Projeto arquitetônico de restauração do imóvel foi encaminhado ao Município em, 2016, no entanto a obra nunca foi iniciada e não houve justificativa para sua não execução.
LUIS ALEXANDRE RAPOSO / ESPECIAL PARA O ESTADO11/04/2020
Preocupada com a situação precária do prédio onde funcionou o antigo Orfanato Santa Luzia e posteriormente a Secretaria Municipal de Educação de São Luís, a Promotoria de Justiça de Proteção do Meio Ambiente, Urbanismo e Patrimônio Cultural de São Luís impetrou, no último dia 27 de fevereiro, uma Ação Civil Pública contra a Prefeitura de São Luís, requerendo que o prédio seja recuperado.
Localizado à Rua Oswaldo Cruz, n°1.374, o imóvel está fechado e abandonado há vários anos. Uma vistoria, realizada pelo Ministério Público em 21 de janeiro, constatou que o prédio já sofreu desabamento parcial e apresenta risco iminente de desabamento. Atualmente, com as fortes chuvas que atingem a cidade, aumenta o risco de perda desse importante patrimônio municipal, como ainda põe em perigo a vida e integridade das pessoas que diariamente transitam pelo local.
De acordo ainda com o Ministério Público, em 2016 a Prefeitura de São Luís recebeu um projeto arquitetônico de restauração do imóvel, no entanto a obra nunca foi iniciada e nem tampouco a Prefeitura justificou sua não execução.
Histórico do Antigo Orfanato Santa Luzia
De significativa importância no contexto histórico da sociedade maranhense do início do século passado, o Orfanato Santa Luzia acolheu meninas órfãs de São Luís e do interior do Estado durante mais de 60 anos.
A instituição de caridade era administrada por irmãs religiosas que, além do apoio espiritual, alfabetizavam e ensinavam ofícios diversos às meninas desprovidas de proteção familiar.
Domingos Vieira Filho informa em sua Breve história das ruas e praças de São Luís, publicada em 1971, que o orfanato foi fundado por uma matrona maranhense, chamada Luzia Joaquina Bruce, que era descendente de uma antiga estirpe escocesa radicada há muito no Maranhão.
Segundo o historiador, dona Luzia Bruce era mulher de posses que cultivava as virtudes de ajudar a infância e praticar o bem. Sensível ao problema social da infância desvalida, dona Luzia fundou o Azilo Orfanológico de Santa Luzia, no dia 6 de janeiro de 1913, instalando-o nesse imponente casarão do início da Rua Grande. Para custear as despesas da obra de caridade, sua fundadora doou a quantia de duzentos contos de réis, valor este acrescido pelas doações de outros cidadãos beneméritos da capital maranhense daquela época.
Após o desaparecimento de sua mentora e fundadora, o orfanato subsistiu a duras penas e por várias décadas à custa de doações de almas caridosas. Com o tempo, o casarão antigo, onde meninas pobres de expressão sofrida postavam-se nas janelas para olhar o movimento da rua, passou a fazer parte do cenário da cidade. A população de São Luís acabaria se acostumando com aquele quadro melancólico, que sempre infundia tristeza para quem passasse pelo início da Rua Grande, vindo dos bairros Anil, Filipinho ou João Paulo.
Depois de desativado o orfanato, provavelmente no final da década de 1970, o casarão foi adquirido pela Prefeitura de São Luís, durante a administração Gardênia Ribeiro Gonçalves. Após pequena restauração e construção de um anexo nos fundos, em dezembro de 1988, o prédio passou a abrigar a Secretaria Municipal de Educação e Cultura que ali permaneceu até o ano de 2003.
Desse modo, o belo casarão de linhas aristocráticas sofre com o abandono ao qual foi relegado. O velho portão de ferro, quase sempre trancado por correntes e cadeados, não consegue esconder, entretanto, a elegância e suntuosidade da antiga morada, onde os mosaicos e azulejos artisticamente trabalhados do piso e paredes laterais deterioram-se cada vez mais pela falta de manutenção e pelo desgaste natural do tempo.

