20/01/2026

Os monumentos que ninguém vê e os retirados sem explicação

Homenagem a Miguel Ferreira, fundador da Igreja Evangélica Brasileira

Peças históricas que estão espalhadas em pontos conhecidos e de grande fluxo de pessoas, em São Luís, são precariamente conhecidas; outras não receberam o cuidado na preservação e acabaram se perdendo ou sendo retiradas

Em um simples passeio por pontos conhecidos da Ilha de São Luís, como o Centro Histórico e a Praia Grande, é possível ter contato com a rica história de uma cidade marcada por lendas, mistérios e influência dos colonizadores. Mas a memória ludovicense não é apenas representada por casarões ou acervos de peças de museus, igrejas ou descobertas arqueológicas. Em vários locais, há um legado deixado por ex-gestores e, principalmente, por artistas e representantes de grupos religiosos que são pouco explorados. O Estado percorreu ruas e avenidas e se deparou com monumentos fixados – em sua maioria – há três décadas e ainda são objetos desconhecidos da grande maioria das pessoas. Outros, como o popular “Roque Santeiro” e a “sereia da Ponta d’Areia”, não resistiram à falta de preocupação das autoridades com a história e foram destruídas.

Todas as peças – as que ainda são vistas na cidade ou as retiradas – carregam um legado de quem as moldou. Em São Luís, os monumentos identificados registram influência direta da corrente italiana de artistas. Um deles, Luigi Dovera, foi responsável pela maior parte dessas construções, que, apesar de suas importâncias, sofrem com o desleixo e, principalmente, a ausência de políticas públicas de conservação. Outras peças – como a alusiva ao pastor da Igreja Evangélica Brasileira Miguel Ferreira, vista na rotatória que dá acesso às Cajazeiras – foram feitas sob preocupação religiosa.

Um dos que causa maior curiosidade é o monumento intitulado “Pirâmide de Beckman”, em referência a Manuel Beckman, um dos líderes da famosa Revolta de Beckman (1684), encabeçada, de acordo com a versão oficial mais aceita, contra os abusos do governo português em relação à taxação produtiva da época. Instalada na Praça 15 de Novembro, ao lado da atual sede da Superintendência de Homicídios (ex-Delegacia da Mulher), na Beira-Mar, a pirâmide é considerada por historiadores, como o vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), Euges Lima, a mais antiga do acervo urbano. Segundo ele, a base desse monumento foi apoiada em um pedestal do antigo pelourinho, de 1815.

Para corroborar o argumento, Euges Lima se baseou em referências bibliográficas, como “O Cativeiro” (1841), de Dunshee de Abranches. Segundo o historiador, na obra, é divulgado o desenho de um pelourinho que, para Euges, seria o mesmo usado na base que compõe a Pirâmide de Beckman (1910). O fato foi comprovado em 2014 e no exemplar “O Cativeiro” é possível ver uma foto do que seria o pelourinho. “Trata-se de uma descoberta ímpar e que, sem dúvida, contribuiu para se saber que aquele monumento, na verdade, é a junção de dois e de uma importância extrema para a história da cidade”, afirmou.

Sobre a pirâmide, acadêmicos como o professor de História das Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e membro do IHGM, José Marcelo Espírito Santo, afirmam que há registros de que, após a Proclamação da República – ou seja, após 1889 -, a gestão municipal decidiu recolher a pedra considerada a base do pelourinho, que teria servido de apoio para a pirâmide. Foi então que o governador do Estado, Luís Domingues, em 1910, teria determinado a construção de uma estrutura em homenagem a Beckman. “Daí, iniciaram a construção da pirâmide”, disse.

Para Espírito Santo, os registros da Pirâmide de Beckman são vistos na bibliografia de Antônio Soares – um dos fundadores do IHGM – e serviram de base para a reedição elaborada por Jomar Moraes do “Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão”, de César Augusto Marques. Ele contesta a tese de que o monumento teria sido o primeiro da cidade. Para ele, a Pedra da Memória – em São Luís -, nos arredores do Palácio dos Leões, é anterior à pirâmide.
Espírito Santo também aponta em seu inventário, em fase final de produção, a relação entre a comunidade e os monumentos. “Em São Luís, há uma relação em alguns casos muito forte entre a população e os monumentos históricos. Outros foram retirados por motivos que extrapolaram as razões da relação entre o povo e estas esculturas”, disse.

Composição
Feita de cimento e com base de mármore, a Pirâmide de Beckman sofreu vários danos em sua estrutura, desde a sua colocação. Registros de 1979 apontam que, nas laterais do monumento, era possível ver placas fixadas com dizeres em referência ao herói da revolta colonial maranhense. “Pelo povo do Maranhão, eu morro contente”, “A Manuel Beckman” e “Aqui foi enforcado o Bequimão” são alguns dos dizeres que constavam no monumento. Atualmente, não há nenhuma placa que faça menção a Beckman, no local.

O Trabalhador 
Segundo pesquisas feitas por O Estado e com base em depoimentos de historiadores, outros monumentos ainda vistos na cidade e outros retirados fizeram parte de um projeto de reorganização urbana da capital, liderada pelo então prefeito Mauro Fecury. Com uma política que incluiu a construção de praças e novos logradouros, Fecury também fez questão de oferecer novos elementos visuais a uma cidade que, na visão dele, carecia de elementos que fizessem menção à sua própria história.

Para isso, o então prefeito contratou o desenhista, teólogo, filósofo e escultor italiano Luigi Dovera, que fez nascer parte de acervo de monumentos, como o “Trabalhador Urbano”, ainda visto na Praça do Trabalhador – ao lado do terminal da Fonte do Bispo. A figura – uma homenagem às pessoas que conduziam o desenvolvimento da cidade – foi feita de mistura de cimento e ferro e colocada em meados da década de 1980.

Atualmente, a construção está deteriorada e necessitando de reparos urgentes. De acordo com pessoas que transitam no local diariamente, o monumento corre o risco de desabar. “Isso aqui pode causar uma tragédia, se nada for feito o quanto antes”, disse Reinaldo de Jesus, taxista e que trabalha na área. No monumento, não há nenhuma placa que faça referência ao nome.

Outra peça, que é vista por cidadãos e pouco conhecida, é a estátua do maranhense e fundador da Igreja Evangélica Brasileira (IEB) Miguel Ferreira, na rotatória que dá acesso às Cajazeiras. Em bom estado de conservação e feita de bronze, material considerado resistente, a estrutura foi encomendada e fixada por integrantes da própria igreja do homenageado. A estátua não faz parte do plano de reorganização urbanística do ex-prefeito Mauro Fecury.

O milagre de Guaxenbuba
Quem passa diariamente pela Avenida Jerônimo de Albuquerque, na entrada do bairro Vinhais, nem sempre percebe a presença do monumento que simboliza o “Milagre de Guaxenduba”. Trata-se de uma passagem que retrata a aparição de Nossa Senhora da Vitória no campo da batalha travada por portugueses e franceses, em 1615. De acordo com a versão – aceita especialmente pela comunidade católica -, a santa teria aparecido no meio da batalha para socorrer os portugueses, em minoria e com munição escassa.

Ao transformar areia em pólvora, Nossa Senhora teria revertido a lógica do conflito, até então mais favorável para os franceses. Sob as orientações de Jerônimo de Albuquerque, os portugueses expulsaram os franceses das terras ludovicenses.

Séculos mais tarde, Luigi Dovera – ao receber ordens do poder público vigente – decidiu produzir uma peça especificamente sobre a passagem histórica. Retratando Jerônimo de Albuquerque e a Nossa Senhora ao lado de um canhão de batalha, o artista montou a peça fixada na rotatória da via do mesmo nome do herói português.

A passagem de tempo e a ausência de manutenção fizeram com que o monumento também sofresse, com os sinais de desgaste. As peças – fixadas sob uma estrutura de pedra – estão danificadas e as mãos da santa não se encontram mais fixadas ao corpo da homenageada.

Do Palácio ao Castelo: o legado de Luigi Dovera e seus monumentos

Luigi Dovera foi o responsável por vários monumentos de São Luís

 

Ex-frade italiano desembarcou no Maranhão desejando fugir dos horrores da 2ª Guerra Mundial; grande parte do seu trabalho está espalhada na capital

Dos horrores da Segunda Guerra Mundial (e em consequência dos ideais fascistas de Mussolini) ao Maranhão. Esta foi a trajetória de vida do italiano, natural da região de Milano, Luigi Dovera. Ex-frade italiano, Dovera casou-se com uma maranhense desejando fugir dos horrores de sua terra natal. Aqui, estabeleceu-se com o trabalho de escultor, e grande parte de sua obra pode ser vista por ruas e avenidas de São Luís.

A história de vida começa nos monges. Com formação também em teologia, Dovera parte para a vida cristã. De lá, adquire boa parte dos ideais de vida dele. No fim da década de 1940, decide vir para o Brasil, onde se estabelece inicialmente em uma fazenda no Piauí. Lá, inicia sua atividade como escultor, produzindo peças para representantes das classes mais abastadas.

No país, casa-se com Maria Olga Duarte Dovera, jovem de Grajaú, no Maranhão, que Dovera conheceu durante sua vida no Nordeste brasileiro. Antes do casório, Dovera precisou de uma autorização papal. “Meu pai teve de ter uma procuração para se casar. Foi uma luta e tanto”, disse Francisco Ítalo Duarte Dovera, um dos seis filhos de Dovera com Olga.

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Na década de 1960, segundo os familiares, Dovera recebe convite do então governador do Estado, José Sarney, para liderar o projeto de restauração do Palácio dos Leões. De acordo com Francisco Dovera, o convite foi feito em 1966, que seria o primeiro ano da gestão de Sarney, “Ele [Luigi Dovera] também foi responsável pela restauração do Teatro Arthur Azevedo e cuidou da ornamentação dessa obra palaciana”, afirmou.

Após estas obras, Dovera permaneceu estabelecendo raízes em várias cidades do interior do Maranhão, como Barra do Corda, onde participou da construção de igrejas e outras obras. No início da década de 1980, a convite do então prefeito de São Luís, Mauro Fecury, Luigi Dovera construiu uma série de monumentos até hoje presentes na cidade ou na memória dos ludovicenses. Entre os destaques, estão a estátua de Manuel Beckman, o popular “Roque Santeiro”, a “Sereia da Ponta d’Areia”, o monumento alusivo a Jerônimo de Albuquerque e outros.

Castelo para Gabriela
Luigi Dovera, além de apaixonado pelo que fazia, também tinha a família dele como prioridade. Um dia, decidiu atender a um desejo da única filha dele, Gabriela, e construiu para ela um castelo, até hoje visto no Araçagi, no ponto final dos ônibus da linha para o bairro. O imóvel chama a atenção pela suntuosidade e precisão nos detalhes, desde os jardins, passando pelos monumentos internos (como Netuno) até as torres.

Na entrada do castelo, é possível ver os dizeres “Castello Dovera”, alusivos à família. “Para o meu pai, foi um orgulho fazer esta construção. Até hoje, os filhos são apaixonados por ela”, disse Francisco Dovera, filho de Luigi.

Família Dovera em São Luís
Atualmente, os parentes de Luigi Dovera vivem na Cidade Operária. Francisco Ítalo Dovera mantém há 15 anos um estabelecimento que revende pipas para todo o país. Outros filhos seguiram carreiras como o comércio e advocacia. O neto de Luigi Dovera, Ítalo Dovera, também cita a história de vida do avô com orgulho. “Saber que a história do meu avô ainda está espalhada pela cidade, para mim, me emociona e chama a atenção”, afirmou.

Monumento a São Luís Rei de França

São Luís Rei de França e o Pescador

Uma das primeiras visões da cidade de São Luís de quem chega por via terrestre é o monumento a Luís Rei da França, fixado na intersecção entre as avenidas dos Franceses e Guajajaras. A peça, com aproximadamente 15 metros de altura, faz referência a uma das lideranças do período de descoberta da cidade. Não há placas ou avisos que façam referência ao monumento, que também fez parte do projeto de readequação urbana da cidade da década de 1980.

O Pescador, no Portinho

Outro monumento, construído há mais de três décadas, é o que simboliza a função do pescador, situado na Praça do Pescador, em frente ao Mercado do Portinho (ao lado do Mercado do Peixe). A obra, também feita na gestão Mauro Fecury, foi entregue no dia 30 de julho de 1983, com solenidade e muita festa. Apesar do tempo em que permanece no local, a peça está em bom estado de conservação e retrata a função do pescador. De acordo com historiadores, o objetivo foi ressaltar a importância de um dos personagens mais importantes para a economia local.

Outros monumentos

O anjo de Dovera
No Anjo da Guarda, na entrada do conjunto, há atualmente a réplica do que já foi a escultura alusiva ao nome do bairro. Feito originalmente por Luigi Dovera, a estrutura esteve ausente do local por vários anos e foi posta novamente na entrada do bairro há alguns meses. Antes da atual versão, era comum ver a população se referir ao anjo como “o anjo de três pernas”, já que as asas do monumento eram próximos aos seus pés, o que passava a impressão de que tinha uma perna a mais.

Os monumentos destruídos e sem paradeiro
Historiadores em geral apontam, em geral, a capital maranhense caracterizada por não preservar seus monumentos. A tese é corroborada quando se listam algumas destas estruturas, que, por vários motivos, não estão presentes em seus locais de origem. Dois deles – o antigo “Roque Santeiro” e a “Sereia da Ponta d’Areia” – são lembrados até hoje. Outros elaborados no início do século XX também marcaram época na sociedade ludovicense. O monumento do “Roque Santeiro”, como era conhecido popularmente, retratava Manuel Beckman e estava fixado na avenida Jerônimo de Albuquerque, em uma rotatória que dava acesso ao bairro do Bequimão. Devido à reorganização urbana do trecho, em 19 de janeiro de 2004, a Prefeitura de São Luís decidiu retirar o monumento do local, o que trouxe – na avaliação de autoridades – benefícios para a malha viária do trecho. Em contrapartida, o monumento não contou com a sensibilidade dos gestores públicos. Fontes ouvidas por O Estado confirmaram que o “Roque Santeiro” foi destruído durante a retirada. Questionada acerca da origem dos restos da escultura, a Prefeitura não se manifestou. Ela era tão popular na região que estabelecimentos comerciais até hoje adotaram o nome “Roque Santeiro” para suas denominações jurídicas. “Era um monumento pintado com as cores do Brasil durante a Copa”, lembrou José Marcelo Espírito Santo.

A Sereia da Ponta d’Areia

Outro monumento popular em meados da década de 80 era a “Sereia da Ponta d’Areia”. Registros apontam a presença dela na praia de mesmo nome. Não há uma versão oficial para a instalação deste monumento na praia. No entanto, alguns historiadores apontam que era uma referência à lenda da sereia. Durante projeto de readequação dos bares no entorno da praia da Ponta d’Areia, a “Sereia” foi destruída. Até o momento, não há informações sobre os restos da escultura. Em 1912 – conforme cita Joaquim Vieira da Luz em “Dunshee de Abranches e outras figuras” -, foi colocada pela então gestão municipal (em referência ao tricentenário de fundação da capital) um monumento piramidal na entrada do atual Palácio La Ravardière – sede da Prefeitura de São Luís. Nos anos seguintes, a estrutura foi retirada. Cinquenta anos depois, em 1962, uma réplica da estrutura de 1912 foi colocada no mesmo lugar. Anos mais tarde, desapareceu sem deixar registros.

Pouco conhecido é o monumento a “Estela de Sotero dos Reis”. A estrutura, também citada por Vieira da Luz, desapareceu, assim como a “Águia Pousante”, em frente à sede da Capitania dos Portos do Maranhão.

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