A escritora Lya Luft faleceu na madrugada desta quinta-feira (30) em Porto Alegre, segundo sua filha, Suzana Luft. Natural de Santa Cruz do Sul, ela tinha 83 anos. Lya faleceu em casa.
Segundo Suzana, Lya lutava há 7 meses contra um melanoma, câncer descoberto já com metástase. Ficou internada, mas pediu para ir para casa antes do Natal. Ainda de acordo com a filha, Lya morreu enquanto dormia.A cerimônia de despedida deve ser restrita à família.
O governador do RS, Eduardo Leite, manifestou pesar pelo falecimento. “O RS perde um dos seus maiores nomes da literatura. Lya Luft nos deixa aos 83 anos e abre uma lacuna difícil de ser preenchida. Que Deus conforte a família e os amigos”, postou.
A escritora passou por tratamento e chegou a ser internada algumas vezes no Hospital Moinhos de Vento, na Capital — aliás, algumas de suas colunas citavam suas internações. “Nessas noites no hospital, às vezes meio adormecida, eu acariciava a coberta macia e, por um instante, jurei que era o doce pelo de minha lulu Penélope”, descreveu na crônica Chegar em Casa, de 30 de outubro, que abordava seu sentimento ao retornar ao lar após mais um período no hospital. “Mas estar encolhida sob as cobertas com chuva e ventania lá fora não tem preço: é como chegar em casa depois de um triste exílio”, concluiu.
Assim como sua literatura, Lya abordava temas amplos e universais em suas crônicas, trabalhando desde o cotidiano ao âmago humano. Em seus últimos meses, a morte era um tema recorrente. Em O fim da vida é uma escada?, de 21 de agosto, ela refletiu: “Na invenção da casa da vida, sempre surge aquele muro, aquele portão enorme, aquela escada que parece não dar em lugar nenhum. Subo uns degraus, mas acho que se puder desço correndo”.
Já em A pálida esperança, de 16 de outubro, Lya destacou: “Não quero ser uma criatura dessas que se movem quando tudo dorme. Não quero ser essa imaginação que ameaça se tornar realidade. Quero meu sangue nas veias, os dentes na boca, o riso, o grito, o olhar, o abraço, as pessoas que importam mais do que os seus reflexos. Quero a juventude que me rodeia, as crianças que me fazem rir, a amizade que me faz florescer sempre de novo, e o amor”. “Não quero ser uma Penélope (personagem da mitologia grega) cujos dias se resumem a tecer a própria mortalha”, ressaltou no texto.
Intitulada Palavras em colo de mãe, sua penúltima coluna inédita de GZH (4 de dezembro), Lya trazia fragmentos de memórias de sua infância. Ao detalhar sobre como se tornou escritora, ela afirma: “Sempre escrevi em pensamento histórias para mim mesma, usando e abusando do giro das palavras dentro de mim. Era meu jeito de ser e continua sendo. Desaparecer nas palavras e repetir: ‘Não queiram me decifrar, não me prendam com o alfinete da interpretação. Se digo flor, é flor; se digo água, é água; corrente de sinais com o meu nome embaixo'”. Então, ela arremata: “E também ele um dia vai evanescer como umidade nas paredes. E tudo será silêncio de grande colo de mãe”.
Em sua onisciência alcançada nos últimos meses, a escritora compreendia que “a vida não é para ser entendida, mas recebida, aceita ou não, curtida, domada ou sofrida com sua beleza, chatice ou dor, assim mesmo, várias fases”, como escreveu em Flor, flores e entendimento, coluna publicada em 6 de novembro. Em A esperança (21 de outubro), ao refletir sobre a magnólia, apontou que “amamos a vida mesmo na incerteza e na dor, como amamos essa flor estranha”.
Sua desilusão com a situação do país também se fez presente. Em Roendo ossos velhos (9 de outubro), ao abordar temas como pobreza menstrual, fome e vacinação, Lya se mostrou frustrada: “Realmente, o mundo em que vivemos é um i-mundo. Mundo é ordem. Nós somos a desordem cruel, assassina, cínica, cretina, hora a hora repetida, discutida e afirmada, como um vômito insensível na nossa cara o dia todo”.
Sua última coluna inédita foi publicada no dia 11 de dezembro, com o título Quem diz?. “Quem diz que somos bons seres humanos? Não somos bons nem maus, escrevi num poema anos atrás: somos tristes”, afirma a escritora na abertura da crônica. No texto, a autora apresenta uma resignação diante de questionamentos profundos: “De repente nos fazemos a pergunta velhíssima: o que estou fazendo aqui? Agora? Qual meu rosto atrás das máscaras que uso para sobreviver — eu acho? Mas afinal vemos que tudo é pretensão e tolice, porque não saberemos. Então a gente boceja, vira de lado, cobre a cabeça com a coberta, e dorme. Profundamente. Sem vãs filosofias”. Por fim, pontua: “Antes de cair no doce sono abrimos um olho: amanhã vou perguntar ao pai o que é democracia”

