Por Euclides Moreira Neto
Sem valorizar quem faz cultura na base e quem cuida do próximo, não haverá futuro justo. É nas periferias que se planta o amanhã.
Vivemos um tempo em que se fala muito de futuro. De inovação, de tecnologia, de “disrupção”. Mas há uma pergunta que raramente é feita com a seriedade que merece: sobre que chão esse futuro está sendo construído? Que alicerces sustentam o presente que vivemos hoje?
Se olharmos com atenção para fora das manchetes, para fora dos gabinetes e dos grandes centros de decisão, encontraremos a resposta nas ruas, nas praças, nos barracões, nas escolas públicas, nas cozinhas comunitárias e nos terreiros. Encontraremos nas referências passadas. Mais especificamente, encontraremos na cultura popular e nas práticas comunitárias que, há séculos, são as verdadeiras arquitetas da nossa sociabilidade.
Esta matéria é uma defesa. Uma defesa da memória, da arte feita pelo povo e para o povo, e das ações que tiram do anonimato aquela parcela da sociedade que insistem em chamar de “invisível”. Porque invisível ela só é para quem não quer ver.
A MEMÓRIA COMO PROJETO: ENTENDENDO AS REFERÊNCIAS PASSADAS
Comunicação, linguagem e cultura são indissociáveis. Não comunicamos ideias soltas no ar. Comunicamos histórias, símbolos, afetos que herdamos. A linguagem não nasce no vazio. Ela é forjada na convivência, no trabalho coletivo, na festa e na dor. E a cultura é justamente o nome que damos a esse acúmulo de sentidos.
Quando falo em “referências passadas”, não estou falando de nostalgia. Nostalgia paralisa. Referência mobiliza. É o tambor que já soou ontem e que hoje convoca a juventude para o ensaio. É a receita da avó que vira cardápio de uma cozinha solidária. É o enredo de uma escola de samba de 1998 que inspira a temática de 2027.
Negar essas referências é praticar um epistemicídio. É matar formas de saber que não cabem em planilha, mas que sustentam a vida em comunidade. O Brasil, e o Maranhão de forma muito potente, é um país forjado na mistura. E essa mistura não aconteceu nos livros. Aconteceu na roda. Aconteceu no sincretismo do Bumba Meu Boi. Aconteceu na resistência do tambor de crioula, patrimônio da humanidade. Aconteceu no cordel, na cantoria, no cacuriá, no reggae.
Essas manifestações são marcas indeléveis porque elas cumprem uma função social que o Estado, muitas vezes, não cumpre: a de criar pertencimento.
A CULTURA POPULAR COMO TECNOLOGIA SOCIAL
Chamamos de “tecnologia” tudo aquilo que resolve um problema humano. Nesse sentido, a cultura popular é uma das mais sofisticadas tecnologias sociais que já inventamos.
Vejamos o exemplo dos grupos carnavalescos e juninos. Pegue a Sociedade Recreativa Favela do Samba. O que ela faz? Ela pega jovens que poderiam estar na ociosidade ou na vulnerabilidade e os coloca para criar. Para costurar, para dançar, para tocar, para pensar um enredo. Isso é educação. É comunicação. É economia criativa.
Quando a Favela do Samba anuncia para 2027 o enredo “GAMAR: O MÁGICO SEMEAR DE ARTES, SONHOS E TRANSFORMAÇÕES”, inspirado no Grupo de Arte da Escola Estadual Maria José Aragão, ela está fazendo duas coisas: prestando homenagem e semeando o futuro.
O trabalho do professor Wilson Chagas, com o GAMAR, foi e é fundamental. Wilson usou o teatro, a dança e a poesia como ferramenta pedagógica para tirar crianças e adolescentes da vulnerabilidade. Resultados concretos: jovens na universidade, diminuição da violência, livros publicados, espetáculos que marcaram a cidade. Do “Poema Sujo” a “A Carne Mais Barata do Mercado é a Carne Negra”, o GAMAR provou que arte transforma.
Ao levar esse enredo para a avenida, a escola está ensinando a cidade inteira que a cultura não é supérflua. É estruturante.
PRÁTICAS COMUNITÁRIAS: A ÉTICA DO CUIDADO EM AÇÃO
Se a cultura popular é a alma, as práticas comunitárias são o corpo. São a materialização do cuidado. E é aqui que a sociedade como um todo tem muito a aprender.
Durante a pandemia, quem segurou a barra? Foram as cozinhas solidárias, os coletivos de bairro, as igrejas, os grupos de mães. Abaixo veja 5 exemplos que a sociedade precisa copiar:
1. Cozinhas e Geladeiras Solidárias
Grupos que cozinham coletivamente para distribuir marmitas. Mais que matar a fome, é um ato que diz: “você não está sozinho”. É a economia do cuidado em prática.
2. Projetos de Arte-Educação nas Periferias
Como o próprio GAMAR. Em vez de investir em repressão, investiu-se em expressão. Deu-se palco e microfone. O resultado foi acesso à universidade e cidadania. Qualquer política pública séria para a juventude precisa começar por aqui.
3. Bibliotecas Comunitárias e Saraus de Periferia
Moradores transformam garagens em pontos de leitura. Fazem batalha de rima e contação de história. Estão criando um território de imaginação. Isso combate a desigualdade de repertório.
4. Mutirões de Reaproveitamento para Festas Populares
É a luta das escolas de samba. Construir um carro alegórico sem verba é um exercício de engenharia social. É pedir doação de cano, de ferro. É transformar lixo em luxo. Quando a Favela do Samba solicita materiais para suas alegorias, ela está oferecendo à sociedade um espetáculo gratuito, educativo e democrático. Está gerando emprego e identidade.
5. Redes de Apoio entre Vizinhos
Rodas de conversa de mulheres, grupos de idosos. São espaços onde a dor é dividida e a solução é construída coletivamente. O Estado muitas vezes não tem capilaridade para isso. A comunidade tem.
O “INVISÍVEL” E A QUESTÃO DA JUSTIÇA SOCIAL
Chamar uma parcela da sociedade de “invisível” é um ato de violência. Invisível para quem? Para o poder público que não coleta lixo? Para a mídia que só vai na comunidade quando tem tragédia?
O que vemos nas comunidades é o oposto da invisibilidade. Vemos gente que cria, que trabalha, que cuida, que reza, que canta. O que falta não é visibilidade. O que falta é reconhecimento.
Reconhecer é pagar o mestre de cultura. Reconhecer é dar estrutura para a escola de samba. Reconhecer é comprar do pequeno produtor da feira comunitária. Defender ações para os mais carentes não é assistencialismo. É reparação histórica.
COMUNICAÇÃO, LINGUAGEM E O FUTURO QUE QUEREMOS
Como pesquisador da área, encerro com uma reflexão: o futuro será disputado no campo dos sentidos. Que narrativas vamos contar sobre nós mesmos?
A linguagem que usamos para falar das periferias importa. Chamar de “favela” com orgulho, como faz a Favela do Samba, é um ato político. Mostrar o brilho da fantasia feita com material reaproveitado é um ato político.
O jornalismo tem um papel fundamental nisso. Nosso papel não é apenas noticiar o fato. É contextualizar. É mostrar que atrás de cada carro alegórico tem 6 meses de trabalho. Que atrás de cada marmita tem uma rede de mulheres que não dorme.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: SEMEAR PARA COLHER
As referências passadas são as sementes. A cultura popular é a terra fértil. As práticas comunitárias são a água e o cuidado diário.
Não vamos colher um futuro de paz e justiça se hoje negarmos adubo para quem planta. O Maranhão e o Brasil precisam de políticas públicas que entendam a cultura não como custo, mas como investimento. Que entendam a comunidade não como problema, mas como solução.
Enquanto isso não acontece de forma plena, a responsabilidade segue sendo nossa. De apoiar. De divulgar. De doar. De participar. De reconhecer.
Porque o presente que vivemos foi construído por mãos anônimas. E o futuro que sonhamos só será digno se for construído pelas mesmas mãos.
Que não sejam mais invisíveis.
(*)PhD em Comunicação, Linguagem e Cultura – UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo – UFMA

