
(autor não se identificou, mas está bem interessante).
Há lojas que fecham pra balanço. Outras que fecham pra lembrança. Estas não reabrem suas portas nunca mais, mas ficam para sempre abertas na memória da gente, vendendo finos artigos que não estão mais no mercado.
Hoje convido vocês a dar comigo, de novo, uma passada pelo comércio da velha cidade de São Luís. Não precisamos levar cartão de crédito, dinheiro vivo ou cheque. Cartão quase a totalidade delas nem chegaram a ter e se você falasse em usar o smartphone para pagar através da internet, a moça do caixa irá achar que você é um doido fugido da Colônia Nina Rodrigues.
Cheque elas aceitam, se for da praça, e dinheiro vivo só se for Cruzeiro ou uma dessas muitas moedas de que já até esqueci o nome. Vamos lá? Não esqueça de levar o guarda-chuvas preto e enorme, pois além do sol particular que São Luís oferece a cada um, pode chover e nenhuma delas fica em galeria ou shopping center. Preparei o seguinte roteiro:

* Comecemos pela Ferro de Engomar, na praça João Lisboa, na bifurcação entre a entre a Magalhães de Almeida e a antiga Rua Formosa , hoje Afonso Pena. Lá trabalhamos com todo tipo de ferragens e todo tipo de tudo, para uma casa e seus moradores. Escápulas (armadores de rede) cruzetas (cabide para roupas) enxadas, chamatós (tamancos) moedor de carnes, serrotes, fogareiros (pequena churrasqueira) e até ferros de engomar (ferro de passar roupas ) com seus devidos depósitos para carvão…….. Lá tem!, nas proximidades poderemos aparar o cabelo na barbearia do seu Totó, “somente para homens”
* Ali pertinho, quase apegado também saindo da praça, na Rua Grande, nosso grande shopping a céu aberto, vamos encontrar A Mouraria. O simpático e falador proprietário – é uma casa portuguesa, com certeza – além de vender móveis, também nos oferece, na sua pequena lanchonete, o primeiro e genuíno cachorro quente de São Luís, que após saboreá-lo entre armários, petisqueiros e camas em geral, daremos um rápido pulinho nas lojas Acácias para tomarmos um milk shake simplesmente divino, acompanhado do famoso misto quente com seu incrível queijo puxa-puxa, e ainda tem as lojas Ocapana de modas infantil junenil e adulto, com seu delicioso primeiro sorvete de máquina do Maranhão (que se diz ser o legítimo sorvete italiano)
* Andemos mais um pouco, até o Canto da Viração. Claro que você lembra do Cine Passeio, o mais frequentado da cidade, com suas desconfortáveis cadeiras de madeira e seus inoperantes ventiladores, mas com um competente e intransigente fiscal do Juizado de Menores que segue a risca quem deve entrar conforme a classificação do filme, em frente e sempre na saída do cinema podíamos saborear o famoso caldo de ovos com torradas da lanchonete de esquina e seus rabugentos funcionários com suas toalhinhas, nunca lavadas por cima dos ombros (talvez aí o segredo do caldo). Ali do lado, a Casa Amarela vende artigos para o carnaval, como máscaras de papel machê, roupas de fofão, serpentina, confete e sangue do diabo. Na seção de São João, podemos encontrar, bombas de murrão, bombas de parede, estalinhos, morteiros o poderoso vulcão e todos os produtos da linha Caramuru. Temos um setor com todo tipo de bugigangas para estudantes: canetas, lápis coloridos e réguas com a tabuada, borrachas duas cores, cadernos com figuras psicodélicas na capa, mas que aos poucos iam perdendo o encanto ao longo do ano. Já os artigos de carnaval, esses não perdiam a graça. Não dava tempo.
* Vamos voltar pela Rua Grande. Situada X com o já visitado Ferro de Engomar na Praça João Lisboa, a Dejas Magazine foi a primeira loja dedicada a artigos esportivos de São Luís. Mas os mais vendidos são os uniformes dos times do Rio de Janeiro. Após qualquer compra ou noitada mais longa, não havia qualquer possibilidade de não se fazer um lanche no velho e pitoresco Abrigo Central na mesma praça, no cardápio principal tínhamos: pãozinho com queijo amassado na chapa acompanhado de um ovo frito malabarista de uma velha frigideira que o lançava constantemente para cima em vertiginosos saltos mortais, sem que caísse nem uma só gota do grosso óleo no qual era feito, ambos com a luxuosa companhia do melhor caldo de cana já provado no Brasil.
* 4.400 (“quatro quatrocentos” para os íntimos) é como era chamada a antiga Lobrás, ainda na Rua Grande. Levava esse curioso nome devido aos seus preços nunca ultrapassarem a quatro cruzeiros e quatrocentos réis
* Já que estamos na Rua Grande, vale também uma visita ao Tabuleiro da Baiana. Mas o que é que o Tabuleiro da Baiana tem? Vatapá, caruru, munguzá? Não. Mas tirando isso, de tudo se vendia ali. Um verdadeiro bazar de secos, molhados e úmidos: chamatós, mochos, peças de tecido, penicos, artigos de matéria plástica, bolas e até o etc.
* Mais alguns estabelecimentos não podem deixar de ser visitados na Rua Grande. Um deles é a Movelaria das Noivas, com móveis especiais para as moças que estão prestes a contrair núpcias.
mas se o desejo do freguês for o de comprar algumas roupas para o final de ano, Os armazéns Alencar, Gonçalves Dias e Fortaleza, vendem tecidos, confecções para cama, mesa e banho, com seus devidos crediários e carnês, tudo feito na própria loja, as mercadorias são embaladas por papel de embrulho e seus barbantes de nós perfeitos (esqueça as poluentes sacolas plásticas) elas não existiam mesmo! E não se preocupe em carrega-los pela rua, “o rapazinho da loja” vai deixá-los na sua casa.
* Outro é a grande loja das Casas Pernambucanas – a mais famosa cadeia de armazéns de tecidos da história do Maranhão. Diziam que tinha Lojas Pernambucanas até nos Estados Unidos. Mas isso nunca foi comprovado
* Vamos agora nos afastar um pouquinho do centro da cidade e dar um pulo no João Paulo, para conhecer o inusitado Sabão Girafa. Na verdade, é apenas um muro pintado com uma enorme girafa em frente ao CEMA (Centro de Ensino Maranhense), uma espécie de curso a distancia, mas com circuito interno de TV.
Até hoje não conheci ninguém que tenha estudado lá. A enorme girafa pintada no muro é o maior marco da informação da história de São Luís, quando o assunto versar sobre o famoso “ponto de referência”. Por exemplo: a Casa Inglesa e a Padaria do João Paulo ficam antes do Girafa, mas a fábrica da Cola Jesus e o Gás Butano ficam depois, já o mercadinho do João Paulo, fica enfrente ao Girafa. O muro recebe a figura apenas para fazer propaganda do famoso e genuinamente maranhense sabão com o nome do pescoçudo bicho africano, mas outra grande curiosidade do bairro é a Meruoca, outro grande e famoso armazém de secos & molhados, esse não fechava nunca, até mesmo por não possuir portas.
*De volta à Praça João Lisboa, após aquele pãozinho na chapa , podemos tomar uma cerveja bem gelada e atualizar o papo com os amigos no Moto Bar, o mais famoso da cidade até hoje. Políticos, fofoqueiros, bêbados, ricos e mendigos frequentam suas dependências. Não é um local para moças de família. Funciona principalmente para uma prévia do que vem a seguir: descer a Rua 28 de julho e frequentar A Maroca uma espécie de “Bataclã” para os senhores de respeito da cidade, local de extremo luxo para que homens sérios possam conversar e trocar ideias (e o óleo) na companhia dos mais respeitáveis pais de família.
Nessa nossa visita aos estabelecimentos que só estão bem estabelecidos na memória, não poderiam ficar de fora um hotel, alguns cinemas e três clubes, que merecem uma visita mais demorada, a ser feita em breve. São eles:
* O Hotel Central, propriedade do português (sempre eles!) Oliveira Maia, o mais chique e respeitado por décadas, com seu famoso sorvete de ameixa , ponto de encontro para casais apaixonados e famílias domingueiras, na Praça Don Pedro II.
* Os cinemas Cine Passeio, Rivoli, Rex, Ryalto, Rox, Olympia e o charmoso e luxuoso cine Eden com sua sessão de cinema de arte todas as quartas feiras.
* Os clubes Jaguarema, Lítero e Casino (com um “s” só mesmo) devido à proibição do funcionamento de cassinos no Brasil, a partir de decreto do presidente Jânio Quadros)) e seus carnavais de matinês e soirées. Os primeiros no Anil e o último na Beira Mar.
*Antes de encerrarmos o passeio vamos a meca do consumo, criada por mais um deles, o português Domingos da Silva Borges, estamos falando da “Mercearia Lusitana” uma pequena loja na rua Grande, mas que serve muito bem aos 70 mil habitantes de nossa saudosa cidade A Lusitana veio como um novo polo comercial substituto do tradicional comércio da Praia Grande empresa com diferencial e práticas inovadoras, com suas entregas a domicílio e com o primeiro auto serviço de atendimento no Maranhão, mas tarde o grupo viria a inaugurar o primeiro supermercado de todo o estado dentre outros variados serviços. O Grupo Lusitana faz parte do cotidiano da cidade, nunca se usou a expressão vou fazer compras no supermercado, mas sim “vou fazer Lusitana” Esteve entre as 500 maiores empresas brasileiras, mas isso é assunto para outra época.
To deur concluído, bonde voltando do Anil, até a próxima volta do tempo.
