Por Euclides Moreira Neto – PhD em Comunicação, Linguagem e Cultura – UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo – UFMA
Meados de agosto em São Luís. A chuva deu uma trégua e o vento que vem da Baía já carrega cheiro de final de ano, de festa, de planejamento. Nas escolas, os professores começam a pensar no que vão trabalhar no ano que vem. Nas bibliotecas, quando existem, alguém faz inventário de livros velhos, capa dura gasta, páginas amareladas. E nas casas dos escritores, a pergunta é sempre a mesma: quando é que um menino ou uma menina aqui do Maranhão vai poder pegar um livro escrito por alguém da sua terra, com cheiro da nossa terra, na biblioteca da sua escola?
Essa pergunta me chegou essa semana pelas mãos da escritora, professora e bibliotecária Anízia Nascimento. Ela me escreveu com aquela urgência calma de quem já passou a vida inteira plantando leitura e sabe que árvore demora para crescer. Anízia está à frente, junto com outros escritores e educadores do nosso estado, de uma mobilização pela criação de uma política pública de valorização da literatura maranhense nas bibliotecas das escolas públicas estaduais e municipais.
O pedido é simples na frase e gigante na consequência: garantir que as obras de autores maranhenses estejam presentes, de forma permanente e organizada, nas estantes onde nossas crianças escolhem o que ler.
E ela deixou um link. Um abaixo-assinado. https://peticaopublica.com.br/?pi=BR161001. Pediu minha assinatura. Pediu que eu espalhasse. E pediu, sobretudo, que a gente conversasse sobre isso.
Pois aqui estou eu conversando. Em forma de crônica. Porque tem coisa que relatório técnico não alcança e artigo científico não aquece. Tem coisa que só a crônica alcança: o coração.
1. O que é uma criança sem espelho?
Eu sou professor de Jornalismo na UFMA há alguns anos. E antes disso fui aluno de escola pública. Me lembro das bibliotecas. Algumas eram salas com ventilador quebrado e 20 livros empilhados. Outras eram corredores com caixas. Em quase todas, os livros que a gente lia falavam de outros lugares. De princesas da Europa, de detetives de Nova York, de florestas que não tinham buriti nem tucum. Livros lindos, importantes, clássicos. Mas nenhum com sotaque parecido com o da merendeira, nenhum com nome de rua que a gente pegava para ir para casa.
Criança precisa de espelho. Precisa abrir um livro e se ver. Ver a avó contando causo, ver o rio, ver o bumba, ver o tambor, ver o nome da cidade escrito ali como protagonista e não como nota de rodapé. Quando isso acontece, acontece uma coisa mágica: a criança entende que a história dela importa. Que a língua dela importa. Que ela pode ser personagem e também autora.
Anízia sabe disso. Ela é bibliotecária. Ela já viu o olho de criança brilhar quando encontra um livro e diz: “tia, isso aqui é igual à casa da minha vó”. É nesse momento que a leitura deixa de ser obrigação e vira casa.
2. Literatura não é enfeite. É política pública.
A gente fala muito de IDEB, de taxa de aprovação, de evasão escolar. E tem que falar mesmo. Mas a gente fala pouco de repertório. E repertório se constrói com acesso.
Uma política de valorização da literatura maranhense nas escolas não é “dar um agrado para o escritor local”. É garantir direito. É garantir que o currículo tenha respiração. É garantir que o professor tenha material diverso para trabalhar identidade, história, geografia, ciências, tudo, a partir da literatura.
O Maranhão é um dos estados mais ricos em produção literária do Brasil. Temos romancistas, poetas, cronistas, escritores de literatura infantil e juvenil, autores de cordel, de livros acadêmicos, de livros didáticos. Temos gente escrevendo sobre quilombos, sobre pesca, sobre cidade, sobre fé, sobre resistência. Temos Anízia Nascimento escrevendo para criança. E quantas dessas obras estão hoje nas bibliotecas de Imperatriz, de Caxias, de Balsas, de Pinheiro, de São José de Ribamar, de Paço do Lumiar?
Poucas. Porque não existe uma política. Existe boa vontade de professor que compra com dinheiro do próprio bolso. Existe doação pontual. Existe projeto que começa e termina. Mas política pública é outra coisa. Política pública é orçamento, é edital, é compra, é distribuição, é formação de mediador de leitura, é manutenção, é avaliação.
Sem isso, o livro do escritor maranhense fica na caixa da editora. E a criança fica sem acesso.
3. A biblioteca é trincheira
Anízia me lembrou de algo que eu já sabia, mas precisava ouvir de novo: bibliotecário é agente de transformação. Professor é. Escritor é. Mas bibliotecário é o guardião da porta.
Quantas crianças entraram numa biblioteca pela primeira vez e saíram de lá com o mundo maior? Quantas encontraram ali refúgio do barulho, da violência, da falta? Quantas descobriram vocação?
Só que para isso a biblioteca precisa ter livro novo. Precisa ter livro que dialogue com o tempo de agora. Precisa ter livro que fale com o menino do campo e com a menina da periferia. E precisa ter livro do Maranhão.
Quando uma escola recebe 50 títulos de autores maranhenses, não está recebendo apenas papel. Está recebendo 50 jeitos de pensar o Maranhão. Está recebendo 50 convites para o aluno dizer: “eu também posso escrever”.
4. Sobre o que estamos perdendo
Já parou para pensar quantos talentos a gente perde porque a criança nunca viu um livro com o sobrenome dela na capa? Quantas meninas negras do interior deixam de sonhar em ser escritora porque só viram escritora branca de outro estado? Quantos meninos ribeirinhos não se reconhecem na aventura porque a aventura sempre acontece em outro clima?
A literatura é isso: é possibilidade. E quando a possibilidade não chega, o sonho murcha.
Não estou dizendo para parar de ler Machado, Clarice, Monteiro Lobato. Pelo amor de Deus, não. Estou dizendo para colocar Aluísio Azevedo e Josué Montello do lado de Josué de Castro e de contemporâneos que estão escrevendo agora. Estou dizendo para colocar Anízia Nascimento do lado de Ruth Rocha. Para que a criança tenha prateleira cheia e escolha.
Diversidade de leitura é isso. Não é substituir. É somar.
5. O que essa política pode fazer na prática
O abaixo-assinado que Anízia me enviou pede exatamente isso: uma política estadual e municipal que garanta a aquisição, distribuição e circulação de obras de escritores maranhenses nas bibliotecas escolares.
Na prática isso significa:
1. Orçamento específico: todo ano uma parte do recurso de aquisição de acervo ser destinada à compra de autores do estado, com edital transparente.
2. Curadoria: comissão com professores, bibliotecários, escritores e representantes da Secretaria de Educação para montar listas por faixa etária. Infantil, juvenil, jovem adulto.
3. Formação: curso para professor e bibliotecário sobre mediação de leitura com literatura local. Porque livro parado na estante não lê ninguém.
4. Encontros: levar o autor para a escola. Sarau, bate-papo, oficina. A criança conhecer quem escreveu. Isso muda tudo.
5. Acompanhamento: saber quantos livros chegaram, quantos foram emprestados, quais foram mais lidos. Política pública se mede.
Não é caro perto do que se perde quando uma geração cresce sem se reconhecer na leitura. É investimento.
6. O lado pessoal da Anízia
Ela escreveu para mim com uma frase que me pegou: “É muito importante para mim saber que aquilo que escrevo poderá chegar a novos leitores e contribuir para a formação deles”.
Isso é o que move o escritor que não escreve para prêmio. Escreve para chegar.
Anízia é professora, é bibliotecária, é escritora. Três profissões que pedem paciência e fé. Ela já fez a parte dela: escreveu, publicou, foi para sala de aula, organizou biblioteca. Agora ela pede a parte do Estado: a ponte.
E quando um escritor pede isso, não está pedindo para si. Está pedindo para todos os que vêm depois. Está pedindo para o menino que hoje tem 8 anos e amanhã vai escrever o livro que vai emocionar outro menino.
7. Por que assinar?
Tem gente que diz: “abaixo-assinado não muda nada”. Muda. Muda porque mostra número. Mostra que não é só Anízia, não sou só eu. Mostra que tem sociedade cobrando.
O link é https://peticaopublica.com.br/?pi=BR161001. Assina. E confirma no e-mail. Sem confirmar não vale.
E depois compartilha. Manda no grupo da família, no grupo dos colegas da escola, no grupo dos pais. Cada assinatura é um voto dizendo: eu quero livro maranhense na escola do meu filho.
Cada assinatura é um recado para Secretário de Educação, para Prefeito, para Governador: olha, isso importa para nós.
8. Encerrando com uma cena
Feche os olhos um segundo. Imagine uma biblioteca de escola pública em novembro de 2027. Estante nova. Livros com capa colorida. Uma menina de 10 anos pega um livro. O título tem nome de cidade que ela conhece. O autor tem nome parecido com o do vizinho dela. Ela lê a primeira página e ri, porque tem uma palavra que só se fala aqui.
Ela levanta a mão e pergunta para a professora: “tia, a gente pode escrever um livro também?”.
É disso que estamos falando.
De uma política que transforma prateleira em futuro. Que transforma livro em pertencimento. Que transforma autor local em referência.
Anízia, conta comigo. Já assinei. Já compartilhei. E aqui está minha crônica, para somar voz.
Aos gestores públicos que vão ler este texto: a literatura maranhense já está pronta. Os livros já existem. Os escritores já escreveram. As crianças já estão na escola esperando. Falta só a decisão política de conectar esses três pontos.
Não deixemos mais uma geração crescer sem saber que o Maranhão também escreve, também conta história, também sonha em prosa e verso.
Livro na prateleira, criança no mundo. É simples assim. E é urgente assim.
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Euclides Moreira Neto – PhD em Comunicação, Linguagem e Cultura – UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo – UFMA

