(Riba Um)
“Não se tem coisa grande com coragem pequena”
Ela nasceu no dia 5 de fevereiro, mesmo dia em que trouxe ao mundo a filha Tânia, musicista e professora universitária. Para os amantes da astrologia, são do signo de Aquário, definido como o das pessoas que vivem à frente do seu tempo.
Ainda menina, lá pelos 8 anos de idade, começou um namoro que se manteve firme por toda a vida. Com as plantas do quintal de casa. Reconhecida internacionalmente e, para orgulho de maranhenses e brasileiros, é a única cidadã do Brasil a integrar o seleto time do livro “Quem é quem no Mundo”, editado na Itália, em reconhecimento a uma pesquisa que realizou em 1997 sobre as plantas medicinais utilizadas pelos índios Canelas, em Barra do Corda, interior do Maranhão.
A paixão pelas dálias coloridas cultivadas pela mãe nos Jardins da família, impulsionou seu interesse por ervas, e a menina passava horas observando do nascer de um botão ao desabrochar de uma flor. No tempo em que teve que decidir que carreira seguir, não pensou duas vezes: Farmácia. Colou grau em 1957, mesmo ano em que nasceu sua preocupação com os con terrenos que vinham do interior acostumados a tratar doenças com ervas, quase nunca encontradas na capital, São Luis. O primeiro namorado, Artur, foi seu companheiro por toda a passagem pelo planeta Terra. Mais de meio século de amor e parceria.
Farmacêutica e Bioquímica, com Doutorado em Botânica é especialização em Fitoterapia pela Universidade de Havana (Cuba), deixa aproximadas 1.800 espécies de plantas catalogadas, regularizadas e reconhecidas pelo Herbário de Nova Iorque (EUA). O reconhecimento da Fitoterapia era uma meta que viu ser alcançada no Brasil com o endosso do Governo Federal, que autorizou o uso dos medicamentos naturais pelo SUS.
Sempre à frente do seu tempo, Terezinha Rêgo desenvolveu tratamento experimental – e paralelo – contra doenças oportunistas para os portadores do vírus HIV, com o objetivo de evitar uma sobrecarga de medicamentos alopaticos. No Hebario Ático Seabra, existente no Campus da Universidade Federal do Maranhâo, recebeu periódica e permanentemente, em seu consultório, membros da comunidade acadêmica e da sociedade civil que iam conferir suas conquistas científicas. Em sua simplicidade desconcertante afirmava: “Temos conseguido excelentes resultados trabalhando pelo bem estar das pessoas e todos aprovam plenamente a iniciativa da Universidade”. Na verdade, a iniciativa era dela e nem sempre a Ufma dava o apoio necessário.
Sua linha de atuação era de aproveitamento da flora medicinal maranhense, dando valor às plantas por meio da implantação de hortas comunitárias e oferecendo uma alternativa de elevado alcance social. Não só aqui no Maranhão e nem apenas no Brasil.
À Fitoterapia contribuiu com o envio de ervas para.combater a pneumonia asiática na China, que já havia dizimado centenas de naquele país tão imenso e distante. A Embaixada da China, sabendo da eficiência dos fitoterápicos na cura dos sintomas da moléstia, encarregou-se de enviar o “Xarope de Urucum”, utilizado no tratamento da Pneumonia; a tintura “Assa Peixe” , erva originária da Baixada Maranhense e própria para amenizar os efeitos do Diabetes; e a “Essência de Cabacinha”, famosa pelo alívio da congestão nasal. Ela fez suas experiências atravessarem os oceanos, também para Côrdoba, na Espanha, e Londres, a capital do Reino Unido.
A verdade é que poucos reconhecem a importância das plantas medicinais. A influência das multinacionais, claro, é presente neste compasso de uma espera quem nunca termina. Dinheiro é poder dando as cartas sempre. Cientistas e leigos sabem que quase toda farmacologia tem como base os princípios ativos das plantas. E não é sem razão que a nossa Amazônia é cobiçada pelas grandes nações e, se hoje, as guerras acontecem motivadas por petróleo, muito em breve o gatilho serão as riquezas de nossas fauna e flora. E de nossas águas também.
As plantas medicinais são embriões de cura desde a Antiguidade, o que é confirmado pela ONU, que apresentou estudos onde 80% da população do planeta as utiliza. O reconhecimento de seu valor real como recurso clínico, farmacêutico e economico vem crescendo em vários países, onde o uso vem se normalizando e são criadas Leis a respeito dos diferentes critérios de segurança, eficácia e qualidade. As plantas tambem podem fazer mal e até matar, o que torna indispensável que seus efeitos sejam testados e avaliados cientificamente como fez Terezinha Rêgo por décadas. O empírico carrega em si o exagero. O testado tem a.dose certa, ou quase. Mas é assim que o mundo gira e evolui. A sabedoria popular sinaliza o caminho, o experimentador descobre as.vielas, os becos, as ruas, as artérias e as veias. E tudo isto demandará tempo com pesquisa. E dinheiro. Muito dinheiro. Razão das multinacionais fazerem beicinho para o que pode nascer nos nossos quintais.
Com seus índices alarmantes de Desigualdade Social, o Maranhão não poderia dar as costas para uma cidadã como Terezinha Rêgo e nem desperdiçar toda a riqueza que ela produziu. O documentário de alto nível produzido por Joaquim Haickel, no álbum “Memórias é Lembrancas”, traduz melhor o que vem ser esta mulher para o Maranhão, para o Brasil e para o Mundo. A Itália sabe, a China, a Espanha e a Inglaterra sabem e nós não poderíamos cometer o crime de ignorar. Um caboclo da Baixada disse: “não se faz coisa grande com coragem pequena”. Ele é dono de uma verdade que precisa ser repassada.

