20/01/2026

A MORTE QUE ABALOU ESTA CIDADE

Coluna de Pergentino Holanda – 17 de junho de 2020

Quando o absurdo se instala diante de nós é inútil procurar respostas. Somente o vazio e um silêncio pesado que nos oprime o peito como um duende nos pesadelos.Não há respostas. Nem uma fresta por onde divisar o oculto reino do incompreensível. Somente um vácuo para onde nos sentimos sugados como um fiapo de papel na voragem de um redemoinho.
O corpo estava ali, deitado no asfalto. Um corpo de jovem, um quase menino em sua frágil compleição. A pele morena ao sol do meio-dia, o denso cabelo castanho. À sua volta, um zumbir de pessoas assustadas e revoltadas, onde ainda ressoavam gritos, um murmúrio de prece, um gotejar de mágoa. A angústia repartida como um pão, aos pedaços.
Os pés que saiam de casa naquele começo de tarde não imaginavam a fera na espreita, não temiam a emboscada. O sol brilhante acendia nas fachadas rastros de luz e a algazarra da rua se fazia mais presente. Assim estava ele, como um cordeiro, para o sacrifício. Só então reparou no homem enfurecido que estava à sua frente. E o mundo parou de girar. E o universo inteiro cristalizou-se numa campânula de vidro espesso, aprisionando-os num espaço particular onde não ressoavam os rumores do mundo, mas apenas o tumulto de seus corações em conflito: a vítima e seu algoz.
Creio que sequer puderam ver os passantes, as ruas desdobrando-se, as esquinas, a vida pulsante de uma cidade que já não lhes pertencia. Agora, na verdade, só havia um e outro e, entre eles, o ar pesava tanto que se podia cortá-lo com uma lâmina.
Foram alguns segundos e havia muito pouco a dizer. Naquele momento, ambos sabiam que a sorte estava lançada, que não haveria retorno. Um simples acidente de carro não seria motivo para tanto ódio nos olhos daquele homem. Somente uma frieza de determinação e fúria, como se cumprisse um destino. O jovem não teve tempo para se ajoelhar à beira do abismo, nem de sentir na pele, pela última vez, a aspereza do asfalto. Não houve tempo para implorar que o poupasse.
O assassino atirou a queima-roupa, sem compaixão alguma.
Diogo Adriano Costa Campos – ou, para os íntimos, Diogo Sarney – foi assassinado covardemente no começo da tarde de ontem, com um tiro no pescoço. Na verdade, não foi um simples assassinato, pareceu mais uma execução. Diogo era jovem, bonito, inteligente. E era, principalmente, gentil e carinhoso com todos que o conheciam.
Sua morte, como o sacrifício de outros jovens inocentes, é uma bofetada no rosto da sociedade. Neste momento de comoção geral, é impossível pensar em outra coisa que não se traduza em perplexidade: por quê? até quando?
Ninguém está falando de vingança, o que todos queremos é justiça, e que, como o cordeiro imolado no altar do sacrifício, seu sangue não tenha sido derramado em vão.

One thought on “A MORTE QUE ABALOU ESTA CIDADE

  1. RAIMUNDO CALÇADA, AINDA VIVO, ATUANTE, SEXUALMENTE POTENTE E TRANSMITINDO DO COHATRAC disse:

    E AS MORTES PELO CORONA???

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