José Maria do Amaral Filho
Essa assertiva contém, em sua simplicidade, uma das mais profundas sínteses acerca do mistério da filiação. A ciência já nos revelou algo que, durante séculos, a poesia apenas intuía: mãe e filho não são, biologicamente, indivíduos absolutamente separados.
Durante a gestação, existe uma verdadeira comunicação celular entre os dois organismos. Células fetais atravessam a placenta e podem permanecer no organismo materno por muitos anos; e o fenômeno é, em alguma medida, bidirecional, com células maternas também podendo alcançar o organismo do filho.
A medicina chama esse fenômeno de microquimerismo materno-fetal.
É como se a própria biologia dissesse que a maternidade deixa marcas que ultrapassam o instante do nascimento e podem acompanhar mãe e filho por grande parte da existência.
Bom…
Talvez a poesia possa ir ainda mais longe.
A física moderna revelou que partículas podem apresentar entrelaçamento quântico: sistemas que, sob determinadas condições, manifestam correlações que desafiam nossa intuição clássica, mesmo quando separados no espaço.
Isso é ciência estabelecida.
Como metáfora, a ideia de se extrapolar essas premissas para as relações entre pai e filho é irresistível. Transpassariam-se, assim, as dimensões físicas conhecidas.
Porque há vínculos humanos que parecem desafiar a própria ideia newtoniana de distância.
Um pai pode estar a milhares de quilômetros do filho e continuar pensando nele.
Pode estar separado por décadas e ainda ouvir sua voz dentro de si.
Pode já não estar fisicamente presente e continuar participando das decisões de sua vida.
Pode até desencarnar, mas jamais deixar de permanecer.
Talvez porque alguns vínculos não sejam feitos apenas de matéria.São feitos de memória.De exemplo.De amor. De valores. De presença interior. E, para aqueles que creem na transcendência da vida, são infinitamente mais que físicos: são espirituais.
Nesse sentido, a paternidade é muito mais do que um acontecimento biológico.
É uma experiência ontológica.
Um homem deixa de ser apenas indivíduo quando se torna pai.
Alguma coisa fundamental se desloca dentro dele.
Seu futuro passa a carregar o rosto de outro ser humano.
Sua preocupação ganha um novo nome.
Seu trabalho passa a ter uma finalidade maior.
Sua própria felicidade deixa de ser exclusivamente sua.
Pai é o indivíduo tornado coletivo.
É a transição definitiva do homem para a humanidade.
Eis que, então, começa uma das mais extraordinárias experiências que um ser humano pode viver: descobrir que amar alguém significa aceitar que uma parte da sua existência viverá permanentemente fora de você.
Aristóteles percebeu isso há mais de dois milênios.
Ao refletir sobre a amizade entre pais e filhos, escreveu:«οἱ γὰρ γονεῖς ἀγαπῶσι τὰ τέκνα ὡς ἑαυτούς.
(“Os pais amam os filhos como a si mesmos.”)»
Há algo de profundamente atemporal nessa afirmação.
O pai começa amando o filho como alguém que precisa dele.
A seguir, aprende a amá-lo como alguém que precisa cada vez menos dele.
Por fim, descobre a forma mais apurada do amor paterno:
amar o filho mesmo quando ele já não precisa mais de nós.
Aqui, precisamente nessa epifania, a paternidade deixa de ser posse e se transforma em transcendência.
Talvez tenha sido por isso se constituir tão significativo que Jesus tenha apresentado Deus aos homens precisamente sob a imagem do Pai.
Não é casual que a oração central do Cristianismo comece com duas palavras de uma intimidade revolucionária:
«“Pai nosso, que estás nos céus.” (Mateus 6:9)»
Jesus poderia ter escolhido muitas outras formas para falar de Deus.
Poderia ter enfatizado sua onipotência.
Sua eternidade. Sua justiça. Sua majestade.
Mas ensina seus discípulos a chamá-lo de e por Pai.
É uma escolha teológica e afetiva de extraordinária profundidade.
O Deus apresentado por Jesus não é o Deus distante das alturas.
É o Pai.
Aquele a quem se pede o pão cotidiano.
Aquele a quem se confiam nossas faltas.
Aquele cuja vontade desejamos compreender.
Aquele que perdoa.
Aquele que acolhe. Aquele que conhece as necessidades dos filhos antes mesmo que eles as formulem.
E Jesus leva essa imagem ainda mais longe quando pergunta:
«“E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra?”»
E conclui:
«“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus…”(Mateus 7:9-11)»
Que extraordinária valorização da paternidade!
Jesus toma como referência a experiência concreta de um pai que oferece ao filho aquilo de que ele necessita para revelar, por analogia, a natureza do próprio amor divino.
O pai humano se torna, destarte, algo como uma parábola viva do Pai celestial.
Não porque os pais sejam perfeitos.
Mas porque, no melhor de sua natureza, existe algo que aponta, dirige e norteia para o amor.
O pai que oferece pão.
O pai que protege.
O pai que perdoa.
O pai que espera.
O pai que acolhe.
O pai que permanece.
E, para mim, a mais sublime imagem de todas está na parábola do filho pródigo.
O filho parte. Erra.
Desperdiça. Afasta-se.
Cai. E, quando finalmente retorna, não encontra um tribunal.
Encontra um pai. Jesus diz:
«“Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se lhe ao pescoço, e o beijou.”
(Lucas 15:20)»
Talvez poucas imagens da literatura religiosa tenham alcançado tamanha potência.
O pai nem espera o filho chegar.
Corre em sua direção.
Não pergunta primeiro onde ele esteve.
Não exige explicações.
Não começa contabilizando erros.
Abraça.
É a imagem do amor que precede o julgamento.
Da misericórdia que antecede a cobrança.
Do vínculo que sobrevive à distância.
E talvez seja também a imagem mais bonita daquilo que um pai deseja ser.
Porque o verdadeiro pai não é aquele que nunca corrige.
É aquele que corrige sem deixar de amar.
Não é aquele que impede o filho de cair.
É aquele que, quando o filho cai, ainda está lá.A Doutrina dos Espíritos oferece a essa reflexão uma dimensão particularmente interessante.
Allan Kardec, no capítulo XIV de O Evangelho segundo o Espiritismo, afirma que os pais não são criadores do espírito de seus filhos. São, antes, aqueles que recebem a responsabilidade de auxiliar seu desenvolvimento intelectual e moral:
«“Não é o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não faz do que lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto, auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral do filho, para fazê-lo progredir.”»
Essa concepção modifica profundamente o sentido da paternidade.O filho não é propriedade.
É responsabilidade.
Não é posse.
É missão.
Não é extensão narcísica do pai.
É uma individualidade que lhe foi confiada.
Sem dúvida, uma das mais belas definições espirituais da paternidade:
receber uma alma sem pretender possuí-la.
Educar sem aprisionar.
Orientar sem dominar.
Proteger sem impedir o crescimento.
Amar sem exigir que o filho seja aquilo que gostaríamos que ele fosse.
Kardec acrescenta ainda uma ideia profundamente consoladora: os vínculos familiares podem transcender a simples consanguinidade e adquirir dimensão espiritual.
Para quem aceita essa visão, a família deixa de ser apenas um acidente biológico.
Pode ser também:
Encontro.
Provação.
Aprendizado.
Reconhecimento.
Reparação.
E, acima de tudo e muito principalmente:
amor.
A paternidade, então, ganha uma dimensão que ultrapassa a existência física.
O pai não seria apenas aquele que acompanha o filho na atual existência.
É alguém cuja influência moral pode ultrapassar os limites do tempo e do espaço.
E aqui a literatura e a espiritualidade parecem se encontrar com uma intuição profundamente humana:
há pessoas que continuam conosco mesmo depois que deixam de estar ao nosso lado.
É provável que nenhum pai compreenda isso tão profundamente quanto aquele que olha para os próprios filhos e percebe que sua real vida, em plenitude de propósito, começou a existir através e por meio deles.
É uma experiência paradoxal.
Queremos protegê-los de tudo.
Mas sabemos que não poderemos.
Queremos evitar suas dores.
No entanto, sabemos que algumas dores serão necessárias para que amadureçam.
Queremos escolher seus caminhos.
Contudo, sabemos que não nos pertence esse direito.
Queremos que sejam como nós em nossos valores.
Não obstante, desejamos que sejam melhores do que nós em nossas limitações.
E, sobre, antes e acima de tudo:
queremos que sejam felizes.
Ei-la, definitivamente desnuda, tal como o rei:
a mais silenciosa das ambições paternas.
Não queremos necessariamente que nossos filhos tenham aquilo que tivemos.
Queremos que tenham aquilo que lhes permita ser felizes.
Habitualmente trabalhamos durante décadas para lhes proporcionar as oportunidades que nunca tivemos.
Abrimos portas que ninguém abriu para nós.
Estudamos para que eles estudem.
Economizamos para que possam avançar.
Renunciamos ao presente para que tenham um futuro melhor.
E fazemos tudo isso, muitas vezes, sem dizer nada.
Não temos a habilidade da fala como temos a da entrega ininterrupta, silenciosa e eloquente.
Porque existe uma forma masculina de amor que, durante muito tempo, foi expressa menos pelas palavras e mais pela ação.
O pai que trabalha.
O pai que provê.
O pai que se sacrifica.
O pai que conserta e se conserta.
O pai que resolve e se resolve.
O pai que permanece acordado quando todos dormem.
O pai que pergunta:
“Chegou bem?”
Como quem, em duas palavras, tenta esconder uma preocupação imensa.
Entretanto, há algo que precisamos aprender:
os filhos precisam muito além do amor que fazemos; precisam também do amor que dizemos.
Mais um dos grandes desafios dos homens de nossa geração.
Aprender a verbalizar aquilo que durante décadas aprendemos a demonstrar apenas através do esforço.
Dizer:
“Eu te amo.”
“Tenho orgulho de você.”
“Perdoe-me.”
“Estou aqui.”
“Você é importante para mim.”
“Mesmo quando discordamos, eu continuo amando você.”
Porque o amor silencioso é belo.
Mas, Pais, por vezes, o filho precisa ouvi-los…
Virgílio nos legou:
«“Disce, puer, virtutem ex me verumque laborem.”
(“Aprende, meu filho, comigo, a virtude e o verdadeiro esforço.”)»
Nenhuma frase latina traduz melhor a responsabilidade paterna.
Porque o maior patrimônio que um pai pode transmitir não é financeiro.
É moral.
É ensinar a trabalhar.
A cumprir a palavra.
A respeitar os outros.
A tratar bem os que não podem oferecer nada em troca.
A não confundir sucesso com superioridade.
A não confundir dinheiro com valor.
A não confundir poder com grandeza.
A compreender que caráter é aquilo que permanece quando desaparecem os aplausos.
O pai educa muito mais pelo exemplo do que pelo discurso.
Por isso, a maior pergunta que um homem deve fazer a si mesmo não é:
«“O que estou deixando para meus filhos?”»
Mas:
«“O que meus filhos estão aprendendo comigo?”»
Porque podemos deixar patrimônio e deixar pobreza moral.
Podemos deixar títulos e deixar ausência.
Podemos deixar dinheiro e deixar insegurança.
Podemos deixar uma casa e não deixar um lar.
Por outro lado, podemos deixar pouco materialmente e deixar uma riqueza interior que acompanhará nossos filhos durante toda a vida.
Meu pai, José Maria do Amaral, pertence a essa segunda categoria.
Professor.
Homem de trabalho.
Homem de princípios.
Homem dedicado aos filhos.
Homem que fez da honestidade não uma frase, mas uma maneira de viver.
Aqui está a verdadeira travessia do Rubicão do pai:
é precisamente isso que um filho jamais esquece.
Não necessariamente aquilo que o pai disse.
Mas aquilo que o pai foi.
Meu pai me ensinou que dignidade não precisa de plateia.
Que honestidade não precisa de testemunhas.
Que trabalho não é tão somente uma obrigação econômica, mas uma forma de respeito pela própria existência.
Que ser pai é estar presente.
E que o exemplo de um homem pode continuar educando seus filhos mesmo quando nenhuma palavra mais é pronunciada.
Hoje, olhando para minha própria caminhada, percebo quantas coisas em mim começaram nele.
Algumas ideias.
Alguns valores.
Alguns gestos.
Algumas convicções.
Até mesmo algumas inquietações.
É assim que os pais continuam vivendo.
Eles se tornam uma espécie de voz interior.
Às vezes concordamos com ela.
Às vezes discutimos com ela.
Às vezes passamos décadas tentando compreendê-la.
Mas há uma perene certeza:
ela permanece.
Aqui, justamente aqui, está o verdadeiro sentido da perpetuação.
A mãe carrega biologicamente o filho dentro de si e, pela extraordinária biologia do microquimerismo, pode conservar células dele durante muitos anos.
O filho também pode carregar células maternas.
A ciência nos mostra, portanto, que a separação corporal entre mãe e filho não é tão absoluta quanto imaginávamos.
O pai não experimenta essa mesma gestação celular.
Ele possui outra forma de perpetuação.
Perpetua-se na linhagem.
No caráter.
Nos valores.
Na memória.
Na maneira como o filho segura a mão de sua própria criança.
Na maneira como trabalha.
Na maneira como trata sua esposa, seus amigos, seus colegas e os desconhecidos.
Na maneira como reage diante da injustiça.
Na maneira como enfrenta a adversidade.
Na maneira como educa seus próprios filhos.
O pai se perpetua naquilo que ensinou a existir.
Eis uma forma ainda mais profunda de hereditariedade.
A genética transmite moléculas e códigos.
O amor transmite significado e humanidade.
A poesia pode perguntar aquilo que a ciência ainda não responde:
será que todo amor verdadeiro deixa algum tipo de vínculo que a distância não consegue destruir?
A física conhece o entrelaçamento de partículas.
A biologia conhece o microquimerismo.
A psicologia conhece a memória afetiva.
A neurociência conhece a marca profunda das relações.
A espiritualidade fala de almas.
A religião fala de eternidade.
E a experiência humana, simplesmente, sabe de uma coisa:
há pessoas que continuam presentes quando já não podemos tocá-las.
Aqui se descortina esse sublime, etéreo e consciente território onde ciência, filosofia, religião e poesia deixam de competir e começam a conversar.
Não precisamos chamar isso apenas de entrelaçamento quântico.
Podemos simplesmente chamar de amor.
Por isso, a paternidade é tão extraordinária.
Porque ser pai é aceitar uma missão cujo resultado só aparece lentamente.
É plantar árvores cuja sombra talvez não possamos desfrutar, mas cujos frutos poderão ser apreciados por nossa posteridade.
É ensinar caminhos que os filhos percorrerão sem nós.
É construir dentro deles uma casa para a qual possam retornar mesmo quando a casa física já não existir.
É dar raízes sem cortar as asas.
É ensinar liberdade e responsabilidade.
É proteger sem possuir.
É corrigir sem humilhar.
É exigir sem deixar de acolher.
É aprender a falar.
É aprender a calar.
É aprender a pedir perdão.
É aprender a perdoar.
É descobrir que o filho é muito além de nossa continuidade narcísica: é uma pessoa inteira, livre, única e irrepetível.
E, finalmente, é descobrir que a nossa felicidade pode continuar existindo na felicidade deles.
Quando um filho vence, nós vencemos na vida.
Quando um filho realiza um sonho, nossa essência se realiza.
Quando um filho encontra seu caminho, compreendemos que nossos sacrifícios jamais foram inúteis.
Quando um filho sorri, o mundo e a própria existência parecem, por um instante, ter feito todo sentido.
E quando um filho se torna uma pessoa boa, digna, generosa e honesta, o pai recebe a maior recompensa que poderia desejar.
Porque percebe que não criou apenas um filho.
Ajudou a formar um ser humano.
Por certo, essa é a verdadeira grandeza da paternidade.
Não gerar.
Mas formar.
Não possuir.
Mas servir.
Não controlar.
Mas orientar.
Não viver através dos filhos.
Mas viver para que eles possam viver plenamente por si mesmos.
E, então, chega o paradoxo final.
Passamos a vida ensinando nossos filhos a caminhar segurando nossa mão.
Depois ensinamos a soltá-la.
E, quando finalmente caminham sozinhos, percebemos que era exatamente isso que desejávamos desde o começo.
Que fossem livres.
Que fossem fortes.
Que fossem bons.
Que fossem felizes.
E, naquele instante, descobrimos que o filho já não caminha apenas ao nosso lado.
Ele caminha dentro de nós.
E nós caminhamos dentro dele.
Aqui reside a verdadeira eternidade possível ao homem.
Não a eternidade do corpo.
Mas a eternidade do legado.
A eternidade do exemplo.
A eternidade do amor.
Por isso, neste Dia dos Pais, penso em meu pai.
Penso em José Maria do Amaral.
E compreendo que talvez um filho nunca consiga devolver integralmente a um pai aquilo que dele recebeu.
Pode agradecer.
Pode honrar.
Pode continuar sua obra.
Pode transmitir seus valores.
Pode fazer de sua própria vida uma espécie de continuação do exemplo paterno.
Mas nunca poderá devolver completamente o dom de ter recebido uma direção.
Quem sabe seja justamente por isso que os pais não devam esperar pagamento.
O amor verdadeiro não é uma contabilidade.
É uma transmissão.
Recebemos.
Transformamos.
Entregamos.
Amar é, pois, verbo intransitivo.
E continuamos.
Como asseverou Goethe:
«“Was du ererbt von deinen Vätern hast, erwirb es, um es zu besitzen.”
(“Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o, para que possas realmente possuí-lo.”)»
Recebemos uma herança.
Precisamos torná-la nossa.
E, então, na ordem natural da vida, entregá-la aos que virão.
No Evangelho, Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai.
Na parábola, mostrou-nos um pai que corre para abraçar o filho.
Na oração, ensinou-nos a pedir ao Pai o pão de cada dia.
Na experiência humana, aprendemos que o pai é aquele que trabalha para que o filho possa sorrir.
No Espiritismo, aprendemos a pensar no pai não como proprietário da alma do filho, mas como alguém a quem foi confiada uma missão de educação moral.
Na ciência, descobrimos que os vínculos entre mãe e filho podem deixar marcas celulares duradouras.
Na física, descobrimos que a natureza guarda fenômenos de conexão que desafiam nossa intuição clássica.
Na poesia, aprendemos que há amores que sobrevivem ao tempo.
E na própria vida descobrimos aquilo que nenhuma teoria consegue substituir:
quando amamos verdadeiramente nossos filhos, uma parte de nós já não pertence somente a nós mesmos.
Ela pertence ao futuro.
Pertence à memória.
Pertence àqueles que virão depois.
Pertence àquilo que nossos filhos fizerem com o que lhes entregamos.
Eis a definitiva transcendência:
continuar existindo naqueles que amamos.
Não necessariamente como presença física.
Mas como lembrança.
Como consciência.
Como exemplo.
Como amor.
Como aquela voz interior que, mesmo quando tudo parece perdido, ainda nos diz:
“Levante-se.”
“Continue.”
“Seja digno.”
“Faça o bem.”
“Não desista.”
Um dia, quando nossos filhos já forem pais, talvez eles reconheçam nessa voz alguma coisa que aprenderam conosco.
Nesse momento, estaremos novamente presentes, independentemente do tempo e do espaço.
Não porque saibamos explicar os mistérios da consciência.
Mas porque o amor possui uma forma de continuidade que a morte não parece capaz de extinguir.
O corpo se separa.
A distância existe.
O tempo passa.
Entretanto, aquilo que verdadeiramente foi amado permanece.
Imorrível.
Para quem acredita na dimensão espiritual da existência e na palingenesia, a morte representa uma mudança de condição da existência corpórea, e não o fim da vida do espírito.
Amores nunca morrem.
Para quem não acredita, permanece a memória.
Para quem acredita, permanece a alma.
E para todos nós permanece uma verdade essencial:
um pai que verdadeiramente amou jamais deixa inteiramente de estar com seus filhos.
Talvez ainda não possamos explicar isso integralmente pela física.
Talvez ainda não possamos demonstrá-lo exclusivamente pela biologia.
Talvez ainda não possamos medi-lo definitivamente pela medicina.
Mas podemos reconhecê-lo peremptoriamente pela experiência humana.
Porque há vínculos que não dependem da proximidade.
Há presenças que não dependem do corpo.
Há amores que não dependem do tempo.
E há pais que, mesmo quando partem, continuam para sempre onde talvez seja o lugar mais profundo que alguém possa ocupar:dentro dos filhos.
Mães nos levam à divindade.
Pais nos remetem ao melhor da humanidade.
Nessa passagem entre o Divino e o humano, descobrimos o verdadeiro sentido de ser pai: amar tanto alguém que a sua felicidade passa a ser a nossa própria felicidade – e trabalhar, silenciosamente, todos os dias, para que esse amor continue existindo muito depois de nós.
Feliz Dia dos Pais.
Aos pais que amam em silêncio.
Aos pais que trabalham em silêncio.
Aos pais que erram, aprendem e continuam.
Aos pais que ensinam pelo exemplo.
Aos pais que sabem que filhos não são propriedades, mas legados.
E aos filhos que, um dia, compreenderão que grande parte daquilo que são começou no coração de um pai.
Ao meu pai, José Maria do Amaral, minha eterna gratidão.SRN!
Aos meus filhos, Anna Luísa e Louis André, tudo de bom em mim é por e para vocês!
Pois algumas heranças não cabem em testamentos.
Algumas heranças só cabem na eternidade da alma.
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José Maria do Amaral Filho, MD, MSC.
Membro da Academia Maranhense de Medicina

