais elementar da jardinagem: aguar. Molhar.
O poder público gasta cifras consideráveis na compra de mudas adultas, no transporte, no plantio com máquinas. Mas não faz o dever de casa. E o dever de casa, como bem orienta o MANUAL DE ARBORIZAÇÃO URBANA DO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS – Coleção do Plano Municipal de Arborização Urbana, é justamente a manutenção.
O manual é claro ao afirmar que seu objetivo é “orientar e padronizar as ações relacionadas ao plantio, irrigação, poda e produção de mudas de árvores em áreas públicas urbanas”. Irrigação não é detalhe. É etapa técnica obrigatória. Uma muda transplantada é um ser vivo em estresse. Seu sistema radicular foi cortado, sua adaptação ao novo solo ainda não ocorreu. Sem água diária nos primeiros 90 a 120 dias, ela não vinga. Ela morre. E dinheiro público morre junto.
Ontem, passando pela Avenida Expressa, vi a mesma história se repetir, agora sob responsabilidade do Governo do Estado. O canteiro central está sendo embelezado com mudas decorativas que fazem homenagem aos pontos turísticos dos Lençóis Maranhenses. A ideia é boa, o projeto é bonito, o efeito visual é imediato. Mas faço aqui o prognóstico que ninguém quer fazer: se não houver um plano de manutenção e irrigação, em 60 dias tudo estará morto. E ficará o esqueleto do que seria bonito. Já vimos esse filme na Estrada de Ribamar, na Avenida dos Holandeses, nas praças do Centro.
Por que isso acontece? Por uma cultura de obra que pensa a arborização como evento, não como processo. Planta-se para inaugurar, para fotografar, para o release. Depois da foto, a planta que se vire. Falta ao gestor público entender que plantar é apenas 10% do trabalho. Os outros 90% são cuidar.
O manual municipal, que deveria ser leitura obrigatória para todo secretário de obras e de meio ambiente, ressalta que as orientações visam “subsidiar as ações dos profissionais envolvidos diretamente na gestão e manejo” e que todos os procedimentos devem ser “periodicamente avaliados e atualizados”. Mas quem avalia? Quem fiscaliza se a muda plantada ontem foi molhada hoje?
Arborizar é um ato político de autoestima. Uma cidade arborizada, com jardins bem cuidados, com praças floridas, diz ao seu morador: você merece viver bem. Uma cidade que planta e deixa morrer diz o oposto: você merece o improviso. O abandono.
Não se trata de falta de recursos. Um caminhão-pipa custa infinitamente menos que a reposição de dez palmeiras-imperiais adultas. Trata-se de falta de gestão e de uma visão sustentável. O que São Luís precisa não é de mais plantios midiáticos, mas de um Plano de Manutenção com equipe fixa, cronograma de irrigação, uso de hidrogel no plantio, escolha de espécies nativas mais resistentes e, sobretudo, participação da sociedade civil na fiscalização.
Plantar sem aguar é como inaugurar uma escola sem professor. É cenografia. Enquanto continuarmos tratando nossas árvores e nossas praças como cenário, e não como patrimônio vivo, continuaremos a enterrar dinheiro em covas rasas. E a Praça do Sol, que deveria ser de sol e de vida, continuará sendo a praça das palmeiras mortas.
São Luís, agosto de 2026.

