HISTÓRIAS DE SÃO LUÍS – HISTÓRIAS DO CARNAVAL
Por Hamilton Raposo
A essência de São Luís sempre foi o seu povo. A maranhensidade, o jeito maranhense de ser. E nada mais maranhense do que o carnaval maranhense. E hoje, em tempos de pandemia e de isolamento social, eu vou conversar sobre dois personagens que incorporaram o espírito do carnaval maranhense com a vida social de São Luís. Um é um cearense que se estabeleceu em São Luís e aqui criou vínculos, construiu amizades, glamour e se tornou um personagem que modificou o pensamento e comportamento da cidade: O Showman Bezerra, o cabelereiro Bezerra’s.
Bezerra era da geração dos cabelereiros Bennys e de Jackson, pioneiros e de muitas representatividades na cidade. Os primeiros cabelereiros a pontificarem nas colunas sociais da cidade. O Bezerra era proprietários do Salão Bezerra’s e se transformou em um ícone do carnaval maranhense, revolucionando-o com suas ousadas fantasias em plena ditadura militar na década de 1970 e que fez muito sucesso nos desfiles da segunda-feira de carnaval no Clube Jaguarema. A sua apresentação e passagem pela passarela do clube era ansiosamente aguarda por milhares de foliões e não foliões, todos ansiosos, esperavam por Bezerra e se indagavam em murmurinhos sobre qual seria a sua fantasia, qual seria a sua ousadia?
O Bezerra era fantástico, tinha uma personalidade que ia além do seu tempo. Desfilava com aplausos e ao som de uma claque que gritava “b…, bi…”, um grito homofóbico, mas que em nenhum momento se sentia ameaçado ou desrespeitado, Bezerra era superior, desfilava e desafiava a conservadora classe média de São Luís e depois do desfile, cumprimentava a todos com a altivez dos vencedores, para depois cair na folia.
As escolas de samba, principalmente a Flor do Samba, Turma do Quinto e Favela do Samba que modificaram a maneira de se apresentarem no carnaval de passarela, disputavam acirradamente a presença de Bezerra como destaque, e levava vantagem na disputa do título de campeão do carnaval quem o levasse para a sua escola. Bezerra fez história na cidade e aqui se sentia mais maranhense do que muitos maranhenses. Sempre encontrava o Bezerra fazendo caminhada na lagoa. Faz tempo que não o vejo.
São Luís tem dessas coisas, nunca foi e será uma província, sempre teve um comportamento de metrópole, sempre conviveu com a diversidade.
Um outro exemplo para ser lembrado é a grande influência social dos babalorixás em São Luís, tanto no aspecto religioso, quanto no aspecto social, político e carnavalesco da cidade, e neste contexto, cito Jorge Babalaô, o Jorge da Fé em Deus, que se diferenciou de todos os outros babalorixás. Jorge Babalaô foi líder religioso, político, carnavalesco e agente social dos bairros do Monte Castelo, Fé em Deus, Liberdade e personalidade de destaque da cidade. Foi o primeiro babalaô a assumir sua condição de líder religioso em uma sociedade maciçamente cristã. Jorge Babalaô teve a ousadia de transformar o dia de fundação da cidade, 08 de setembro, em festa religiosa em sua tenda espírita, incorporando o “espírito de São Luís Rei de França”.
Jorge Babalaô foi o protagonista da maior sessão de “descarrego” do Brasil e desta sessão obteve a permissão do “Rei D. Sebastião e dos seus touros encantados” para construção do Porto do Itaqui. E se hoje existe o Porto do Itaqui, orgulho do Maranhão e do Brasil, com certeza se deve a Jorge Babalorixá e ao Rei D. Sebastião com seus touros encantados, a sua construção.
São Luís tem carnaval e encantarias. Viva o carnaval!
