A sandália tira você do chão
*Célio Sergio
Ao pé da letra, o pé só quer chão. Não se pergunta se é certo ou errado, se o pisar é da perna esquerda ou direita, se dá sorte ou azar. E se tem sandália, não pergunta se é de marca, se é nova, se está gasta ou se tem classe. O pé faz o que tem que fazer, pisar; direito ou esquerdo, ele apenas pisa, ao passo que caminha.
Quem complica é a mente, que transforma cada passo em julgamento, cada tropeço em culpa, cada dor em drama.
No andar sobre os pés, por vezes, um vai à frente enquanto o outro sustenta atrás. Um erra, o outro ajusta, buscando sempre o equilíbrio do ser, pouco importando se é o esquerdo ou o direito. Caminhar é com os dois.
A ideia de “pé certo” e “pé errado” é uma invenção moral para algo que é, antes de tudo, movimento. Um pé precisa cruzar com o outro.
A sandália ajuda, protege, ameniza a dor, mas também vira máscara. Há quem escolha calçados como escolhe discursos, para esconder calos, fraquezas, feridas, ou para se proteger no conforto do ego. Calçar é, muitas vezes, uma forma elegante de não sentir, de não sentir o chão sob os pés, se protegendo das ameaças da terra.
É preciso sentir o chão. E sentir dói. A angústia nasce exatamente aí, quando o chão é real demais para os pés e a cabeça insiste em calçar algo.
Mas o sentido não está no pé. Está na cabeça.O pé vai onde a consciência manda, mesmo com dor. Não é o caminho que machuca, é a insistência em andar sem saber por quê.
Usamos sandálias, às vezes velhas e mais confortáveis, mesmo já no fim da vida útil. A nova, quase sempre, exige adaptação, nem sempre calça bem, muitas vezes incomoda.
Mas lembre-se: a sandália que hoje é confortável precisou ser “amaciada na vivência” e, por vezes, fez calo. Tirar a sandália e sentir o chão pode ser revelador.
O que importa é caminhar com os próprios pés. Um não vai sem o outro. E nem é preciso de sandália nos pés (esquerdo ou direto). Basta coragem para pisar no chão da própria escolha.
Porque quem aprende a andar por si descobre que não é o pé que sustenta o caminho, é o sentido que sustenta o passo. Tire as sandálias, caminhe na areia, permita-se sentir o chão, que é real e não sandálias que te isolam.
* Célio Sergio é jornalista, designer e psicólogo, atualmente está diretor executivo do jornal O Imparcial!
Saiba mais em: @celiosergiosf

