O Estado, nesta reportagem, pretende contar parte dos fatos marcantes de um dos “chãos” antigos, recentemente recuperado
THIAGO BASTOS / O ESTADO28/11/2020
São Luís – No início do século XVII, a capital São Luís a partir de sua descoberta por missão europeia, de acordo com a versão oficial, registra a formação de sua configuração urbana. As primeiras praças, os espaços públicos e os logradouros, que tradicionalmente formaram o mapa da cidade, foram fundamentais para o erguimento de prédios e construções que atualmente englobam um dos maiores conjuntos arquitetônicos do mundo. Imóveis estes que possibilitaram a São Luís receber o selo de Patrimônio da Humanidade.
A influência de diversas populações foi marcante para o desenvolvimento de uma São Luís que, há mais de 400 anos, especializa-se na arte de repassar tradições de uma geração para outra. Se por um lado o poder público oportuniza medidas de preservação de espaços de rica história, por outro, os ludovicenses ainda não carregam como marca a preocupação com o conhecimento dos fatos antigos da Ilha.
O Estado, nesta reportagem, contará parte dos fatos marcantes de um dos “chãos” antigos e que recentemente foi recuperado pelo poder público. O anterior Largo do Carmo (atualmente Praça João Lisboa) tornou-se um dos locais mais frequentados de São Luís, por uma parcela de cidadãos curiosa em conhecer de perto peças restauradas e observar um espaço com marcas mais fiéis do Largo original.
A compreensível curiosidade dos visitantes e o saudosismo dos mais velhos, que vivenciaram as décadas pomposas de 1940 e 1950, caracterizam o público que visita o Largo ou Praça – esta última, cujo nome faz referência a um dos membros marcantes do jornalismo maranhense. Para compreender a importância do Largo do Carmo, é fundamental relembrar o nascimento de São Luís.
Da Batalha à mudança de nome: a importância do Largo no passado
Na primeira metade do século XVII, São Luís ainda sofria com invasões. Em 1640, os holandeses por aqui passaram e tentaram, a todo custo, se apropriar das terras reconhecidamente férteis pela produção de cana-de-açúcar. Um dos locais já existentes e alvo de depredações foi a Igreja do Carmo, construída por congregação religiosa e que serviu como quartel militar para os lusos.
De acordo com o historiador Euges Lima, durante o conflito, os religiosos estimularam brancos e indígenas a voltarem-se contra os invasores. Foi nos arredores do Largo que se deu uma batalha em que, segundo o membro da Academia Maranhense de Letras (AML), Benedito Buzar, as tropas de Antônio Teixeira de Melo (sargento-mór e membro da colônia que aqui se desenvolvia) derrotaram os intrusos.
Vista atual do Largo do Carmo, após reforma recente
A parcela menos favorecida da colônia, aliás, usou o convento ao lado da Igreja do Carmo como abrigo e após a expulsão dos holandeses, o convento abrigou diversos órgãos, incluindo o Corpo de Artilharia e o Corpo de Polícia.
Segundo Buzar, além de palco de batalha importante, no Largo do Carmo, também existia um pelourinho de mármore que, segundo pesquisa do professor Domingos Vieira Filho, servia de suplício para negros escravos. O monumento teria sido destruído em 1888, no entanto, pesquisa de Euges Lima atesta que parte da estrutura serviu de base para outro monumento, na Praça Manoel Beckman.
Ainda no Largo do Carmo, mais especificamente no convento de mesmo nome – durante a gestão de Vicente Tomás Pires de Figueiredo, instalou-se o Liceu Maranhense, no Convento do Carmo.
O Largo da década de 1940 e o rejuvenescimento da Praça
Mudança de nome do Largo do Carmo e a homenagem ao jornalista
Em 28 de julho de 1901, por meio da Resolução nº 14, foi consolidada a mudança do nome do espaço público para Praça João Lisboa, em homenagem à memória do jornalista que, por anos, marcou época na comunicação maranhense. Segundo Buzar, em seu artigo intitulado “As Reformas do Largo do Carmo”, no governo de Luís Domingues, – por meio da Lei Estadual nº 582, de 24 de abril de 1911, foi autorizada a contratação do escultor francês, Jean Magrou, para fazer a estátua de João Lisboa.
O acessório permaneceu guardado nos porões do Palácio dos Leões até 1918, quando saiu por iniciativa do também governador da época, Antônio Brício de Araújo, que a inaugurou em seguida. Antes disso, em 1912, quando se comemorou o centenário do nascimento de João Francisco Lisboa, foi decidido que seria providenciado um monumento alusivo a ele.
A estátua também contaria, em sua parte interna, com os restos mortais de João Lisboa que, de acordo com os documentos da época, falece em Portugal. Assim que a estátua é posta para a disposição e inauguração, é organizada a cerimônia de entrega.
O ato fora realizado, de acordo com Domingos Vieira Filho, com pompa e conta com a presença do governador Luís Domingues, de autoridades civis, militares e religiosas, além de intelectuais e estudantes. Segundo Buzar, a responsabilidade pela organização do chamado ato cívico foi dada à Academia Maranhense de Letras (AML), presidida à época por José Ribeiro do Amaral. Ele, inclusive, ocupou a Cadeira de número 11, patroneada por João Francisco Lisboa.
Segundo Domingos Filho, a cerimônia fora presidida por Antônio Brício, então governador do Estado, e contou com as presenças do prefeito de São Luís na ocasião, Clodomir Cardoso, o bispo Diocesano, Dom Francisco de Paula, do presidente do Tribunal de Justiça, Desembargador Valente de Figueiredo, do presidente do Congresso Estadual, Carneiro de Freitas e outras autoridades.
Representando a Academia Maranhense de Letras (AML) à época comparecem os acadêmicos José Ribeiro do Amaral, além de Domingos Barbosa, Alfredo de Assis, Godofredo Viana, Fran Pacheco e outros.
A praça João Lisboa – ou conhecida anteriormente como Largo do Carmo – permaneceu com a mesma configuração até o fim da primeira metade do século XX, quando a capital executou obras que modificaram a área a partir da iniciativa de gestores.
No entanto, é preciso entender o contexto para compreender que a aplicação dos serviços se deu em um momento de rompimento político e divergências entre governantes.
Outro lado do largo, com estátua de João Lisboa e primeiro abrigo, década de 1950
SAIBA MAIS
José Ribeiro do Amaral nasceu em São Luís, a 3 de maio de 1853, e faleceu na mesma cidade, a 30 de abril de 1927. Iniciou sua formação educacional no Colégio de Nossa Senhora da Glória.
Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, esteve no grupo de trabalho que em 30 de novembro de 1925 fundou o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, então denominado Instituto de História e Geografia do Maranhão.
Já João Lisboa residiu por anos no antigo Largo do Carmo e, portanto, a ligação com o espaço era particular. O jornalista nasceu em Pirapemas (MA), no dia 2 de março de 1812 e faleceu em Lisboa às duas horas da manhã do dia 26 de abril de 1863. De acordo com historiadores, seu corpo fora transferido para um mausoléu no cemitério dos Prazeres, na capital portuguesa e, anos mais tarde, trazido para a capital maranhense.
Conhecido como o “Timon Maranhense”, devido ao Jornal de Timon – periódico de grande sucesso no período e cuja primeira publicação saiu em 25 de junho de 1852 em um folheto composto por cem páginas, João Lisboa precede um período que marca a presença de grandes escritores e pesquisadores, como Odorico Mendes, Sotero dos Reis e César Augusto Marques.
NÚMEROS
1640 foi o ano do confronto entre portugueses e holandeses cujos registros datam do entorno do Largo do Carmo
1812 foi o ano de nascimento de João Lisboa
1901 foi o ano em que se consolidou
======================
O Largo da década de 1940 e o rejuvenescimento da Praça
Registrou-se o “renascimento” de um dos pontos mais emblemáticos da cidade; o Largo do Carmo e Praça João Lisboa representam um dos espaços mais importantes de São Luís
THIAGO BASTOS / O ESTADO28/11/2020
São Luís – Com a consolidação da Proclamação da República, o sistema de administração dos estados no país registra modificação. Por se tratar de um período de transição, era inevitável que os gestores à época priorizassem outras questões em detrimento de investimentos mais maciços no Maranhão, em especial.
Em São Luís, não foi diferente. A cidade viveu uma espécie de hiato na aplicação de recursos, por exemplo, para a execução de melhorias. Além da falta de interesse, a colocação em prática de obras públicas esbarrava em duas dificuldades: divergências políticas entre os governadores em torno da estipulação das prioridades à população e carência na aquisição de materiais para construção.
Então interventor, Antônio Martins de Almeida nomeou Alexandre Bayma como prefeito de São Luís. Martins de Almeida, na edição do Diário Oficial do dia 1º de março de 1935, abordava a questão de obras urbanísticas em território ludovicense. Disse o gestor: “Queremos fazer um apelo aos capitalistas e proprietários de São Luís, no sentido de que empreguem os seus capitais em edificações ou reconstruções, modificando esse deplorável aspecto da cidade colonial”.
Quando Almeida cita a necessidade de investimento privado na cidade, ele praticamente exime qualquer responsabilidade do poder público em melhorias. Um dos locais mais atingidos com esta política é o antigo Largo do Carmo que, neste período, não recebe a atenção devida da administração.
O prefeito Antônio Bayma, nomeado por Almeida, corrobora o pensamento almeidístico e cita que, para facilitar o tráfego, era necessário retirar algumas árvores da Praça João Lisboa, sob a justificativa de que por serem grandes e frondosas, contribuíram negativamente para a segurança pública, pois poderiam servir supostamente como “esconderijo” para meliantes.
Recuperação do Largo: a tentativa de rejuvenescimento
Na década de 1940, a esperança renasce. Se o mineiro Martins de Almeida pregava ações radicais, conforme explicita artigo do acadêmico Benedito Buzar, para desfigurar a cidade, evitando que a administração municipal “se visse livre de problemas urbanísticos”, o maranhense Paulo Ramos – que assume a gestão da cidade, seguia outro caminho.
Em Diário Oficial datado de 19 de agosto de 1938, Paulo Ramos explicitava os obstáculos para a execução de obras públicas em São Luís. Cita o documento que “a construção” e intervenções urbanísticas são consideradas “caras e quase inexequíveis”. Ainda de acordo com Ramos, “o tijolo, a cal, a telha, a areia grossa e outros materiais atingiram preços excepcionais, havendo verdadeiros lances de leilão”.
Segundo o pesquisador reconhecido César Marques, o interventor Paulo Ramos não se abateu por estas e outras questões que o estado enfrentava na área da construção. Uma das medidas para superar o problema foi utilizar, até então, a “considerada boa arrecadação da máquina” e o aporte de recursos federais para fazer alterações mais bruscas na capital.
Com isso, Paulo Ramos realizou algumas intervenções, como na atual Pedro II (um dos nascedouros da cidade) e ainda no Largo do Carmo (que já recebeu à época a denominação de Praça João Lisboa). Além de recuperação no calçamento e outras reformas, uma medida também tomada foi a mudança de local da estátua de João Lisboa, fixada no Centro desde os primeiros anos do século XX.
Era o “renascimento” de um dos pontos mais emblemáticos da cidade. “O Largo do Carmo ou Praça João Lisboa representam espaços importantes e tradicionais da cidade. Foi ali por exemplo que São Luís começa a crescer e a construir a sua malha urbana”, disse o historiador Euges Lima.
Largo do Carmo, antiga e nova atração de São Luís
Curiosidades do Largo do Carmo
Antes da recuperação na década de 1940 (pequenos reparos na verdade) no Largo do Carmo, o local – mediante representação da Igreja do Carmo – recebeu eventos e outros fatos importantes. Registro de “Pacotilha” de janeiro de 1910 atestou que houve a inauguração no período de um trecho de “locomotiva” do “Rozário” até o Carmo.
A locomotiva, neste caso, deve se referir – conforme conclusão de O Estado – ao bonde cujas linhas eram comuns em determinados períodos da cidade de São Luís. Outro fato marcante foi registrado e rememorado por “O Combate”, no dia 16 de julho de 1929.
Segundo o periódico, na data (uma terça-feira) completava 25 anos que o ex-bispo do Maranhão, dom Xisto Albano, presidiu a sagração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, que segundo o jornal se “orienta ao Centro” da praça de seu nome. Na época, a congregação fora entregue ao superior dos capuchinhos, frei Estevam Sexto.
A Igreja do Carmo também receberá, antes da reforma anterior – na década de 1940 (uma intervenção específica) atos familiares de lembrança de entes queridos. Um destes aconteceu no dia 9 de julho de 1928, conforme atesta o jornal “O Combate” de dias antes.
Os abrigos que não existem mais…
O Estado de 28 de julho de 2018, traz em suas páginas material acerca da história dos abrigos da João Lisboa. Construído a partir do ano de 1951 e inaugurado no ano seguinte, durante as gestões de Eugênio Barros (governador do Maranhão) e Alexandre Costa (prefeito de São Luís), o chamado “abrigo novo”, abrigo dois ou popularmente conhecido como abrigo da João Lisboa (em referência à praça de mesmo nome) foi entregue com 10 boxes como uma opção para aquisição de lanches e posto de carros na região.
De acordo com informações do Arquivo Público do Estado do Maranhão e da obra “Becos e Telhados”, do historiador e pesquisador Antônio Guimarães, a estrutura foi concebida pela construtora Brito Passos, cujo mentor morou em um imóvel na rua do Sol (onde atualmente funciona a sede do Sindicato dos Bancários do Maranhão).
À época, o abrigo da João Lisboa estava incluído em um projeto de revitalização da Superintendência Regional do Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O primeiro ocupante do abrigo dois foi, conforme citado em “Becos e Telhados”, um homem identificado como Jorge Pereira da Silva, que seria natural da cidade de São Bento.
Após isso, o local virou referência em localização urbana. Era comum a permanência de taxistas no entorno da estrutura, consumindo os pratos feitos em especial pelas cozinheiras que usavam os abrigos para a preparação de seus alimentos.
Reforma
Ainda em 2018, o Iphan informou a O Estado que o projeto para a recuperação dos abrigos estava “em fase final de elaboração” e as obras estavam orçadas em aproximadamente R$ 4,9 milhões. No entanto, os recursos para os serviços ainda estavam sendo angariados. A direção do Iphan foi consultada e afirmou que não há mais projeto para reconstrução dos abrigos.
De acordo com o superintendente do Iphan no Maranhão, Maurício Itapary, por se tratar de uma estrutura antiga, a mesma precisava ser demolida. “Como havia problemas estruturais, foi necessária a demolição da estrutura”, afirmou. Ficam neste caso apenas as lembranças de quem passou alguns momentos nos emblemáticos abrigos da João Lisboa.
trilhos Largo do Carmo
Trilhos no entorno da Praça
Durante as obras de recuperação do Largo do Carmo e seu entorno, O Estado registrou fato histórico e marcante. A retirada dos trilhos usados pelos bondes que outrora faziam o trecho do Centro e adjacências e passavam no entorno do espaço público foi feita e acompanhada pelo periódico. O fato registrado sob o olhar e as lentes do repórter fotográfico José de Jesus é um selo e um marco na transição entre o aspecto ainda envelhecido do local e o atual, rejuvenescido.
Maria e Bianca
Frequentadores gostam da nova praça
O Estado conversou com moradores de São Luís que deram suas impressões acerca do espaço. A maioria gostou do resultado da reforma. Jovens e adultos em geral disseram que os reparos abrilhantaram um local que merecia essa intervenção. “Gostei bastante, quando venho para o Centro, venho correndo. A gente não tem muito tempo para parar e observar a beleza deste ponto. Realmente valorizou um cenário que merecia isso”, disse a técnica de Enfermagem, Bianca Castro, que esteve em uma agência bancária próxima para resolver um problema na conta corrente e aproveitou para descansar em um banco da praça.
A dona de casa Marisa Sousa também, em companhia da jovem Bianca, elogiou o espaço reformado. “Realmente o poder público está de parabéns, sem dúvida”, afirmou.
Até mesmo os tradicionais senhores que sentam em seus bancos nos fins de manhã e tarde em especial na João Lisboa foram agraciados.
Turistas paulistas
Visão dos visitantes
Os turistas paulistas Sebastião Vital e Geny Beloti estiveram na tarde de quinta-feira (26) visitando a Praça João Lisboa e adjacências. Pela primeira vez na Ilha, eles teceram críticas à ausência de atrações, segundo eles, no Centro Histórico (Praia Grande). Porém, adoraram saber acerca da história de João Lisboa e da praça. “Existem poucos locais no nosso Estado com essa rica histórica. E é importante saber que aqui há uma preocupação em se preservar, ou se recuperar, aquilo que já foi ou ainda é fundamental para a preservação da história local”, disse Vita
Requalificação recente
Recentemente, a Prefeitura de São Luís entregou à população o espaço revitalizado. O novo Largo do Carmo (Praça João Lisboa) teve recuperada toda a parte elétrica e foi feita a inclusão do relógio emblemático do Carmo reformado. Foram incluídas no projeto as galerias para escoamento da água das chuvas e instaladas novas luminárias, lixeiras e bancos. Além do relógio, o busto do Frei Capuchinho Carlos Olearo – uma das referências da Província de Nossa Senhora do Carmo (ligada à Igreja do Carmo) foi inserido no espaço rejuvenescido. A estátua de João Lisboa foi restaurada, sem precisar ser transferida, ganhando a cor original do cobre do qual é feito o monumento. Os serviços no Largo do Carmo (João Lisboa) fizeram parte do programa “São Luís em Obras”, tiveram recursos próprios e englobam um pacote de obras da região central que incluem as praças Deodoro, Pantheon, Pedro II e Rua Grande. Além destes locais, também já passaram por reforma a Praça da Alegria, Praça dos Pescadores, Fonte das Pedras e Fonte do Ribeirão.
No entanto, O Estado observou algumas pendências importantes no projeto original do Largo do Carmo. Com base em depoimentos dos usuários da área, faltam opções por exemplo para consumo de alimentos ou mesmo para tomar um simples café curtindo um cair de sol na tarde da Ilha. Outro fato é a ausência de uma arborização mais maciça no trecho. Sem as árvores, o calor reflete no terreno e eleva a temperatura para quem passa pelo local diariamente. “Aqui em especial no início das tardes, não há a menor condição de você minimamente sentar no banco perto mais da igreja. Perto da estátua de João Lisboa é um pouco menos quente”, disse o autônomo Henrique Matos, que passa pelo Centro diariamente.

