20/01/2026

Pandemia cancela Festa de São Marçal no bairro do João Paulo

Pandemia cancela  Festa de São Marçal no bairro do João Paulo

Por Luciene Vieira – Jornal Pequeno

Fotos: Gilson Ferreira

Em toda sua  história, essa teria sido a primeira vez que a Festa de São Marçal não aconteceu. Um baque com efeitos devastadores em termos financeiros, mas também simbólicos, com o hiato do evento. A manifestação cultural faz parte do Patrimônio Cultural do Brasil, que une em seus rituais o lúdico e o religioso. Ela consiste no encontro de grupo de bumba-boi do sotaque de matraca em céu aberto, na Avenida São Marçal, no bairro do João Paulo. Tradicionalmente realizado todo dia 30 de junho, como encerramento das festas juninas em São Luís, o festival teve a edição 2020 suspensa, devido à pandemia de Covid-19. Agora, nos bastidores, ventila-se a ideia que a festa somente volte a ser realizada a partir de 2021.

Milhares de pessoas costumavam participar da Festa de São Marçal todos os anos; o evento era convidativo, também, aos turistas, quando muitos vinham na época junina para São Luís, em busca do festival. Os grupos de boi passavam pela famosa avenida do João Paulo desde as primeiras horas da manhã. A festa terminava quase sempre no início da noite. O Jornal Pequeno sempre acompanhava o festejo, destacando o fechamento do comércio, as brincadeiras, o movimento no palco das apresentações, e a segurança no local feita pela Polícia Militar e por agentes de trânsito.

PANDEMIA OFUSCA A FESTA

Atualmente, São Luís tem quase 80 mil casos registrados do novo coronavírus, e mais de 1.500 óbitos em todo o estado. A capital maranhense beirou o colapso de seu sistema de saúde. Na semana passada, circulou nas redes sociais um post falso atribuído ao governador Flávio Dino, que seriam realizadas as festas de São Pedro e São Marçal nos dias 29 e 30 de junho, como ocorrem todos os anos. Obviamente, são dois eventos de muita aglomeração e não poderiam ocorrer em tempos de pandemia. Devido a isso, durante todo junho deste ano, as apresentações das brincadeiras juninas ocorreram apenas pelas redes sociais, ou plataformas de streaming, como o YouTube.

Na mesma semana do boato, o secretário estadual de cultura, Anderson Lindoso, utilizou suas redes sociais para desmentir a fake news. “Infelizmente, este ano, não teremos nenhuma das nossas tradicionais festas juninas, nem mesmo as festas na capela de São Pedro e o arrastão no Dia de São Marçal. O risco não passou. As atividades estão voltando, mas com muitas restrições e vedada à aglomeração de pessoas”, afirmou o secretário.

Em 2019, A Festa de São Marçal chegou a receber mais de 200 mil pessoas no único dia de festejo com, aproximadamente, 20 horas de programação, e média de 25 brincadeiras apresentadas no palco, instalado no meio da avenida, ao lado da estátua de São Marçal, na praça que tem o nome do santo. Sem um levantamento oficial, mas pela quantidade de público em cada ano, estima-se que o evento já injetou milhões à economia local. E a ideia de números imponentes acaba naturalmente sendo vetor de preocupação para comerciantes da área, diante deste ano em branco.

ECONOMIA AFETADA

O cancelamento da festa é uma lacuna que afeta a vida não somente de quem curte o evento, mas principalmente de quem lucrava com ele. “Eu chegava a contratar pessoas para me ajudarem no bar, pois só no ano passado a festa movimentou meu negócio economicamente de forma estrondosa, as vendas quadriplicavam comparadas a um sábado e domingo normais, dias em que as pessoas mais costumam frequentar o meu quiosque. Os vendedores de bebidas, churrasquinhos, água mineral… Todos nós precisamos do evento”, declarou Antônio João Castro, de 59 anos, que há 26 anos é proprietário de um quiosque de bebida e comida na Praça São Marçal.

No quiosque vizinho ao de Antônio João, está o da comerciante Liziane Castelo. “Pra ser sincera, comprei este ponto de venda de comida e bebida em janeiro deste ano, e a Festa de São Marçal foi decisiva para que eu investisse minhas economias neste empreendimento. Ficamos tristes com o cancelamento da festa, apesar de entendermos o motivo. De todo modo, na caixa de som amplificado do meu quiosque, excepcionalmente hoje (ontem), só toca músicas de bumba-meu-boi, como forma de homenagear o santo e a manifestação cultural”, disse Liziane Castelo.

Mas há quem aponte perdas para além das cifras. Afinal de contas, apesar de ser crucial fonte de renda para a economia dos envolvidos direto e indiretamente na realização da festa, o encontro dos bois é uma manifestação mais importante da cultura popular maranhense. E o adiamento da 93ª edição abalou diretamente seu campo de simbolismo.

A aposentada de 74 anos, Osmarina Machado Costa há 30 anos cozinhava um verdadeiro banquete, cujo prato principal era o caldo de mocotó, para servir aos brincantes. Ontem, para conter a tristeza, Osmarina Machado passou o dia com a família em um sítio. Porém, na fachada da casa dela, na Rua da Cerâmica, no bairro do João Paulo, ela colocou balões pretos, como forma de expressar seu luto tanto pela manifestação cultural suspensa, quanto pela morte do seu ajudante na preparação das refeições, o cozinheiro Antônio Miranda.

“O bairro do João Paulo está triste, sem a Festa de São Marçal deste ano, que há 30 anos marcou o dia 30 de junho, na minha família. Não houve um ano sequer que eu, meus amigos e familiares não nos reunissem e preparássemos caldo de mocotó, caldo de ovos e peite frito e cozido. Há dois meses, o Antônio Miranda faleceu de morte natural. Foi muito rápido, ele ficou doente repentinamente, e em duas semanas morreu. A perda dele e o cancelamento da festa neste ano foram dois acontecimentos que me abalaram bastante”, disse Osmarina ao Jornal Pequeno, por telefone.

GUARNICÊ EM CASA

Na manhã de ontem, no lugar de uma multidão desfilando e acompanhamento as brincadeiras na Avenida São Marçal, um dia como qualquer outro, salve duas faixas colocadas na avenida pelo 24 Batalhão de Infantaria de Selva (24 BIS). Nelas, estava escrito: “Guarnicê em casa, ‘rapaziada’, que a tradição vai continuar! Salve o 24º BIS, que fortalece a nossa cultura”. E, “Festa de São Marçal – ano que vem a festa vai continuar! Bumba meu boi do Maranhão, Patrimônio Cultural da Humanidade”.

A faixa que mencionava guarnicê em casa, fazia alusão ao projeto Bumba Minha Casa, com lives transmitidas pela internet. A primeira live foi transmitida na segunda-feira (29), com os grupos Boi da Maioba, Boi de Axixá, Boi Barrica e a cantora Alcione. A Já a segunda noite de live está marcada para essa sexta-feira (3), e contará com o show de Mano Borges, Betto Pereira, César Nascimento e Erasmo Dibell, além das participações Boi de Nina Rodrigues e Boi de Santa Fé. A terceira e última noite de live do Bumba Minha Casa será no dia 10 de julho, e contará com o Boi de Maracanã, Boi de Morros e o show da banda Mesa de Bar.

ORIGEM DA FESTA

A versão mais aceita para a origem do festejo diz que ele teve início a partir da proibição aos grupos de bumba meu boi, de cunho popular, de seguirem para a área do centro da cidade, sob pretexto de manutenção da segurança, ordem e tranquilidade. A polícia não permitia que os brincantes passassem do areal do João Paulo, local onde hoje é a Praça Ivar Saldanha. Lá mesmo, eles se encontravam. Havia uma disputa grande e, muitas vezes, violenta entre os grupos.

Ha controvérsias de que o primeiro encontro de bois no João Paulo teria acontecido em 29 de junho de 1928 e na ocasião reuniu o do Sítio do Apicum e o do Lugar dos Índios, do povoado de São José dos Índios, em Ribamar. Contudo, em alguns relatos, o Boi da Maioba também é incluído na festa. Em 1985, a festança passou a ter o formato atual.

Devido ao crescimento da brincadeira, durante algum tempo ela se afastou do bairro. Em 2006, a Prefeitura de São Luís, depois de ter sancionado a lei que alterou o nome da Avenida João Pessoa para São Marçal, atribuiu à Festa de São Marçal título de bem cultural e imaterial, transformando a data no Dia Municipal do Brincante de Bumba Meu Boi, além de decretar o dia como ponto facultativo municipal.

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