Natalino Salgado Filho*
Neste 2 de agosto, paramos para render homenagem a uma especialidade da medicina moderna que, por justas e justificadas razões, merece os maiores encômios. A data comemora o Dia do Médico Nefrologista – tributo merecido a quem consagra sua trajetória à saúde renal e ao bem-estar pleno do paciente, na condição de decifrador dos sinais sutis, sentinela do que é essencial, mas raramente reconhecido. Especialista do invisível e intérprete de silêncios, ele identifica o que o corpo murmura antes que ecoem os alertas. Cuida com exatidão, acompanha com sensibilidade, atua com clareza mesmo diante do que poucos conseguem captar.
A escolha da data remete à criação da Sociedade Brasileira de Nefrologia, em 1960 – um ponto de virada na consolidação da especialidade no Brasil. Em 2024, a Frente Parlamentar da Nefrologia obteve aprovação de requerimento na Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados e realizará uma audiência pública sobre o tema – passo relevante na caminhada pela inclusão oficial da data no calendário nacional.
Ser nefrologista vai além do ofício – é vocação. É pacto cotidiano com a manutenção da vida em seus aspectos mais delicados. É estar presente na atenção constante, antes da emergência. Isso porque os órgãos, em sua maioria, possuem linguagem peculiar. O coração pulsa alto. Os pulmões se expandem. A pele reage, alerta. Mas os rins? Esses operam em discreto silêncio. Atuam sem alarde, todos os dias, garantindo a harmonia do organismo – depurando a essência da vida. Continuam vigilantes enquanto você repousa, caminha, respira. Mantêm a estabilidade do que não se vê. Talvez por isso sejam lembrados apenas quando já é tarde.
Somos quase seis mil nefrologistas para atender e tratar milhões de pessoas com algum tipo de doença renal no Brasil. Estabelecemos vínculos de longo prazo com pacientes e suas famílias e, por outro lado, chamamos a atenção de forma constante sobre o fato de que cuidados simples como exames de rotina que incluam a dosagem de creatinina no sangue e o exame de urina são capazes de detectar e atestar a doença de forma precoce e eficaz.
Mas se nos consultórios, clínicas, ambulatórios e hospitais cultivamos esse dom de “ouvir” o silencioso órgão, também sabemos fazer barulho para chamar a atenção da necessidade de um financiamento mais justo da terapia renal substitutiva no SUS, debater modernas técnicas e antecipar ferramentas que possam garantir maior qualidade de vida aos nossos pacientes.
Sim, existem profissões que salvam com atos visíveis. E há outras, como a nefrologia, que preservam a vida onde ela pulsa silente. Nossos reconhecimentos àquele que, com rigor, constância e humanidade, filtra a existência: o médico nefrologista.
*Natalino Salgado Filho,
PhD em Nefrologia

