Zuzuca foi pragmático. E o melhor exemplo disso é “Festa para um rei negro”, que levou o Salgueiro à vitória em 1971, correu mundo e chegou à torcida do Barcelona em forma de paródia. O original “Ô Lelê/ Ô Lalá/ Pega no ganzê/ Pega no ganzá…”, em catalão, virou “Ole-le/ Ola-la/ Ser del Barça és/ El millor que hi há” (Ser do Barça é o melhor que há). Nenhum refrão da avenida é tão conhecido assim. Tanto que o samba-enredo passou a ser chamado de “Pega no ganzê”, no lugar do nome oficial.
Para conseguir tamanho sucesso, ele não teve pudores. Ignorou o enredo e não pensou em agradar aos carnavalescos, embora eles formassem o time dos sonhos: Maria Augusta, Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães, sob o comando de Fernando Pamplona. Além disso, deixou de lado o medo de fazer uma melodia que mal pode ser classificada como samba. Não pensou duas vezes ao usar uma palavra que não achou em dicionário, mas é melódica. E compôs sozinho.
Não era pouca coisa o enredo que o capixaba Adil de Paula pôs em segundo plano por preferir uma letra de boa sonoridade a descrever a história. “Festa para um rei negro” narrava a visita de príncipes africanos a Maurício de Nassau em Recife. Eles foram à cidade pedir proteção contra os ataques dos portugueses à região de Angola, que tinha sido colônia lusitana e depois passado ao domínio dos holandeses. Maria Augusta, que descobriu o episódio, ficou maravilhada e decidiu transformá-lo num projeto de desfile como trabalho final de pós-graduação.
O empenho dos carnavalescos não foi em vão. A escola levou 10 em enredo, e seu visual se destacou de tal forma que foi a única, entre dez agremiações, a ganhar nota máxima em alegorias e fantasias. Mas quem se lembra delas? Basicamente, a turma que gosta muito do assunto e fuça arquivos. Para o grande público, a música é a memória daquele carnaval.
A melodia está mais para folia de reis do que para samba-enredo, mas isso nunca foi problema para Zuzuca. Ele tinha o maior orgulho de contar que se inspirara no reisado:
— Eu pensei nas músicas de folia de reis que minha mãe, Maria Paula, cantava lavando roupa na beira do rio. Tanto na melodia quanto na letra. O trecho “Senhora dona de casa/ Traz seu filho pra cantar” entrou porque os foliões saúdam os chefes de família em época de Dia de Reis. Dizem que eu banalizei o samba-enredo, mas outros me copiaram — afirmou ele em 2014.
A disputa interna foi renhida. Censores foram à quadra do Salgueiro porque a música era cantada de forma adulterada, fazendo apologia às drogas. Em vez de “Que beleza/ A nobreza que visita o gongá”, a turma dizia assim “Que beleza/ A maconha que vem lá do Ceará”. E “Pega no ganzê/ Pega no ganzá” virou “Pega no ganzê/ Bota pra gozar”.
Quando a censura esteve na escola, todos cantaram corretamente. Zuzuca deu graças a Deus, porque ser perseguido pelo regime militar era um perigo. Mas a versão maconheira pegou de tal jeito que o compositor percorreu a cidade distribuindo panfletos com a letra certa. No país que vivia sob o AI-5, foliões se deliciavam com a ousadia do “Bota pra gozar”. Em meio a tanta repressão, cantar aquilo era um alívio, transgressão irresistível. A versão “pornográfica” inspirou o teatro de revista. “Pega no ganzê e bota pra ganzá” estreou em novembro no Teatro Rival, na Cinelândia, tendo como protagonista a vedete Virgínia Lane, na época uma cinquentona segura de sua sensualidade.
Adil de Paula nasceu em Cachoeiro do Itapemirim em 1936. “Amores célebres” foi o primeiro samba-enredo que assinou no Salgueiro. Naquela época, compunha sozinho e com parceiros como Bala. Com Noel Rosa de Oliveira, coautor de “Xica da Silva”, assinou o samba de meio de ano que incendiou quadras e salões em 1966: “Vem chegando a madrugada.” Gravado por Jair Rodrigues, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Edith Veiga e Zeca Pagodinho, foi seu primeiro sucesso. A inspiração foi a saudade de sua mulher, que estava em Pernambuco. Daí o romantismo: “Cai, cai sereno devagar/ Meu amor está dormindo…”.
A grande capacidade de comunicação se manifestaria também em “A dança do cafuné” (“Eh cafuné/ Eh cafuné/ Na pontinha da orelha / E na solinha do pé…”) e no samba-enredo do Salgueiro de 1972, “Nossa madrinha, Mangueira querida” (“Tengo tengo, Santo Antônio, Chalé/ Minha gente é muito samba no pe…”). Naquele ano, o rapaz vindo do Espírito Santo saboreava o sucesso como nunca tinha imaginado. Acabara de ser campeão com o Salgueiro e lançara o LP “O bom sambista”, do qual o “Cafuné” era uma das faixas.
Zuzuca chegou ao Salgueiro por volta de 1962. Sua iniciação foi no antigo bloco Independente da Silva Telles, nome da rua onde fica hoje a quadra da vermelho e branco. Foi engraxate , e seu pai desapareceu no mundo. Quando o compositor tinha 14 anos, Maria Paula migrou para o Rio para ganhar a vida como doméstica. Seu irmão Rubens passou a morar com a mãe na casa onde ela arrumou emprego. Ele ficou no Espírito Santo e veio depois. Na infância, sonhava ser cantor e chegou a participar, sem sucesso, de concurso de música em Cachoeiro de Itapemirim. Após trabalhar como mecânico, viveu dos direitos autorais e de investimentos como comprar apartamentos na planta para revender depois por melhor preço.
A melodia de “Pega no ganzê” ultrapassou fronteiras também em protestos, como nas manifestações de estudantes franceses contra a reforma do ensino em 1987. E rendia direitos autorais ao autor por versões em mais de 25 países, inclusive Israel, Finlândia e Estônia. Valeu a pena ser pragmático.
Zuzuca do Salgueiro morreu nesta quarta-feira, em casa, na Zona Oeste do Rio. Tinha 88 anos.

