20/01/2026

Do bar ao vinil

Em “Vinil & Poesia”, a jornalista e dj Vanessa Serra reuniu a nata da música e poesia produzidas no Maranhão; o resultado pode ser conferido num disco que leva o nome do projeto. O lançamento da coletânea ocorreu no último dia 16 de dezembro de 2020, pelas redes sociais.

Então veio a pandemia. Depois o isolamento social. E o lockdown. Para suportar e sobreviver ao difícil momento, inúmeras lives para tentar amenizar a saudade da vida social, de ir ao bar, jogar conversa fora, ouvir boa música na companhia dos amigos. Entre elas, o “Vinil & Poesia”, que a jornalista e DJ Vanessa Serra nunca deixou de fazer, mesmo quando foi emurrada ao formato online.

O projeto já era vitorioso ao estimular o diálogo entre música de qualidade e tirar a poesia do lugar solene da página do livro e levá-la ao bar, para ser dita e ouvida por gente atenta, curiosa e esperta. Gente antenada, enfim. Mas uma vitória de um a zero é menos gostosa que uma goleada e Vanessa Serra marca mais um golaço: 14 participações de artistas nas noites (lives) do “Vinil & Poesia” estão registradas em um disco de vinil. E que também estará disponível nas plataformas digitais. É luxo só, como diria o poeta.

“Vinil & Poesia” é uma realização de VS Comunicação e Cultura, com recursos da Lei Federal de Emergência Cultural Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, edital n. 05/2020/UGCAC/SECMA. Gravado no estúdio Zabumba Records, reúne uma constelação de primeira grandeza da música e poesia produzidas em terras maranhenses.

Na ordem de aparição, Lúcia Santos diz seu poema “No umbigo da noite insana”; Célia Leite zabumba em “Pedras de cantaria” (parceria dela com Jorge Passinho, que faz participação especial na faixa); Mano Borges evoca os ares oitentistas da intensa produção musical maranhense daquela década em “Duas ruas desertas”, de sua autoria; “De São Marcos a São José” nos conduz, pelo sotaque, ao Vale do Pindaré, na parceria de Eloy Melônio e Josias Sobrinho, cantada por este; “Esse tu” é mais uma delicada amostra da parceria profícua de Celso Borges e Nosly, que a interpreta; “Tanto fogo” (Jorge Passinho/ Inaldo Lisboa/ Maninho Quadros), interpretada por Dicy, com participação especial de Santacruz, mete o dedo em ferida atualíssima da tragédia brasileira; e César Nascimento cantando o xote “João do Vale, minha homenagem”, de sua autoria, fecha o lado A do disco.

O lado B abre com a voz de Celso Borges em seu poema/toada hi-tech “Tambor de crioula”; “Chovia no canavial”, com que Zeca Baleiro presenteou o projeto, ganha interpretação especial do grupo As Brasileirinhas; o multifacetado Jorge Thadeu comparece com “Guajajara”, de sua autoria; “Ventre livre”, de Luís Du Rosário, é a bela estreia em disco de um artista que não encarou a música como profissão, apesar do imenso talento; Gerude relê o clássico “Jamaica São Luís”, parceria sua com Cyba Carvalho; Betto Pereira comparece ao disco para além da embalagem: canta o reggae “Nação vibration”, parceria sua com o jornalista Gilberto Mineiro; e Tutuca Viana fecha o álbum com a balada “Luz de neon”, escrita em parceria com João Marques.

A riqueza deste álbum está no atrito entre poesia e música, para além da leitura de poemas com fundo musical e da pergunta mofada “letra de música é poesia?”, num diálogo estimulante entre gêneros, gerações e a diversidade da cultura popular do Maranhão, ao mesmo tempo plural (pela variedade) e singular (certas coisas só existem por aqui).

“Aqui conseguimos reunir um belo roteiro de canções… Acordes e versos, palavras e tons, memórias profundas, alimento para a alma da gente… “Vinil & Poesia”, de fato, é uma imensidão de sentimentos… É coletividade, pertencimento, entrega e amor”, sintetiza a jornalista, dj e produtora Vanessa Serra em texto na contracapa do elepê.

Ela assina a concepção e direção geral do projeto, que tem direção técnica de Maurício Capella (companheiro de arte e vida), direção artística de Luiz Cláudio, direção musical de João Simas, produção executiva de Suzana Fernandes e produção técnica de Joaquim Zion (seu padrinho no ofício da discotecagem). As artes de capa, contracapa e encarte são de Betto Pereira e o projeto gráfico é de Eric Félix. O álbum é dedicado “à memória, vida e obra de Raimundo Nonato Rodrigues de Araújo (Maestro Nonato), Nonato Buzar, Papete e Gérson da Conceição”.

Muita gente procura o bar para espairecer e vai ao lugar certo. Outros afogam mágoas e também não estão no lugar errado. Alguns, no dia seguinte, querem esquecer o que fizeram. Vanessa Serra eterniza um momento bonito e importante, de um projeto frequentado por “gente fina, elegante e sincera”. Agora, mesmo quem não sai à noite, não frequenta bares ou não curte um drinque, pode levar “Vinil & Poesia” para casa. A inscrição “volume 1”, que lemos na capa do disco, já nos leva a responder, como naquele velho rock: “mais uma dose? É claro que eu tô a fim”.

O disco “Vinil & Poesia” está disponível nas plataformas digitais (Deezer, Spotify e Youtube) e está em fase de prensagem na fábrica Vinil Brasil. O LP deve chegar para à venda e distribuição em Março de 2021.

VINIL & POESIA – O projeto “Vinil & Poesia” idealizado por Vanessa Serra, começou em dezembro de 2019, em casa de nome mais que apropriado, o Cazumbá Lounge, na Lagoa, aliando essas duas paixões em um sarau poético-musical. Por ocasião da estreia da temporada de “Vinil & Poesia”, além dos vinis de seu ofício, Vanessa Serra levou alguns livros, priorizando autores e autoras maranhenses, instigando o público a participar. O que no início tinha jeito de brincadeira, tomou ares sérios e, além da participação do público, logo depois a tertúlia semanal começou a receber poetas e músicos como convidados, para canjas ao vivo, durante o set da dj.

Somente recentemente, com a liberação de eventos de pequeno porte, observadas as normas de segurança sanitária vigentes, ela voltou a realizar o evento presencialmente, agora às quintas-feiras, no mesmo lugar, o Cazumbá Lounge – Lagoa.

Jornalista de formação e produtora de profissão, Vanessa começou a discotecar em 2016. É pioneira no Maranhão em termos de representatividade de gênero e estilo. Ela é considerada uma dj consagrada, apesar do pouco tempo de estrada, já participou dos maiores festivais locais, e apresentações em São Paulo, na ocasião da Semana Internacional de Música 2018 e Virada Cultural 2019, a convite do Festival BR 135. Integra dois coletivos nacionais na plataforma Twitch, o Festival “Segunda Sem Lei” e o Canal “UhManasTV”, formado somente por mulheres, discotecárias e profissionais da Música.

Vinil & Poesia – Volume 1

Lado A
1.      No umbigo da noite insana (Lúcia Santos) – Lúcia Santos
2.      Pedras de Cantaria (Célia Leite/ Jorge Passinho) – Célia Leite, part. especial Jorge Passinho
3.      Jamaica São Luís (Gerude/ Cyba Carvalho) – Gerude
4.      Nação Vibration (Gilberto Mineiro / Betto Pereira) – Betto Pereira
5.      Duas ruas desertas (Mano Borges) – Mano Borges
6.      João do Vale, minha homenagem (César Nascimento) – César Nascimento
7.      Esse tu (Celso Borges/ Nosly) – Nosly

Lado B

1.      Tambor de Crioula (Celso Borges) – Celso Borges, part. especial Luciana Simões
2.      Chovia no Canavial (Zeca Baleiro) – As Brasileirinhas
3.      Guajajara (Jorge Thadeu) – Jorge Thadeu
4.      De São Marcos a São José (Josias Sobrinho/Eloy Melônio) – Josias Sobrinho
5.      Ventre Livre (Luís du Rosário) – Luís du Rosário
6.      Tanto fogo (Jorge Passinho/ Inaldo Lisboa/ Maninho Quadros) – Dicy, part. especial Santacruz.
7.      Luz de Neon (Tutuca Viana/ João Marques) – Tutuca Viana

 

 

 

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