São Luís está chegando em mais um período eleitoral e, como de costume, as ruas já começam a se encher de promessas. Bandeira, adesivo, jingle e aquele discurso sonho cor de rosa. “Vamos valorizar a cultura”, “a cultura é a alma do povo”, “os fazedores de cultura serão prioridade”.
Bonito no papel. Bonito no palanque. Difícil é encontrar isso na prática. Porque a verdade que ninguém quer dizer em voz alta é que em São Luís a cultura local virou decoração de campanha. Se usa no jingle, se usa na foto, se usa no comício. Mas na hora de definir orçamento, de abrir equipamento, de pagar cachê, ela é tratada como parente pobre.
Os mandatários máximos deste estado e desta cidade insistem numa política de supervalorização das chamadas atrações nacionais. Trazem shows milionários, camarotes, estrutura de aeroporto. O nome estampa outdoor, rádio, TV e rede social. O povo aplaude, tira foto, posta. E está tudo certo com o entretenimento.
O problema é o que vem depois. Ou melhor, o que não vem. Depois ficam os fazedores locais. O mestre de bumba meu boi que ensaia no terreiro com telha furada. A quadrilha junina que costura roupa com dinheiro do próprio bolso. O grupo de tambor de crioula que paga transporte para o ensaio. O coletivo de teatro que monta peça em praça porque o teatro está fechado. O músico, o dançarino, o artesão, o contador de história.
Para eles sobra o resto. Sobra migalha. Sobra promessa. Sobra edital que atrasa, prêmio que não sai, lei de incentivo que some no meio do caminho.
E não dá mais para sobreviver só de amor. De boa vontade. De apoio de amigos, de família e de eventual doador. Vários grupos já desapareceram nos últimos anos. Silenciaram. Não por falta de talento. Por falta de condição mínima de existência. Quando o custo de tudo aumenta a toque de caixa, num ritmo inflacionário assustador, e o cachê do artista local continua sendo “nem seu Sousa”, a conta não fecha.
É humilhante comparar. De um lado, milhões para 90 minutos de show de atração nacional. Do outro, 2 mil, 3 mil, 5 mil reais para um grupo que carrega 40 pessoas, figurino, instrumento, história de 50 anos. Isso quando paga. Isso quando não cancelam na véspera.
E onde o povo poderia respirar cultura o ano inteiro? Nos equipamentos públicos. Olha o estado deles. O Teatro Alcione Nazaré fechado. O Arquivo Público Estadual capengando. O Centro de Criatividade Odylo Costa Filho abandonado. O Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho sem funcionar como deveria. A Biblioteca Pública Benedito Leite, a Biblioteca Ferreira Gullar, o CACEM, a Escola de Música Lilah Lisboa… ou portas trancadas ou funcionando em estado precário de conservação.
E o símbolo mais cruel dessa lógica: a Casa do Maranhão. Um museu importantíssimo, criado na gestão da ex-governadora Roseana Sarney justamente para salvaguardar a memória do nosso Bumba Meu Boi, patrimônio da humanidade. Foi desativado. Entregue. Para virar hotel de luxo para turistas de um grupo hoteleiro português, o Vila Galé.
A mensagem é clara: a nossa cultura serve como cenário. Como produto turístico. Mas como política pública, como direito, como memória viva do povo maranhense, ela é de segunda categoria. Descartável.
Dizer que “tudo pode ser conciliado” é fácil. Difícil é sentar de verdade com o coletivo. Ouvir o mestre, a presidenta de bloco, a produtora independente, o gestor de ponto de cultura. Discutir orçamento, calendário, manutenção, formação. Fazer isso de forma democrática, com transparência e continuidade.
Isso está longe de ocorrer em São Luís. E para avacalhar ainda mais o campo cultural, temos o direcionamento escancarado dos recursos das leis de apoio. Leis que foram criadas para oxigenar a produção independente local viram balcão de negócio palaciano.
Viram moeda de troca. Viram verba para contemplar apadrinhados e projetos ligados a quem está no poder. Há uma prática nebulosa instalada. Tem projeto que passa, tem projeto que não passa e ninguém sabe o critério. Tem recurso que entra e não se sabe onde foi parar. Tem prestação de contas que ninguém fiscaliza.
Aí tem coisa. Onde há fumaça há fogo. E queima. E quem se queima é sempre o mesmo: o trabalhador da cultura que está na base. Por isso deixo aqui um conselho direto para os eventuais candidatos que querem mesmo andar em sintonia com a população mais carente, com o povo que faz cultura na periferia, no interior, no terreiro, na escola:
1. Pare de falar em cultura só em ano eleitoral. Apresente um plano. Com meta, com prazo, com orçamento. Diga de onde virá o dinheiro e como será gasto.
2. Valorize quem está aqui. Estabeleça piso de cachê para artistas locais proporcional ao que se paga para atrações de fora. Se tem 2 milhões para um show, que tenha pelo menos 30% desse valor distribuído para a cadeia produtiva local no mesmo evento.
3. Reabra e cuide dos equipamentos. Não adianta construir novo se o que existe está caindo. Teatro, biblioteca, centro cultural não são gasto. São investimento em cidadania.
4. Transparência total nas leis de incentivo. Critério público, banca com participação da classe artística, resultado auditável. E fiscalização séria. Se for preciso, que o Ministério Público e a Polícia Federal entrem. Porque cultura também é dinheiro público.
5. Pauta as demandas históricas. A sonhada PASSARELA DO SAMBA, por exemplo. Décadas se passaram e nenhum governo teve coragem política de tirar do papel. É um equipamento que gera emprego, renda, turismo e dignidade para centenas de famílias do samba. Por que não é prioridade?
Cultura não é supérfluo. Em terra como a nossa, cultura é trabalho, é identidade, é resistência, é economia. É o que nos diferencia no Brasil e no mundo. É o Bumba, o Reggae, o Tambor, o Cacuriá, o Festejo, a literatura, o audiovisual que nasce aqui apesar de tudo.
Não dá mais para tratar isso como folclore de campanha. O povo já entendeu o jogo. E está cansado do discurso vazio. Quer ver projeto, quer ver equipamento aberto, quer ver cachê na conta, quer ver política pública que não mude a cada troca de governo.
Se o candidato quer meu voto e o voto da comunidade cultural, que mostre coerência. Que mostre compromisso com o que é nosso. Que mostre que entende que sem cultura local forte, não existe cidade forte.Do contrário, vai continuar sendo só mais um nome no santinho, mais um slogan bonito e mais quatro anos de migalhas para quem faz a festa acontecer de verdade.
São Luís merece mais. E os fazedores de cultura, sobretudo.
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* Euclides Moreira Neto é Ph.D em Comunicação, Linguagem e Cultura pela UNAMA e Pro

