14/04/2024

Meu amor, passarinho cantor, vida da parte mais linda de minha vida!

Por Laurene Leite 

Que posso eu dizer que seja luz para quem é trilha sonora do meu viver?
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Um certo dia, os clarins de Axixá anunciaram que no Viva era dia da Oração Latina, que sempre achei irmã gêmea da música de Vandré. No teu cantar, porém, a Oração me parecia mais: elegia uma oitava acima. Canto de luz, iluminando o meu coração e ali deitando raízes para sempre! Tão cristalino e doce aquele cantar, abrindo janelas de esperança em tempos de se acostumar com a liberdade…
Nunca mais deixei de te seguir, em estado de encanto!
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Antes disso, o Coral da UFMA e depois as andanças com o Barrica, ouvivendo Caixinha de Segredos, inúmeros shows dos movimentos sociais, numa paixão de infinitude, clarão de luz…
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Até que veio aquele disco tão esperado, que levei dias para ter coragem de ouvir, porque previa que o impacto no coração seria grande. Ouvi tanto Rosa Maria e Dia de Será, abraçando aquela trilha querendo alegrias, quando o lado triste da chegada de Aline em minha vida se achegava sem mais! Ouvi tanto, que minha mãe queria saber quem era o Passarinho Cantor, dono daquele canto de cristal.
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Daí, para a maratona de shows, às rodadas de visitas final de tarde na cozinha de Nega, com o Pretinho Abusadinho e as tiradas de Renatinha, ela dos cachichos caramilholas, igual os de minha Aline. Até me ver sentada na coxia, no colo de Seu Gentil, sob as bênçãos da boneca de Porcelana, Elzinha do meu querer…
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Lembro de um show em particular no TAA, que te ajudamos a se arrumar, tu vestido com uma camisa de seda multicolorida, de estampas lindas, fazendo os exercícios de voz e me dizendo que Alcione também seguia aquele ritual!! Que luxo estar ali, vivendo aquele momento.
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E lembro do festival no Rio. Por tua causa, viramos “amigos” de quem te hospedava, sem nunca ter visto quem era, só pra saber tuas notícias e a expectativa da apresentação. E foi linda!! Tu parecias gigante no palco. E minha mãe dizia: que voz linda tem esse menino!.
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E das curadorias que geraram espetáculos únicos, de tantas delicadezas e cuidados, tudo com um toque de primor tão generoso!
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Lembro, revivendo, as visitas no palacete florido da Rua da Mangueira pra ver Joel passar a mão nos cristais energizados, algo proibido, e para balançar na rede, apreciando os itens decorativos, todos lindos como a tua casa, tua cara! O palhacinho fazendo peripécias, sempre me pareceu das maiores singelezas da vida, como é pra mim o teu canto. Canto de luz e celebração, que eternizou canções de Josias, de Sérgio, Zé Pereira, César Teizeira e Bulcão e tantos outros.
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Lembro de ti cantando essas trilhas e dos palcos divididos com Rita e Fátima Passarinho, em um tempo lindo de viver na Madre Deus, guardado no peito!
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E das noites escrevendo minha monografia, te tendo como companhia, quase um ritual. Um trecho de Cavalo Cansado foi parar na apresentação da mono, pra me dizer que ter olhos no mundo era fundamental. “Quem foi que me colonizou no peito esse sonho que não tem fim…?”, minha paixão fundamental por escrever!
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Tantas conversas estão na Caixinha de Segredos, planos de poemas, portas e janelas para o viver. Aprendi tanto contigo sobre tanta coisa e tanta gente e fiz meus inimigos quem ao menos por descuido te olhou feio, atravessado. Sou exagerada igual Cazuza. Por exemplo, nunca perdoei gravações esdrúxulas de músicas que me pareciam feitas para o teu cantar. Em especial, uma de Amigos, minha preferida e saudação nos nossos encontros vida afora.
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Ah! No almoço no Flor de Vinagreira, que não te caiu bem, tu cantarolou pra mim o trecho e a abertura de Amigos, que sempre amei te ouvir cantando, anunciado pelos clarins de Axixá. “Amigos, seremos, como estrelas no céu… a luz, a luz em teu viver renascerá ao por do sol… só Maracanã me viu chorar…”
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