27/08/2026

A memória como ato de resistência: o Guarnicê, seu apagamento e meu protesto silencioso na 49ª edição! Por Euclides Moreira Neto.

São Luís – Quando o Festival Guarnicê de Cinema chega à sua 49ª edição, não há como não fazer um inventário afetivo, histórico e político do que esse evento representou – e do que decidiram fazer com sua história. Participei das primeiras 31 edições ininterruptas. Não como convidado. Como construtor. Como concorrente nas cinco primeiras, quando ainda era Jornada Maranhense de Super 8, e fui vencedor de vários prêmios, incluindo o primeiro lugar da primeira edição, marco fundador que muitos hoje sequer sabem que existiu. A partir da sexta edição, assumi em conjunto com a Professor Nerine Lobão (naquele momento) a coordenação do evento para não deixá-lo acabar, diante do fim do período do Professor Mário Cella como diretor do então Departamento de Assuntos Culturais – DAC.

Essa decisão, tomada ainda jovem, marcou toda a minha trajetória na Universidade Federal do Maranhão.

Tive a sorte – e faço questão de registrar o termo sorte, porque foi liberdade intelectual – de ter convivido com diversos diretores do DAC que compreenderam o que é gestão cultural pública. Jomar Moraes, Waldomiro Viana, Fátima Frota, entre outros. Todos, sem exceção, me deixaram atuar com liberdade e empreendedorismo. Não havia patrulhamento ideológico, não havia vaidade de apagar o antecessor. Havia projeto. Foi esse ambiente que me permitiu chegar ao posto de Diretor do DAC, onde permaneci por 12 anos consecutivos, atravessando quatro gestões de reitores: Aldyr Melo, Oton Bastos, Fernando Ramos e a primeira gestão de Natalino Salgado.

Foram 12 anos em que a UFMA viveu, talvez, seu período mais fértil de produção cultural universitária e extensionista. Não mantivemos apenas o que já existia – o que já havia sido criado pelas gestões anteriores e que era patrimônio da instituição – como criamos. Ousamos. Chegamos a desenvolver 17 projetos culturais permanentes ao longo do ano. O Festival Guarnicê – nome que criei e adequei o referido projeto de festival audiovisual ao período das festas juninas, para dar identidade maranhense a um festival de cinema que teimava em ser cópia de modelos do sul – e o FEMACO – Festival Maranhense de Canto Coral – eram os maiores eventos, pelo porte, pelo público, pelo impacto nacional. Mas não eram os únicos. E talvez nem os mais inventivos.

Destacavam-se, naquele ecossistema, o Festival de Poesia Falada, que revelou para São Luís grandes poetas e performances impactantes; o MARACANTO, nosso Festival Maranhense de Canto Lírico; o Festival Universitário de Reggae – o UNIREGGAE, que foi pioneiro em institucionalizar o reggae como linguagem de pesquisa dentro da universidade; a Mostra de Arte Efêmera, que ocupou o Centro Histórico e o próprio campus universitário da UFMA com intervenções; o Festival Curtas Lençóis, levando cinema para Barreirinhas e para os povoados dos Lençóis Maranhenses. Cada um desses projetos era um ato de descentralização da cultura.

Para que não se diga que é memória seletiva, deixo aqui o registro público, factual, dos principais projetos que coordenei à frente do DAC/PROEX/UFMA:

12 edições da Mostra Brasileira de Humor no Maranhão (HUMORMARÁ)
25 das 31 edições do Festival Guarnicê de Cinema4 edições da Mostra Guarnicê Itinerante de Cine Vídeo
13 edições do Festival Brasileiro de Canto Lírico no Maranhão (MARACANTO)
12 das 23 edições do Festival Brasileiro de Poesia no Maranhão (POEMARÁ)
12 edições do Festival Universitário de Reggae – UNIREGGAE
8 edições da Mostra Brasileira de Miniatura Artística no Maranhão
12 das 33 edições do Festival Brasileiro de Canto Coral no Maranhão (FEMACO)
11 edições da Mostra Maranhense de Arte Efêmera
12 edições da Tocata de Bandas e Fanfarras do Maranhão
12 edições da Cantata Natalina
12 edições da Exposição Presépio
6 edições do Salão de Artes Plásticas 31 x 316 edições do Projeto Carcará de Cara Nova
3 edições do Curta Lençóis: Festival de Cine-Vídeo dos Lençóis Maranhenses
2 edições do Projeto LUSOBRAS: Festival Luso-Brasileiro de Arte Cultura
10 edições do Programa Regional de Apoio às Artes Plásticas
2 edições do Maranhão Vídeo de Bolso – Festival Regional de Vídeo de Bolso no Maranhão
9 edições do Encontro de Teatro de São Luís na Periferia

Foram mais de três décadas de trabalho contínuo, sem intervalo, sem edital que me sustentasse, apenas com a crença de que universidade pública que não produz cultura é apenas uma escola de terceiro grau.

A partir de 2009, quando fui convidado a assumir a Presidência da então Fundação Municipal de Cultura (FUNC) da Prefeitura de São Luís – na gestão do saudoso Prefeito João Castelo – com a mudança de orientação nas direções do DAC, o que se viu foi o desmonte. Não foi transição. Foi apagamento. Quase cem por cento daquilo que foi construído como legado foi descontinuado, desidratado ou folclorizado. E, junto com os projetos, promoveu-se um apagamento deliberado, sistemático, da minha pessoa na história oficial da instituição. Meu nome foi sendo retirado dos textos de memória, das retrospectivas, dos releases. Minhas fotos sumiram dos arquivos. Minha contribuição foi sendo empurrada para a nota de rodapé, até virar silêncio.

Por isso, resolvi me afastar e me recolher na minha insignificância. Não por mágoa pequena. Por dignidade. Quem viveu 31 edições não pode compactuar com uma narrativa que começa no ano seguinte à sua saída.

Este ano, na 49ª edição, decidi não aparecer. Foi um protesto silencioso. Não fui, não mandei filme, não mandei texto de saudação, não compus mesa. Meu não comparecimento é meu texto mais eloquente contra a forma nada republicana com que a atual gestão da UFMA, da PROEC e da DAC (isso mesmo da DAC – atualmente não é mais Departamento, agora é Diretoria) tem tratado a memória institucional. Memória não é propriedade de gestão. É patrimônio coletivo. Quando uma gestão se apropria da história e reescreve para se autocelebrar, ela não faz gestão cultural. Faz revisionismo.

O Festival Guarnicê sobrevive. E isso é importante. Que bom que sobrevive. Mas sobrevive sem lastro, sem saber de onde veio. Um festival que nasceu no Super 8, com rolos que eu mesmo emendei na madrugada, com projetores emprestados, com júri formado por amigos que acreditavam que o Maranhão podia fazer cinema, não pode ser contado como se tivesse começado em 2010.

Sobrevivi apesar de tudo. A vida continua e os desafios também, em outras esferas e campos de atuação. Hoje meu tempo é existencial, é de crônicas, é de sala de aula no Curso de Jornalismo, é de orientar jovens que ainda acreditam que imagem é pensamento. Não preciso de palco no Guarnicê. Preciso de verdade histórica.

Que a 50ª edição, no ano que vem, tenha a grandeza de fazer uma reparação histórica. Não a mim. À história. Chamar todos os que fizeram as 49 edições. Abrir o arquivo. Mostrar o Super 8 vencedor de 1977. Dizer o nome de quem fez. Isso é ser republicano. Isso é ser universidade.

Enquanto isso não acontece, sigo aqui, escrevendo minhas crônicas do meu tempo existencial. Porque quem tem memória, tem futuro!

São Luís, agosto de 2026.

Por Euclides Moreira Neto – Ph.D. em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo/UFMA