20/01/2026

Elza e Mané protagonizam série que revela heroína e gênio doente e eterno

Por Juca Kifouri

Fosse um jogo e ela seria a grande vencedora, porque não apenas uma das maiores cantoras da história da música como alguém que, por amor, sacrificou-se para tentar curar um gênio doente de doença insidiosa, o alcoolismo.

A série em quatro capítulos que está na Globoplay, de autoria e direção de Caroline Zilberman, é dos mais belos e cruéis documentos sobre a lendária Elza Soares e o imortal Mané Garrincha.

Não bastasse recuperar cenas históricas dele nos gramados e dela nos palcos, o documentário é um desfile de depoimentos que reúne outros gênios da raça como Chico Buarque de Holanda, segundo ela essencial na vida do casal no exílio italiano, e Caetano Veloso, ambos aos pés da negra que nunca se curvou diante de todo o sofrimento que enfrentou heroicamente.

Tem também uma tabelinha formidável entre dois colunistas desta Folha, Zeca Camargo, autor da biografia, “Elza”, pela editora Leya, e Ruy Castro, que escreveu “Estrela Solitária, um Brasileiro Chamado Garrincha”, pela Companhia das Letras.

José Trajano também está no doc com sua verve e sensibilidade, conhecedor profundo das coisas da música e do futebol, num roteiro, de Rafael Pirrho, que não permite ao espectador desgrudar-se da tela nem por um segundo dos cerca de 200 minutos à altura do casal cuja história é contada com ternura e verdade, sem concessões.

Da imperdível minissérie fica a constatação, para nunca mais ser posta em dúvida, sobre quem foi importante para quem.

Mané Garrincha deve a Elza não só o que ela fez de bem por ele como o mal que lhe causou, gênio que driblou a tudo e a todos, menos a doença do álcool que se acostumou a tomar desde os dez anos de idade.

Elza, filha da fome como se apresentou a Ary Barroso, caiu e deu a volta por cima um sem-número de vezes.

Mané chegou ao ponto mais alto do mundo do futebol entre 1957 e 1962, quando foi tricampeão carioca pelo Botafogo em 1957, 1961 e 1962 e bicampeão mundial pela seleção brasileira, em 1958, ao assombrar o planeta na Suécia, e em 1962, no Chile, ao carregar o time, sem Pelé, nas costas.

Jogou 60 jogos com a camisa amarela, saiu vitorioso 52 vezes e derrotado apenas uma, na Copa de 1966, na Inglaterra, quando já estava em franca decadência, da qual não se recuperaria.

Elza Soares foi perseguida pela ditadura brasileira a ponto de precisar sair do país e, em 1999, foi eleita, numa votação realizada pela BBC de Londres, a Voz do Milênio.

CARTÃO VERMELHO

Por falar em José Trajano, saibam a rara leitora e o raro leitor que a partir desta terça-feira (8), sempre às 15 horas, ao vivo, estreará no Canal UOL, do Grupo Folha, o programa Cartão Vermelho, sucessor do histórico Cartão Verde da TV Cultura, com Trajano e este que vos escreve, espaço para se falar de futebol, política e cultura, porque tudo se mistura, e disponível também nas principiais plataformas de podcasts.

Quem nos conhece e gosta sabe o que pode esperar e será muito bem-vindo.

Quem desgosta sabe também e está convidado a se irritar.

 

 

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