20/01/2026

SÃO LUÍS: NOSSA CAPITAL CHEGA AOS 407 ANOS EM MEIO A QUIMERAS E TEMORES

Estamos às vésperas de comemorar 407 aniversários de nossa capital, São Luís, segundo a documentação oficial sustentada pela história, muitas vezes contestado e muitas vezes reafirmado. Dizem que São Luís foi fundada por franceses, em 1612, que aqui ficaram aproximadamente três anos, o que, evidentemente, não daria tempo para edificar uma pequena vila, mas mesmo assim foram estabelecidos os alicerces de um povoamento que foi cobiçado por outros povos, entre os quais, o português e o holandês, cabendo aos lusitanos à verdadeira ocupação e colonização dessa região, uma vez que os holandeses quando aqui chegaram, por volta de 1641, também passaram pouco mais de três anos e da mesma forma que ocorreu com os franceses foram expulsos pelos portugueses.

Nosso texto não está preocupado em desvendar essa história, mas o de constatar que algumas ações desenvolvidas, no presente momento, precisa fazer a gente que aqui vive, têm muito a fazer, como preservar e resgatar a salvaguarda do próprio imaginário popular que nos tornou identidade, enquanto povo constituinte da nação brasileira. Agora, em 2019, a gente ludovicense e o povo maranhense, em geral, vivem tempos difíceis, mas agarrado em esperanças por dias melhores e por ser de uma terra que se diz abençoadas por Deus.

Mesmo vivendo, no momento, em um tempo muito difícil de conseguir trabalho, emprego ou renda para que se tenha uma subsistência digna, o povo deste torrão ainda sorrir e pulsa com as vicissitudes apregoadas pela vida e pelos homens que planejam o nosso futuro, e o fator de maior identificação que nos une e nos torna um povo especial, é a nossa identidade cultural, como pensou Horgart, que reconheceu que as práticas do dia a dia, os modos de relacionamento do povo e as suas manifestações culturais são quem definem as características de nossa sociabilidade como fatores “imponderáveis da vida autêntica”.

De fato, dado que o povo ludovicense oferece à gente brasileira um cenário único e trás consigo uma diversidade invejável de características regionais em todos os ramos de atuação fomentando positivamente a cadeia produtiva da cultura, do turismo e da história. Desse modo, talvez seja por isso que nesse período de pré-comemorações festivas do aniversário de São Luís, podemos interagir com atrações culturais diversas que vão desde cortejos e passeios histórico-culturais pelo centro da capital, com saraus poéticos ou musicais, performances de artistas circenses ou da área de artes plásticas, bem como ao festival gastronômico no mercado Casa das Tulhas, mostrando a rica variedade de possibilidades ao povo que aqui vive (e nos visita) para saborear os produtos regionais; sem falar nas dezenas de barracas que oferecem todo tipo de degustação e produtos artesanais com a alma do saber maranhense.

Nossa terra está em festas, sim, mas pela persistência de sua gente, e considerando algumas iniciativas de parte dos nossos gestores públicos, a cidade está apreensiva, pois se de um lado, há ações e projetos que visam verdadeiramente à revitalização de nosso bem cultural de maior relevância – como nosso acervo arquitetônico – que lhe deu o título de “Patrimônio Mundial” (concedido pela UNESCO), por outro lado, há ações de gestores públicos aproveitadores, que visam, sobretudo a busca de visibilidade para manter-se no jogo do poder, decidindo o destino da cidade. Nesse ponto de vista, podemos, então, ficar com a pulga atrás da orelha para saber até onde está a sinceridade de parte dessas lideranças, que, cabe a cada morador de São Luís, identificar.

É bem verdade, que, enquanto houver atores atuante no meio social, haverá gestores com boas intensões e aqueles que só querem tirar proveito de situações que lhes favoreçam política e socialmente para a manutenção de um status quo, que, no meu entendimento, esse status quo está relacionado ao estado dos fatos, das situações e das coisas, independente do momento, portanto, esse termo é geralmente acompanhado por outras palavras como manter, defender, mudar e etc. Enfim, status quo, como dito, consiste no posicionamento ou condição das coisas, e não necessariamente significa que sejam situações negativas ou ruins. Este é interpretado como um termo neutro, que pode ter qualquer sentido, seja ele positivo ou negativo.

Nessa conjuntura, podemos afirmar que, é aí que reside o nosso conflito existencial mais crucial, que nos leva a perguntar se devemos ou não devemos promover a mudança política? Devemos ou não devemos promover a alternância de poder dos gestores que nos comandam? Devemos ou não devemos implementar políticas públicas que quebrem os paradigmas de relacionamentos de nossa gente? Devemos ou não devemos incentivar rupturas no nosso status quo? Diante dessas e de outras interrogações ficam os grandes questionamentos que nos movem para um ou para outro direcionamento e nem sempre o nosso alvo é acertado plenamente.

Em geral, queremos uma sociedade menos conflituosa e menos injusta. Brigamos por comportamentos pessoais e coletivos éticos e equânimes, sem privilegiados e sem arrogâncias, mas as escolhas de cada um de nós são sempre multifacetadas, com infinitas possibilidades de entendimentos e compreensões, por isso, chegar ao mundo ideal é uma tarefa extremamente complexa e improvável, assim, como há muito questionou o mais conhecidos dos escritores inglês, William Shakespeare, vamos conviver em eterno dilemas de ser ou não ser, eis a questão.

Nesse dilema existencial de ser ou não ser, São Luís parte para comemorar seus 407 aniversários, enquanto de um lado, o povo mais pobre clama e reclama por ações inovadoras e sustentáveis dos seus lideres, suplicando que lhes deem melhor qualidade de vida (com serviços de qualidade e que tenham durabilidade), enquanto outro lado, vemos parcela desse povo, eufórico, por chegar a data comemorativa desse mesmo aniversário, e, nela, agregar outros valores, já previamente definidos no meio comunitário, como por exemplo, festejar o “dia do regueiro” ou “dia do Tambor de Crioula” (Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, concedido pelo IPHAN), assim como uma série de ações desenvolvidas nesse período.

Em síntese, a população de São Luís está em festa como se a vida fosse um mar de rosas, cercada por quimeras poéticas, que fazem parte dos seus habitantes sonhar por dias melhores, o que é muito coerente com o status quo da diversidade cultural do povo ludovicense, mas que são perturbadas pelos temores de nuvens e ações mal assombradas fecundadas nas gavetas mais fundas de parte de cada família que se contrapõem às verdades absolutas emanadas pelos dirigentes que se acham caciques, intocáveis e velhas raposas do política local.

Euclides Moreira Neto – Jornalista, Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Científico.

São Luís, 30.08.2019

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