Dói muito lembrar dos amigos
Por Pergentino Holanda
1 Memória é o que você lembra
de maneira nítida e inequívoca de um fato passado. Uma criança ao sol, seus pés
descalços sobre o pedregulho, um pequeno vapor cruzando o rio, um adeus na
plataforma do trem.
Ficção é quando você escolhe as palavras para resgatar esse fato. Não tem
escapatória: na hora de contar, é a sua versão que domina, farol em meio à
neblina do Tempo. E o acontecimento, por ter sumido, se esvanecido logo depois
de acontecer, ficará sempre
inacessível.
Ficção, nesse caso, é imaginar o que realmente aconteceu.
2 Há histórias escritas que se aproximam dos fatos, tanto,
que a tua versão se sintoniza com a versão de muitos outros. Outras que
alçam vôo e causam espanto aos que conhecem o que chamam de “verdadeira
história”.
O segredo é fazer com que a ficção tenha vida própria e se debruce sobre a
memória como quem tem a chave de um tesouro.
Todos têm direito a dizer como foi. A narração é livre, como um potro criado
fora do curral. É assim que memória e literatura se abraçam para costurar as
abas soltas do tempo.
3 Uma redação é feita de fotógrafos, que sentam sobre as
mesas afastando teclados, a querer provar que nosso ofício é moleza, basta ficar
na cozinha a batucar o que nos vem na telha.
Por absoluto desprezo ao mundo das letras é que eles jamais identificam as
fotos. Gostam mesmo é de fazer corpo mole, dizer que tudo já existe no arquivo,
nas agências, nos bancos de dados.
E que pauta boa é a que inclui viagem e diárias e que no fundo esta é uma vida
provisória e estão mesmo é montando um negócio fora do jornal.
4 Os fotógrafos chegavam com seus coletes à prova de bala,
protuberâncias suspeitas, guarda-chuvas portáteis de alumínio, lentes e
refletores, e sentem falta dos tubinhos de plástico preto com tampa, que não
guardavam apenas filmes.
Andavam meio de lado, porque precisavam de um arsenal para produzir essas
coisas que tomam conta do espaço destinado às
letrinhas.
Com a pandemia da imagem permitida pelas câmaras digitais, eles acabaram
cumprindo suas ameaças e hoje estão oficialmente em frente ao mar, mas basta
chegar num restaurante lotado e lá encontramos algum deles falando sobre mais
um megaprojeto.
Já nos acostumamos imaginá-los perdidos nos ermos do sossego.
5 Quando comecei a trabalhar em jornal me acostumei a vê-los
nos laboratórios, mas como são feras, jamais se restringiram ao mundo que
escolheram.
Queríamos confiná-los em espaços reduzidos, impedir que abrissem demais as
fotos, mas como são completamente loucos, chegam
diante do diretor de redação com um clic que demole dez quilômetros de texto.
Os fotógrafos sobram e tomam conta do noticiário com o olho doentio que enxerga
o que jamais notamos ao vivo, e que depois nos
impactam por uma verdade que precisava deles para ser notada.
6 A realidade não precisa de nós, os escribas, precisa dos
fotógrafos. Eles têm mais poder do que um presidente com acesso aos segredos
nucleares. Por isso foram extintos em sua maioria, aposentados à força,
empurrados para os relatórios de luxo,
para os patrocínios ambientais e industriais.
Eles eram presença excessiva nas redações, que os expulsaram.
Ao jogá-los fora, o que entendíamos por redação foi junto. Hoje os fotógrafos
sobrevivem como um punhado de bravos, porque não
existem mais aqueles departamentos com cheiro de química e vazios de
fotógrafos, que se aglomeravam todos ao redor dos repórteres, editores e
principalmente, das mãos femininas que possuíam mais talento do que qualquer
estrela da equipe.
7 A raça não some porque não se rende. Quando menos se
espera, lá surgem eles aumentando a lista impossível de ser citada na íntegra.
Grande profissional dos anos 1970-1980, o cearense Valdo Melo era capaz de
debulhar um assunto em cem mil fotos, dilacerando a escolha na hora de uma capa.
Ele era um profissional que jogava pesado e não admitia rejeição de nenhuma
espécie. Se sentia o centro do noticiário e acreditava na máxima de que os
pixels superam o alfabeto.
8 Fotógrafos como Valdo Melo optaram pela imagem porque
alguém precisava fazer o serviço. No fundo, gostariam mesmo é de nos
provar que as palavras não são nossa exclusividade e que podem fazer com elas o
que costumam aprontar visualmente.
Só não gostariam de ficar suando em coisas obsoletas como um lead. Contariam
sua versão do jeito que gostam: com aquele ar superior dos artistas bem
resolvidos, mal sabendo eles que nós é que somos os retratistas dos fatos.
Esse é um conflito que se resolve numa viagem, com boas diárias, como as de
antigamente. É quando temos a chance de nos afastar das redações, que nos
confinam, e nos aproximar da nossa humanidade completa, que é invisível a olho
nu, mas não para essas pessoas que empunham a câmara como quem roubam a alma.
9 Valdo Melo era assim. Um profissional que fez história.
Virou lenda. E ontem, foi encontrado morto, na solidão do refúgio que
escolheu para ficar longe desse ambiente que um dia o fascinou, mas que depois
relegou e que deve ter guardado apenas na memória.
Há alguns anos ficou distante dos amigos que o estimavam muito. Foi um
afastamento voluntário.
Dele, fica agora uma enorme saudade. Sobretudo naqueles que, como este Repórter
PH, dividiram grandes momentos e grandes emoções com esse grande profissional.

