13/07/2026

Artigo: Casa do Maranhão: o Centro histórico que o Governo entrega aos estrangeiros. Por Euclides Moreira Neto*.

São Luís é Patrimônio Cultural da Humanidade. Isso não é placa. É compromisso. É responsabilidade.
E é justamente por isso que dói tanto ver o que estão fazendo com o coração da nossa cidade.

Não sou contra investimento. Público ou privado. Muito pelo contrário. Capital que gera emprego, visibilidade e restaura prédios é fundamental para tirar o Centro Histórico do estado de abandono em que se encontra há décadas. Turismo, hotelaria, gastronomia: tudo isso movimenta e dá vida.

O problema é o como e o a que preço.

O Governo do Estado decidiu “abrir as pernas” para o grupo português Vila Galé, da hotelaria, e para isso escolheu o pior caminho possível: destruir para construir. Escolheu sacrificar a Casa do Maranhão.

A Casa do Maranhão não era um prédio vazio. Era um Museu vivo. Fruto da luta do campo cultural popular maranhense. Ali estava guardado um acervo valiosíssimo sobre os grupos de Bumba Meu Boi, sobre o tambor de crioula, sobre as festas, as rezas, as crenças que fazem de nós, maranhenses. Era a nossa memória na prateleira. Era identidade.

E não parou por aí. A Galeria de Arte e a Casa do Artista, criadas ainda num dos governos de Roseana Sarney, também foram cooptadas. Virou cozinha de hotel. Sim, cozinha.
Artistas que tinham ali seu espaço de trabalho, de venda, de encontro, estão sendo despejados e remanejados para outros locais. Sem a mesma estrutura. Sem a mesma alma. Sem a mesma identidade. Trocamos cultura por frigideira.

O que mais me causa indignação como investigador cultural e pesquisador científico que estuda a cultura maranhense há anos é a falta de lógica e de respeito.
O Centro Histórico já tem um equipamento hoteleiro pronto para ser readequado: o antigo Hotel Vila Rica, ao lado da Catedral da Sé. Com estrutura. Com história. Inclusive com espaço para estacionamento. Por que não foi essa a escolha?

Por que preferiram matar um museu ativo, dinâmico e popular para enfiar um hotel de luxo no meio dele?

A resposta já está nas paredes. Os empresários portugueses aplicaram a tática do choque visual. Mandaram pintar a antiga Casa do Maranhão de rosa. Uma cor berrante, de púlpito de poder hoteleiro, que grita: “aqui manda o capital estrangeiro”. O primeiro contato que o turista e o ludovicense têm ao passar ali hoje é de tristeza. É o anúncio da derrota. Perdemos nosso museu.

E a Casa do Maranhão não está sozinha no sacrifício. É uma morte anunciada em série.
Para o brejo estão indo também o Centro de Criatividade Odylo Costa Filho, o Arquivo Público do Maranhão, o Teatro Alcione Nazaré, a Biblioteca Ferreira Gullar, o Cine Praia Grande, o Centro de Cultura Popular do Maranhão, o Circo Cultural Nelson Brito, a Escola de Música do Maranhão — esta, ameaçada de desabamento por total falta de manutenção —, o CACEM…

Eram equipamentos que mantinham o Centro Histórico pulsante. Com arte. Com gente. Com vida. Hoje viram moeda de troca.

São Luís merece hotel. Mas merece muito mais o direito de continuar sendo São Luís.

* Euclides Moreira Neto é Ph.D. em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNMA e Professor do curso de Jornalismo/UFMA