Por Thiago Bastos – jornal O Estado do MA.
De Cristóvão, a “Sapinho”, César Teixeira, Bulcão… vozes do bairro tradicional do Carnaval foram fundamentais para a consolidação da ‘Madre Divina’ e ainda ecoam nas ruas quando chega o período da festa de Momo.
Nomes como Cristóvão Alô Brasil – e que dele derivaram outras referências na arte da composição musical, como “Sapinho”, Paletó, César Teixeira, além de Wellington Reis e tantos outros – foram fundamentais na consolidação da Madre Deus como referência do samba e da boa música na Ilha não somente no período de Carnaval, como em outros períodos do ano.
Costumes, como os de ir do Largo do Caroçudo até o Centro, em blocos, durante a programação momesca, inspiraram versos que, para os mais fervorosos fãs da boemia e dos eventos ligados à cultura, são verdadeiros hinos. As transformações do Carnaval, que tornaram a festa mais programática (com a inclusão de circuitos padronizados e de desfiles performáticos de escolas de samba) poderiam inibir a essência da festa, ou seja, a espontaneidade e liberdade em curtir os dias de graça e diversão da forma que bem entenderem (desde que, claro, obedecendo aos requisitos legais).
Após o surgimento da espontaneidade dos blocos (organizados e tradicionais) que desfilavam pela Madre Deus, em 1997 – com a inclusão de São Luís como Patrimônio da Humanidade – o bairro passou a configurar oficialmente os circuitos permanentes de festa e a receber eventos com a chancela do poder público de forma mais constante.
No entanto, em cada rua, em cada esquina, como diz o poeta Luis Henrique Bulcão, a Madre Deus “é uma panela de pressão” que parece ferver ininterruptamente. Entender como a Madre Divina chegou a tal configuração nos tempos de hoje, ainda que com as transformações da cidade e intervenções da administração pública, é voltar ao passado.
A tradição dos blocos e o “brotar” dos compositores
na Madre Deus
Na década de 1970, São Luís viveu uma época inesquecível de sua história, com
um Carnaval, em especial, genuinamente das ruas e dos blocos, em sua maioria,
organizados. Pelo menos em termos de manifestações, muitos historiadores e
pesquisadores, como Ananias Martins, definem como o período mais rico da festa
na cidade.
Essas brincadeiras convergiam para os cordões e corsos. O apogeu dos cordões, por exemplo, que se caracterizavam pela união de foliões de toda a parte do território foram descritos por Carlos de Lima, em “Antigos Carnavais”. De acordo com Lima, os cordões vinham “pela Vila Passos, do Canto da Fabril, do Alto da Carneira e da Madre Deus”. Segundo o escritor, moças e rapazes vinham fantasiados com calças lisas e blusas coloridas e entravam nas casas cantando e dançando “de toda maneira”.
Os blocos, que na Madre Deus são lembrados com carinho por moradores ou por quem foi criado lá, ou mesmo por quem tem apego à festa e frequenta um dos “berços” da cultura local, são os citados “Turma do Quinto” (referendado como escola de samba de sucesso anos mais tarde), além do “Cruzeiro”, organizado por “Sapinho”, um dos grandes compositores maranhenses.
Ainda no contexto dos blocos organizados, é impossível não lembrar do URTA (Unidos do Regional Tocado a Álcool). O grupo, nascido e desenvolvido na Madre Deus, era referendado por Wellington Reis, uma das referências na cultura popular do estado. Foi a partir deste grupo (nascido na década de 1960 e que ganhou maior projeção em 1970) que nomes como Bulcão, Cristóvão e o próprio Wellington Reis se notabilizaram no Carnaval de rua da cidade.
O próprio Luis Henrique Bulcão contou a O Estado que se tratava de um grupo no contexto dos blocos organizados, com o referencial de estandarte, com balizas (ou bailarinos) e o fuá (multidão) de sempre acompanhando. “Era um grupo conhecidíssimo aqui no bairro, com seus componentes e a referência clara a quem costumava tomar umas”, disse.
O estímulo à criação de grupos do gênero partiu dos
próprios moradores e dos tais compositores “que brotavam e ainda brotam” de
cada esquina da divina famosa. A necessidade de elaboração dos grupos era
essencial para a festa.
Eram vários os blocos que saíam da Madre Deus em cortejo, pelas ruas históricas
do Centro, até o Canto da Viração para se “apresentarem” ao público na Deodoro.
“Ficávamos atrás das cordas, usadas para delimitar o espaço, e por lá passavam
este e outros blocos famosos, com seus componentes, além de pessoas fantasiadas
que se misturavam aos componentes para fazer a alegria da festa”, disse Luis
Henrique Bulcão.
O ato de percorrer as ruas da Madre Deus rumo ao trecho central da cidade foi, inclusive, tema de canções lembradas pelos mais antigos moradores da localidade. Segundo Bulcão, “Sapinho” foi responsável pela marchinha que se inspirava em iniciativa de Ivar Saldanha para citar a transformação da Praça Rui Barbosa em Largo do Caroçudo.
Transformação do
Carnaval no berço do samba, a Madre Divina
Os versos elaborados por “Sapinho” e cantados a plenos pulmões pelos brincantes
eram assim: “Agora sim, as coisas melhorou! O prefeito Ivar Saldanha criou um
grande valor. Tem entrada e tem saída. Tem canteiro e avenida. A Praça Rui
Barbosa ficou mais querida. Mais uma volta que dou. Meu Cadillac parou e foi
embora o meu amor!”.
“Sapinho” e suas canções inspiraram outros nomes importantes. Pessoas de suma
importância para o samba e o carnaval de rua em um dos bairros mais
tradicionais ludovicenses.
Os grandes “filhos” da Madre Deus
Vários nomes que, em sua maioria, ainda são desconhecidos do grande público, foram
responsáveis pelo impulsionamento da Madre Deus como polo de cultura da cidade.
Pessoas que, muitas vezes, não registram altos graus de escolaridade e que,
apesar disso, compensavam o fato com alto conhecimento popular.
Um deles, e considerado o principal, era Cristóvão Colombo da Silva, o Cristóvão Alô Brasil. Ex-funcionário da Fábrica Cânhamo, na área têxtil de São Luís, ele juntou-se com a “Turma do Quinto”, após passar por “Cruzeiro” e outros grupos. A relação começou a partir da amizade com Renato Bulcão, pai de Luís Bulcão.
Era comum ver Cristóvão, com sua simplicidade,
recitar versos que rapidamente ficavam na memória de quem curtia um bom samba
de raiz. “Esse é o pai de todos nós!”, disse Bulcão sobre o grande artista.
Cristóvão era grande frequentador da casa de Renato Bulcão, que intermediou o
contato entre Alô Brasil e bambas do Carnaval da Madre Deus ser próxima. Em
seguida, Cristóvão foi para o Fuzileiros da Fuzarca.
Após a passagem por blocos da região, Cristóvão
passa a integrar o conjunto de puxadores da “Turma do Quinto” e também fez
parte do “Projeto Pixiguinha”, gravando com nomes como Antônio Vieira, Lopes
Bogéa, dentre outros.
A data de nascimento de Cristóvão (19 de agosto) passou a ser um marco a partir
de Projeto de Lei do vereador Marcial Lima, que sugeriu a alusão à data ao Dia
Municipal do Samba.
Outro grande nome é justamente Luis Bulcão. Nascido em 1949 na Madre Deus, é advogado, compositor, poeta e produtor cultural. Também foi membro do Unidos do Regional Tocado a Álcool (URTA) é sócio-fundador da Companhia Barrica (1985), que se constitui do Boizinho Barrica, Bicho Terra e a Natalina da Paixão.
Sua memória das épocas mais antigas da Madre Deus é marcante e até hoje o ex-dirigente da Secretaria Estadual de Cultura se destaca como grande compositor popular.
Outros nomes também são históricos, como o próprio Wellington Reis e José Pereira Godão. Este último é poeta, fundador da Companhia Barrica em 1985. A manifestação, presente na festa de Carnaval e em outros períodos do ano, é uma das mais marcantes e possui raízes claras na Madre Deus, após aglutinar vários compositores e fãs da festa.
É de se registrar ainda a importância de Zé Pivó, sambista que faleceu em 2017. Com o nome de José Ribamar Costa, Zé Pivó marcou época e também é um dos filhos da Madre Deus. Ele integrou blocos como o Fuzileiros da Fuzarca e manifestações, como a “Turma de Mangueira”.
Sem falar de César Teixeira e de Gabriel Melônio,
grande nome da “Turma do Quinto”. A O Estado, Melônio falou sobre a carreira e
o fato de ter nascido como cantor e compositor na Madre Deus.
Em 1976, Gabriel Melônio passou a fazer parte do Quinto oficialmente, mas a sua
relação com a manifestação vem de berço. “Eu via a Turma passar na minha porta
quando eu era criança. Depois que passava, em bloco, ia com meu pai até a
Deodoro para ver essa brincadeira. A Turma sempre fez parte da minha vida. Era
uma revolução, um mar de gente!”, afirmou.
O primeiro carnaval empurrado por Gabriel na
avenida foi em 1977, intitulado “A Lenda de uma Mulher Maranhense: Ana Jansen”.
Para ele, uma grande responsabilidade. “Começar assim, não foi fácil. Mas
depois que entrei, não saí mais”, disse.
Gabriel Melônio substituiu Maria Diniz, uma das sambistas das mais belas vozes
da cidade. “Até hoje que a gente entra na avenida, dá um nervoso. Ainda dá
aquela sensação”, disse.
Compositores, blocos e fuás famosos foram imprescindíveis no crescimento da Madre Deus. No entanto, a partir da década de 1990, o poder público decide colocar a localidade como foco do desenvolvimento cultural da cidade.
Projeto que alavancou o bairro: o Projeto “Madre Deus”
Elaborado pelo Governo do Maranhão durante a gestão
Roseana Sarney, o Projeto “Viva Madre Deus” feito por Luís Phelipe Andrés, se
destacou, à época, pela contribuição do Estado para as várias organizações de
manifestações populares do bairro. Neste contexto, é preciso citar o valor que
seria dado pela administração estadual ao papel de São Luís como incentivador
de um dos polos da produção cultural ludovicense.
Após ter sido escolhida como patrimônio do mundo – por apresentar um dos mais
homogêneos conjuntos arquitetônicos de origem portuguesa da América Latina nos
séculos XVIII e XIX – São Luís passa a receber incentivos para a criação de
espaços culturais na cidade. Um dos projetos do gênero era o “Viva Madre Deus”
que, de acordo com o projeto original, vislumbraria a “valorização da cultura
popular” mediante a reforma do bairro.
A iniciativa era compatível com a vontade governamental e fora reforçada
durante a gestão da secretaria de Cultura da época. “Havia o conhecimento da
importância histórica do bairro e, com isso, pensou-se na valorização do espaço
do bairro a partir de intervenções necessárias e que até hoje são usufruídas
pela população”, disse Luís Bulcão, então secretário de Cultura do Governo do
Maranhão.
Nos anos seguintes, o Governo do Maranhão intensificou a agenda de eventos na
Madre Deus e no entorno, seja com o financiamento de manifestações ou
organização de shows com artistas e grupos que, até hoje, são referência na
principal festa popular do estado.
A Madre Deus antes de virar “berço do Carnaval”
A Madre Deus surgiu em meados do século XVIII de um
sítio de roça no lugar denominado de Ponta de Santo Amaro ou Sítio da Madre
Deus, como ficou conhecido. Nesta localidade, de acordo com o historiador Euges
Lima, o Capitão-Mor Manuel da Silva Serrão construiu uma ermida para abrigar a
imagem de Nossa Senhora da Madre Deus, Aurora da Vida.
Alguns séculos mais tarde e o local passa a ser referência na extração e
captura da pesca às margens do Rio Anil, já que a Madre Deus era “banhada”
pelas águas antes do aterramento do Anel Viário. Algumas indústrias têxteis
foram implantadas no bairro da Madre Deus e contribuíram para que o Maranhão
chegasse a registrar o 3° maior parque industrial do país.
Em 1970, a localidade deixa de ser banhada pelo Rio Bacanga para viabilizar a
construção da barragem de mesmo nome e que abriu espaço para a consolidação de
bairros, como o Anjo da Guarda e outros. Conhecido como o bairro mais festeiro
de São Luís, a Madre Deus tem uma história que está muito além da Folia de
Momo.
Grandes compositores da Madre Deus
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Wellington Reis
Fez parte da Companhia Barrica e é um dos compositores mais famosos da Madre
Deus, sendo membro do Unidos do Regional Tocado a Álcool (URTA)
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Cristóvão Alô Brasil
Ex-funcionário da Fábrica Cânhamo, Cristóvão é considerado até hoje o pai dos
demais compositores da Madre Deus. Membro do Fuzileiros e da Turma do Quinto
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Gabriel Melônio
Puxador da “Turma do Quinto” desde 1976, Gabriel era integrante do Unidos do
Regional Tocado a Álcool (URTA) e casou de forma perfeita com a cultura a
partir da amizade com os bambas da Madre Deus.
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Luís Bulcão
Ex-secretário de Cultura do Estado do Maranhão, é um dos fundadores do Barrica
e um dos compositores mais famosos e nascidos na madre divina.

