Por Euclides Moreira Neto – PhD em Comunicação, Linguagem e Cultura – UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo – UFMA
São Luís, meados de agosto. O calor já começa a dar o tom do que vem pela frente, as vitrines ainda nem pensaram em glitter, mas nos terreiros, barracões e sedes de bloco a conversa já é outra: como vai ser o próximo Carnaval? Essa é a época em que a cultura começa a se organizar.
É quando o samba enredo começa a nascer na cabeça do compositor, quando a costureira tira a fita métrica da gaveta, quando o mestre de bateria marca o primeiro ensaio, quando o brincante do bumba, do reggae, do cacuriá e dos blocos tradicionais começa a planejar o ano inteiro de trabalho.
Só que em 2026 algo está estranho. O calendário virou, agosto chegou na metade, e até agora ninguém chamou os fazedores de cultura da região metropolitana para sentar à mesa e planejar o Carnaval de 2027 com a Prefeitura.
No dia 04 de agosto de 2026, três entidades que representam o coração pulsante do nosso ciclo carnavalesco protocolaram o Ofício Nº 010/2026 na Secretaria Municipal de Governo. A Associação Maranhense de Blocos Carnavalescos – AMBC, a Academia dos Blocos Tradicionais do Maranhão – ABTMA e a Liga das Escolas de Samba do Maranhão – LIESMA pediram uma audiência com a Excelentíssima Senhora Prefeita Esmênia Miranda Ferreira da Silva.
Na carta, sugeriram o dia 18/08/2026, às 17h. Mas deixaram claro: estão à disposição para adequar data e horário à agenda institucional. Pediram apenas uma coisa: resposta com dois dias de antecedência. Coisa simples. Coisa de quem respeita o tempo do poder público e pede respeito ao tempo de quem vive da cultura.
E por que essa audiência é urgente? Porque Carnaval não se improvisa. Porque o Carnaval de São Luís não é só avenida e trio elétrico. Nossa cultura é diversa e rica em manifestações. Aqui o Carnaval tem tambor de crioula que resiste, tem bloco afro que levanta bandeira, tem escola de samba que educa criança o ano inteiro, tem bloco tradicional que carrega 40, 50 anos de história nas costas. Tem o fazedor de fantasia que sustenta a casa com a agulha, o puxador que ensaia debaixo de chuva, o presidente de bloco que tira dinheiro do próprio bolso para comprar tinta e tecido.
Esses são os verdadeiros arquitetos da festa. São eles que transformam verba em alegria, que transformam praça em palco, que transformam rua em pertencimento. E são eles também quem votam, quem mobilizam comunidade, quem elegem os representantes públicos.
Não se trata de favor. Se trata de diálogo. Se trata de política pública feita com quem entende do ofício. Não dá mais para planejar o maior evento cultural do estado sem ouvir quem está na ponta. Não dá para decidir palco, data, logística, segurança, incentivo, sem ouvir AMBC, ABTMA e LIESMA juntas.
O ofício já está protocolado desde o dia 06/08/2026, às 15h. Já tem número, já tem carimbo, já tem registro. O que falta agora é a resposta. É o gesto político de dizer: “venham, vamos conversar”. Porque se tem uma coisa que a gente aprendeu nesses anos todos de Carnaval é que quando o poder público vira as costas para os fazedores de cultura, quem perde é a cidade inteira. A festa fica pobre, o calendário fica vazio, o artista fica sem trabalho, e a tradição que a gente tanto se orgulha de chamar de patrimônio vai minguando.
Já passou da hora de dar o poder de falar a quem faz. De ouvir a mãe de escola de samba que sabe quanto custa um carro alegórico. De ouvir o presidente de bloco tradicional que sabe onde o folião precisa de banheiro e água. De ouvir a liderança comunitária que sabe qual rua precisa de iluminação.
A Prefeitura tem a caneta e o orçamento. Os grupos têm a alma e o chão. Sozinhos, nenhum dos dois faz Carnaval. Juntos, a gente faz história. Estamos em agosto. Se a ideia é ter um Carnaval planejado, estruturado, inclusivo e grandioso em 2027, a conversa precisava ter começado ontem. Mas ainda dá tempo.
Basta abrir a porta aos fazedores de cultura da região metropolitana fica o recado: continuem ensaiando, continuem criando, continuem resistindo. E à gestão municipal fica o pedido: chame a gente pra mesa. Nossa cidade merece um Carnaval construído a muitas mãos.
A cultura ludovicense não pode esperar até dezembro para ser lembrada. Ela acontece agora, no planejamento, no diálogo, no respeito.É hora de ouvir quem faz.

