20/01/2026

17 DE SETEMBRO: 40 ANOS DA GREVE DA MEIA PASSAGEM EM SÃO LUÍS

Há quarentas anos a cidade de São Luís se transformou inesperadamente em uma praça de guerra ou campo de batalha. Foi a Greve deflagrada por estudantes para reivindicar o benefício da meia passagem, após a concessão do terceiro aumento de passagens de ônibus pela Prefeitura da capital maranhense, no ano de 1979, pois os preços, segundo a classe estudantil daquela época eram abusivos para a classe trabalhadora e para a grande maioria de seus habitantes, que viviam um período de desemprego muito acentuado.

Para melhor compreensão do que foi esse fenômeno, transcrevo abaixo, parte da nota publicada na imprensa local, por ocasião dos 39 anos desse evento, quando ressaltou que “O Início da greve se deu após o terceiro aumento das passagens de ônibus no mesmo ano pelo prefeito Mauro Fecury (1979-1980). Estudantes da Universidade Federal do Maranhão declararam greve e foram reprimidos ao sair em passeata para o centro da cidade que apesar da repressão e da vigilância presentes na época conseguiram apoio de outros estudantes e de vários setores da sociedade ludovicense” (https://www.blogdabarrigudeira.com – consultado em 15.09.2019). 

Segundo ainda essa mesma fonte “Os dias 17 e 18 de Setembro concentraram a maior parte da violência. O ato público na Praça Deodoro reuniu cerca de 20 mil pessoas no dia 17 e foi brutalmente reprimido por forças policiais. O dia 18 amanheceu com o comércio fechado, transporte público parado e mais enfrentamento entre a polícia e manifestantes”. Esse episódio pegou grande parcela da população de surpresa, mas os estudantes estavam atentos e o centro da cidade de São Luís viu-se envolvido num conflito sem precedentes.

Nessa época, eu, juntamente com outros integrantes do Cineclube Uirá, vinculado ao Departamento de Assuntos Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis da Universidade Federal do Maranhão, fomos instigados pelos acontecimentos a registrar no suporte cinematográfico de Super 8 (hoje, 2019, esse formato está extinto e em desuso) parte das etapas daquele movimento estudantil, que se tornou de abrangência coletiva a partir do ponto de vista dos habitantes de São Luís, com o objetivo principal de registrar a evolução das negociações e seus respectivos desdobramentos.

Éramos estudantes, eu (Euclides Moreira Neto), Luís Carlos dos Santos Cintra e Raimundo Nonato Medeiros da Silva (falecido no último dia 31.08.2019), este último estudante da UEMA, mas que participava do Cineclube Uirá. O equipamento de que dispúnhamos era da UFMA e da UEMA, que estava sob o meu poder e de Raimundo Medeiros para realizarmos outro filme. Portanto a deflagração de atos inusitados no centro da cidade (como a repressão abusiva das forças de segurança do Estado, depredações e saques de pontos comerciais) fez desviarmos o foco de outros projetos culturais para registrar os acontecimentos do movimento reivindicatórios dos estudantes.

Faço um parentese, neste ponto, para transcrever, o depoimento de Raimundo Nonato Medeiros publicado no livro “Guarnecendo Memórias” (2017), de minha autoria, sobre nossa atuação no movimento cinematográfico local daquela época:

“Cintra, Euclides e eu passamos a trabalhar em sintonia. A criatividade e a improvisação substituíam as limitações técnicas. Aí surgiu a marca Virilha Filmes. Quase formado em engenharia e trabalhando no Ministério da Fazenda participei do movimento da meia passagem em São Luís. A Virilha Filmes estava documentando as manifestações estudantis. Fui filmar a libertação dos estudantes que estavam aprisionados nos órgãos de segurança situados a Rua 28 de Julho, quando fui preso na porta do quartel de policia militar. Tempos depois o filme “A Ilha Rebelde ou A Luta pela Meia Passagem” foi finalizado pelos diretores” (Moreira Neto, 2017, p. 292).

Naquela ocasião, eu, era o integrante da equipe de filmagem, que tinha veículo automotor (uma Brasília laranja) e isso nos ajudou muito, pois esse carro serviu de ponto de guarda dos equipamentos e filmes sensíveis virgens (e os filmados), assim como facilitou, na medida do possível, o nosso deslocamento. Ficou acertado que Carlos Cintra, acompanharia a movimentação das lideranças, pois ele também era integrante da Comissão Estudantil; Eu e Raimundo Medeiros, deveríamos registrar os fatos externos que ocorriam na cidade, o que incluía as depredações, mobilizações populares, reuniões com as autoridades, prisões de envolvidos nas Delegacias, atendimentos de serviços de urgência e emergência no Hospital Presidente Dutra, mobilização do Quartel da Polícia Militar, que na época situava-se no centro histórico (Convento das Mercês), entre outros.

Com a intervenção das forças de segurança do Estado considerada exagerada e muito atípica pela brutalidade da repressão policial aos manifestantes, a reação e adesão da população foi também da mesma forma solidária, estabelecendo um clima de muita preocupação de todas as partes envolvidas. Enquanto isso, nós integrantes do cineclube Uirá tentávamos registrar da maneira mais eficaz possível, os fatos relacionados à revindicação dos estudantes. Vale lembrar que naquele período a única televisão aberta na cidade era a TV Difusora (já repetidora da Rede Globo) e, que, reproduzia nos seus programas informativos, as notícias oficiais do poder vigente, afinal estávamos vivendo também um período de ditadura militar, lembrando que essa ditadura era extremamente controladora e repressora quando se tratava de demandas populares.

Nesse contexto, tivemos que capturar as imagens dos fatos ocorridos na “Greve da Meia Passagem” com uma ideia na cabeça e a câmera filmadora Super 8 na mão (literalmente na mão), pois não tínhamos equipamentos profissionais que pudessem nos auxiliar. Então tivemos que nos desdobrar e executar nossa tarefa de documentarista da atualidade com a criatividade possível, pois podíamos ter esses equipamentos apreendidos pelos forças de segurança, e isso ocorreu, com o integrante Raimundo Medeiros, quando foi registrar a movimentação das forças policiais no quartel da PM, no convento das Mercês. Resultado: ele foi preso e teve o seu equipamento confiscado, tendo perdido a maior parte das imagens que produziu, inclusive de outros pontos da cidade.

A maior parte das imagens salvas, foram as que fiz, pois eu tinha o veículo Brasília, que servia de QG para guardar os filmes sensíveis que fora utilizados para as filmagens. Mas, o que já tínhamos produzido e que ficou sob minha guarda serviu para, após o encerramento da greve, produzirmos um documentária de 30 minutos, o qual viemos a chamar de “A Ilha Rebelde ou A Luta pela Meia Passagem”. Nesse documentário tivemos a oportunidade de reunir quase todas as imagens não apreendidas pela polícia e acrescentamos simulações dos interrogatórios feito com estudantes pelas forças de segurança, com a ajuda do cineasta Murilo Santos.

Merece esclarecimentos ainda que a participação de Murilo Santos no movimento cinematográfico maranhense naquela época é fundamental, pois ele, como o integrante mais experiente desse campo de atuação, se comportava como conselheiros, curador e orientador para diversas demandas surgidas no meio audiovisual. Na realização do filme “A Ilha Rebelde…”, Murilo Santos foi quem filmou as imagens das comemorações do movimento estudantil, atuou como ator dublando a voz do inquiridor da Polícia Federal, fez a ambientação e iluminação do espaço que reproduzia o local dos interrogatórios, além de ter filmado as cenas com a bitola 16 mm, o que deu um carater mais profissional à montagem final do referido documentário.

Sobre essa sua participação, nesse episódio, Murilo Santos, em depoimento concedido a este investigador, via email, explicou que:

“Só queria lembrar que a minha participação no filme não foi só na voz off do inquiridor (aliás, sem créditos), foi também com as imagens das comemorações, fotos e vídeos, dos estudantes na Praça Deodoro, quando no coreto da praça, diante de centenas de estudantes, houve uma apresentação teatral dramatizando o processo de luta, antes da comemoração da vitória com discursos das lideranças estudantis, finalizando com a abertura de uma garrafa de champanhe. Cenas que fotografei e filmei. Só pra lembrar, dentre as centenas de estudantes na praça estava Mazé, uma militante e pertencente ao movimento superoitista local (Virilha Filmes). Ela elaborava criativos letreiros dos filmes. E  na liderança da encenação teatral, a atriz, bailarina e coreógrafa Rosa Almeida. Assinalo esses dados porque venho  trabalhando a minha memória e de alguma forma esboçando registros pessoais. fora da questão do filme, eu também filmei a cidade quebrada, semáforos, ônibus, nos dias que se seguiram após o conflito  e a repercussão da greve na cidade de São José de Ribamar, também após a semana de conflito em São Luís” (Santos, M., 2019, depoimento enviado por email em 15.09.2019).

O filme “A Ilha Rebelde ou A Luta pela Meia Passagem” é hoje, o único registro audiovisual que existe sobre aquele episódio, quando a classe estudantil ludovicense se fez ouvir e vitoriosa, conseguindo a concessão de um serviço público que beneficiou a maioria de sua juventude.  Confesso, pessoalmente, que fico orgulhoso quando vejo as imagens daquele filme Super 8 reproduzida em citações por qualquer meio ou plataforma de acesso ao conhecimento, mas, com a mesma intensidade, fico triste em ver que essas citações ou referências sequer informam, às gerações que nos sucederam, a autoria de quem são aquelas imagens, pois ali estão embutidas as ousadias e esforços realizados para serem registradas, afinal éramos estudantes e jovens quando as mesmas filmadas, e, também, nos sacrificamos emocionalmente, fisicamente e financeiramente para que elas ocorressem.

Vale lembrar ainda, que, como resultado do enfrentamento ocorrido entre as forças repressora e os estudantes, o então Governador do Estado, João Castelo, decidiu negociar, pois o clima ficou muito hostil. Então o governador, que não estava em São Luís no dia 17 de setembro, mandou libertar alguns presos e concedeu parte do estádio Nhozinho Santos para a realização de uma assembleia dos manifestantes. Esses decidiram diminuir os enfrentamentos devido à postura de negociação do governo, mas continuaram a greve até o dia 22 de setembro de 1979. 

É recorrente também a informação de que “Um fator relevante da greve foi á adesão da Igreja Católica. Sua importância para a consecução do sucesso que foi alcançado no movimento da Meia Passagem, seja como mediadora, seja como solidária a causa foi de grande importância. A presença do arcebispo de São Luís, Dom Mota, nas negociações proporcionou segurança e prestígio a Comissão que realizou a mediação entre governo e estudantes” (https://www.blogdabarrigudeira.com), assim, conforme essa mesma fonte, “Entidades da Igreja como Movimento Familiar Cristão, Bispos e Sacerdotes como Pe. Sydney Castelo Branco, Pe. Jocy Neves Rodrigues, Pe. Rejean Racine e o Pe. Italiano Marcos Passerini, receberam acusações dos órgãos governamentais e de segurança do Estado de serem participantes e apoiadores do movimento”. 

Outro fato preponderante do movimento passa pela unidade interna de suas liderança que naquela época retomavam a organização das entidades estudantis (UNE e DCE’s) e se engajaram na luta. Destacaram-se lideranças como: Coelho Neto, Agenor Gomes, Renato Dionísio, Jomar Fernandes, Joãozinho Ribeiro, Juarez Medeiros, Domingos Dutra, Cunha Santos, Cícero Abreu da Hora, Fernando Rezende, Denize Matos, entre outros. Somente no dia 28 de setembro daquele ano foi sancionada a Lei da Meia Passagem e no dia 1º de Outubro entrou em vigor. Porém em homenagem aos estudantes feridos, presos e aos que não desistiram e continuaram firmes até a conquista do direito, mesmo depois do dia mais violento da greve, o dia 17 de setembro é tido como marco. Inclusive nomeando diretórios e grêmios estudantis.

Desse modo, agora em setembro comemora-se os 40 anos da greve da meia passagem, episódio que marcou a história do movimento estudantil da capital maranhense. A greve foi de grande significado para a política do Maranhão e ainda hoje é um marco na história ludovicense.  O que nos deixa triste é que não há nem um evento, nenhuma postagem, nenhuma mensagem sequer, daqueles que se propõe a governar este estado, menos ainda daqueles que ainda usufruem dessa conquista. Esse descaso é colocado como sendo fruto de um movimento estudantil corrompido pelo movimento partidário que se esqueceu da coletividade e hoje almeja somente projetos individuais. Deixamos aqui a nossa lembrança e nossa homenagem a todos aqueles que contribuíram para essa importante conquista, ainda hoje viva, porém muito pouco lembrada.

Euclides Moreira Neto – Professor-Mestre em Comunicação Social pela UFMA/UFF/UNIVIMA, Investigador Científico do Campo Cultural e Jornalista.

São Luís, 15.09.2019.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.