Coluna de Pergentino Holanda – 17 de junho de 2020
Quando o absurdo se instala diante de nós é inútil procurar respostas. Somente o vazio e um silêncio pesado que nos oprime o peito como um duende nos pesadelos.Não há respostas. Nem uma fresta por onde divisar o oculto reino do incompreensível. Somente um vácuo para onde nos sentimos sugados como um fiapo de papel na voragem de um redemoinho.
O corpo estava ali, deitado no asfalto. Um corpo de jovem, um quase menino em sua frágil compleição. A pele morena ao sol do meio-dia, o denso cabelo castanho. À sua volta, um zumbir de pessoas assustadas e revoltadas, onde ainda ressoavam gritos, um murmúrio de prece, um gotejar de mágoa. A angústia repartida como um pão, aos pedaços.
Os pés que saiam de casa naquele começo de tarde não imaginavam a fera na espreita, não temiam a emboscada. O sol brilhante acendia nas fachadas rastros de luz e a algazarra da rua se fazia mais presente. Assim estava ele, como um cordeiro, para o sacrifício. Só então reparou no homem enfurecido que estava à sua frente. E o mundo parou de girar. E o universo inteiro cristalizou-se numa campânula de vidro espesso, aprisionando-os num espaço particular onde não ressoavam os rumores do mundo, mas apenas o tumulto de seus corações em conflito: a vítima e seu algoz.
Creio que sequer puderam ver os passantes, as ruas desdobrando-se, as esquinas, a vida pulsante de uma cidade que já não lhes pertencia. Agora, na verdade, só havia um e outro e, entre eles, o ar pesava tanto que se podia cortá-lo com uma lâmina.
Foram alguns segundos e havia muito pouco a dizer. Naquele momento, ambos sabiam que a sorte estava lançada, que não haveria retorno. Um simples acidente de carro não seria motivo para tanto ódio nos olhos daquele homem. Somente uma frieza de determinação e fúria, como se cumprisse um destino. O jovem não teve tempo para se ajoelhar à beira do abismo, nem de sentir na pele, pela última vez, a aspereza do asfalto. Não houve tempo para implorar que o poupasse.
O assassino atirou a queima-roupa, sem compaixão alguma.
Diogo Adriano Costa Campos – ou, para os íntimos, Diogo Sarney – foi assassinado covardemente no começo da tarde de ontem, com um tiro no pescoço. Na verdade, não foi um simples assassinato, pareceu mais uma execução. Diogo era jovem, bonito, inteligente. E era, principalmente, gentil e carinhoso com todos que o conheciam.
Sua morte, como o sacrifício de outros jovens inocentes, é uma bofetada no rosto da sociedade. Neste momento de comoção geral, é impossível pensar em outra coisa que não se traduza em perplexidade: por quê? até quando?
Ninguém está falando de vingança, o que todos queremos é justiça, e que, como o cordeiro imolado no altar do sacrifício, seu sangue não tenha sido derramado em vão.


E AS MORTES PELO CORONA???