20/01/2026

CINE MONTE CASTELO: EXEMPLAR ARQUITETÔNICO QUE PRECISA SER REAPROVEITADO COMO EQUIPAMENTO PÚBLICO (*)

É consenso nos meios acadêmicos que as construções arquitetônicas reverberam a ação do homem em uma determinada época. Nesse contexto se inserem as construções das antigas salas de cinema nas cidades brasileiras e aqui em São Luís não seria diferente. Por isso quero refletir nesta crônica o significado do Cine Monte Castelo, que foi um empreendimento de fôlego que refletiu o importante ciclo da indústria cinematográfica até os anos de 1970 do século passado.

Ao longo do século XX o cinema foi se transformando em uma grande indústria de entretenimento, ao tempo que foi aprimorando as técnicas da arte dramática. O cinema desenvolvido nos Estados Unidos da América, sobretudo em Hollywood, foi o responsável pela popularização do gosto pelas salas de cinema como local de entretenimento em várias regiões do mundo. Temas como o melodrama e o faroeste (que se ambienta no meio Oeste americano, na época da marcha para o Oeste do século XIX) estão, até hoje, entre os mais populares.

No Brasil esse fenômeno repercutiu o que ocorria no restante do mundo e em várias cidades brasileiras, especialmente nas capitais dos Estados quando foram construídos “cinemas-palácios” gigantescos e que davam orgulho às populações locais por sediar verdadeiros monumentos suntuosos do entretenimento por meio da arte cinematográfica. Na cidade de São Luís, o Cine Éden (que atualmente completaria 101 anos de existência), O cine Roxy e o Cine Monte Castelo foram as edificações mais imponentes.

A sociedade ludovicense tinha nestes três equipamentos audiovisuais opções de lazer com o bom gosto e o requinte da época em que foi edificado, embora o Cine Monte Castelo, por ser localizado numa região periférica, era visto como mais popular, apesar sua construção imponente e gigantesca. O Cine Monte Castelo tornou-se referência empreendedora para uma capital que previa sua expansão territorial para além do chamado “Caminho Grande”. Atualmente, a região em que edificado do referido cinema aquele conhecido caminho grande (ou Estrada Real) foi transformado em avenida, que naquela área recebe o nome de Avenida Getúlio Vargas.

O próprio nome “Cine Monte Castelo”, que adotou a nomenclatura daquele bairro (antes era conhecido por Areal), além de reverenciar a vitória da batalha de Monte Castelo protagonizada pelas tropas do Exército Brasileiro, que atuaram na segunda guerra mundial, na Itália, constituía-se um exemplo da empolgação do momento histórico vivido pela sociedade, no pós-guerra, em tempos de relativa paz e progressismo.

Pois bem, com o declínio da chamada indústria Cinematográfica com o advento da televisão, que se fortaleceram vertiginosamente a partir da década de 1970, os suntuosos palácios de exibição de filmes ficaram menos atrativos para os lucros dos empresários desse campo de atuação. Como consequências, aos poucos foram fechando várias salas e os enormes cinemas foram comprometidos na sua manutenção e viabilização econômica. Nesse contexto, perdemos o cine Éden (na Rua Grande), o cine Roxy (na Rua do Egito, que fechou como cinema pornô na década de 1990) e Cine Monte Castelo (na Avenida Getúlio Vargas – antigo Caminho Grande, extensão da Rua Grande).

O Cine Monte Castelo inaugurado, se não me falha a memória, na década de 1950, pertencia a Empresa Duailibe Ltda. Essa empresa também possuía outras salas de exibição na região metropolitana da capital maranhense, entre eles o Cine Passeio, na Rua Grande; Cine Rex, no João Paulo; Cine Rivoli, no bairro do Anil; e um sala na cidade de São José de Ribamar, formando uma rede criativa de exibição da arte cinematográfica, que paulatinamente foi se esvaindo até fechar todos os espaços. Vale lembrar que a Empresa Duailibe Ltda, por quase vinte anos, também foi arrendatária em partes das décadas de 1930 e 1940 do Teatro Arthur Azevedo, que também funcionou como cinema.

O Cine Monte Castelo (o qual eu tive a oportunidade de frequentar e assistir a vários filmes), recebia nos dias de lotação cheia mais 600 pessoas nas suas sessões de filmes, que ocorriam normalmente as 16 e 20 horas. Era um espaço muito suntuoso, enorme e possuía além da plateia, nos andares superiores dois lances de camarotes que cobria toda extensão da plateia até próximo à boca de cena em que se localizava a tela panorâmica. Sem dúvida um belo exemplar arquitetônico. Orgulho para os moradores daquele sítio e da própria cidade de São Luís.

Com o fechamento do Cine Monte Castelo o imóvel ficou muito tempo sem utilização até ser alugado por uma Igreja Evangélica, a qual fez algumas adaptações no seu interior para atender a nova demanda. Atualmente aquele imóvel está totalmente abandonado, como se diz no linguajar popular, entregue às moscas. Creio que a ação do poder público poderia transformar aquele prédio (que tem enorme poder simbólico de uma época promissora e de transição expansionista da cidade) em algum equipamento público, como espaço de multiuso para a cultura e educação, ou mesmo estabelecimento destinado à cadeia produtiva do turismo, pois o mesmo é um belo exemplar da arquitetura que poderia ter melhor destino.

Aproveito a oportunidade para lembrar que o conceito de preservação segundo disposição nos dicionários é a “conservação de algo exatamente no seu estado original; ação de manter em ótimas condições”, como a preservação do monumento. Segundo os investigadores Isis Salviano Roverso Soares e Claudia Terezinha de Andrade Oliveira “a falta de diálogo entre as ações práticas e a teoria do restauro leva o patrimônio arquitetônico a uma situação de risco: de um lado, faltam ações de manutenção preventiva. De outro, as intervenções realizadas, por vezes, estão desprovidas de estrutura teórica própria do campo disciplinar do restauro”.

De acordo com Isis Soares e Claudia Oliveira “é necessário facilitar o caminho entre a teoria e a prática. Para tanto, algumas iniciativas são bem-vindas, dentre elas, a disseminação da cultura da preservação e o esclarecimento sobre os conceitos próprios da área, inclusive seu significado”. A vida de um edifício – algumas centenas de ano, com sorte – é apenas um ponto quando comparada aos bilhões de anos necessários para moldar uma paisagem natural. Ainda mais breve é o trabalho de um cineasta: a procura criada para o entretenimento momentâneo… Logo, é estranho perceber que o cinema e o trabalho jornalístico de formadores de opinião entrem em cena com frequência para imortalizar edifícios que encontraram um fim precoce. Triste ironia, pois quando requeremos a continuação de um espaço como o Cine Monte Castelo, que a meu ver está naturalmente incorporada na visão afetiva e arquitetônica da capital maranhense, é uma ação de busca e salvaguarda de como a nossa sociedade de constituiu ao longo do tempo.

Desse modo, compartilho com as teses que defendem que a salvaguarda do nosso patrimônio histórico e arquitetônico edificada em momento de transição de ciclos desenvolvimentista das cidades, considerando que esses bens imóveis também são símbolos identitários e afetivos de nossa cidade. Pense nisso. Continuamos atravessando esse período da pandemia Covid 19.

São Luís-MA, 24.06.2020

(*) Euclides Moreira Neto – Professor Mestre em comunicação Social e Investigador Cultural.

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