Encaixado na Baía de São Marcos, na Ilha de São Luís, o Porto do Itaqui é o principal motor econômico do Maranhão. Público e administrado pela Empresa Maranhense de Administração Portuária – EMAP, o terminal virou rota estratégica para escoar minério de ferro da Vale, soja, milho, combustíveis e fertilizantes com destino à China, EUA e países europeus.

Da promessa de Sarney ao hub do Arco Norte
O projeto do porto ganhou força na década de 1960, no governo de José Sarney no Maranhão. A operação consolidou-se nos anos 1970 e, desde então, transformou-se em um dos mais importantes portos públicos da América Latina, peça-chave de um dos maiores complexos portuários organizados do Brasil.
A geografia explica parte do sucesso: é o porto público brasileiro mais próximo dos grandes mercados internacionais, com calado natural de 19 metros que permite receber graneleiros Capesize. A malha multimodal conecta ferrovias da Vale e VLI, rodovias federais e dutovias direto ao cais.
Números que sustentam o apelido
1. Movimentação: Em 2023, o Itaqui movimentou 36,4 milhões de toneladas, segundo dados oficiais da EMAP. Para 2024, a meta anunciada foi ultrapassar 37 milhões.
2. Liderança: É o segundo maior exportador de soja do Arco Norte e principal saída do minério de ferro do Sistema Norte da Vale.
3. Impacto social: Além da carga, o porto atravessa a história de milhares de maranhenses pela oferta de empregos e pela migração que gerou diversidade cultural no seu entorno.

Expansão à vista e o dilema ambiental
O futuro é de crescimento. O Plano de Desenvolvimento e Zoneamento – PDZ prevê dobrar a capacidade até 2040, com novos berços para grãos, fertilizantes, GLP e hidrogênio verde. São bilhões em investimentos privados já mapeados. O avanço, porém, cobra seu preço. Dragagens constantes, aumento do tráfego de navios e novos píeres pressionam manguezais, comunidades pesqueiras e a dinâmica da Baía de São Marcos. Pesquisadores e o Ministério Público Federal têm alertado para riscos de assoreamento, perda de áreas de pesca artesanal e acidentes com granéis líquidos. A EMAP sustenta que opera com licenciamento do IBAMA e mantém programas de monitoramento e compensação ambiental. O impasse permanece: nem sempre os interesses econômicos caminham junto aos ambientais.
Porto e cidade: a ponte cultural que falta
Apesar de ser o principal polo desenvolvimentista do Estado, o Porto do Itaqui ainda é um gigante distante do cotidiano cultural de São Luís. A gestão portuária precisa ocupar mais espaço na vida comunitária da capital com programas permanentes voltados à cultura popular.
O imaginário maranhense é um ativo. Lendas da Baía de São Marcos, como a serpente enca
ntada que dorme sob a Ilha, histórias de naufrágios, do Tambor de Crioula nascido nas periferias portuárias e dos pescadores que guiam suas canoas pelas marés do Itaqui podem virar ponte. Aliar porto e cultura popular significa financiar editais para mestres da cultura, criar um museu vivo do porto, patrocinar festivais nos bairros do entorno e transformar a memória dos trabalhadores em patrimônio. Quando o capital entende que desenvolvimento também é simbólico, o porto deixa de ser só cais e vira território.
A galinha dos ovos de ouro
Itaqui garante ICMS, empregos e coloca o Maranhão na rota do agronegócio global. A cobiça do capital é real: grupos nacionais e estrangeiros disputam cada metro de retroárea. O desafio é equilibrar a conta. Manter a competitividade sem que o ouro escorra pelo cais às custas do meio ambiente e da identidade local. A expansão é inevitável. A questão é se ela virá com mais porto para dentro da cidade, ou só mais cidade a serviço do porto.
Fontes: UFMA – Projeto “Aportando nas Águas da Memória”; Dados públicos EMAP e ANTAQ referentes a 2023/2024.
*Euclides Moreira Neto – Ph.D. em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Docente do Curso de Jornalismo/UFMA

