27/02/2024
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Do sabiá à beija-flor

Hoje é dia de…José Ewerton Neto
Caderno Alterantivo

29/10/2011

Tirando a batida do próprio coração, tudo o que é repetitivo, enjoa, certo? Em termos musicais até mesmo o Bolero de Ravel ou o Tico-tico no fubá. Por isso é que é tão difícil se achar, hoje em dia, um samba enredo bonito de verdade com os do passado, entre estes pelo menos uns dois, que Clara Nunes cantava e consagrou. Quanto à letra, estamos falando de letra casada com a música, e vice-versa, já que ninguém tem ouvido de penico para ficar mais meia hora só na base do Bum-Bum-Prá-ti-cumbum- burungundu.

Será que isso explica porque o próximo samba-enredo da escola que vai homenagear o Maranhão, a Beija-Flor, tenha tido 14 compositores? 14? Será que estou ficando doido? ( E olha que no meio desse batalhão não colocaram nem meio compositor daqui, se não estou enganado.)

Vá lá, minha vista sofre os efeitos deletérios da idade, mas pelo menos, foi isso o que conferi depois de cinco leituras sucessivas para confirmar. O que significa que, provavelmente, cada um escreveu três palavras, ou, sendo otimista, um verso. Pela quantidade de autores, a obra não se trata mais de uma composição conjunta, mas de uma espécie de ONG de doação de palavras – deve ter tido gente que contribuiu com um grito, talvez, como esse tal de Rômulo Presidente. Quanto ao resultado, tentemos entender:

Tem magia em cada palmeira que brota em seu chão

(Que palmeiras? Será que estão se referindo às buraqueiras? Estas, de fato, parecem mágicas, pois nunca acabam).

O homem nativo da terra resiste em bravura a dor da invasão

(Nada de resistência. Invasão é com a gente mesmo, do Coroadinho à Vila Palmeira)

Do mar vem três coroas

(Só três? No dia em que só vierem três coroas entre os marinheiros que chegam no Itaqui as periguetes se suicidam nas águas do porto)

Irmão seu olhar mareja no balanço da maré

(Hoje em dia, nem espigão quer saber mais de balanço de maré. O único balanço que o povo quer saber é o do forró, já que nesta ilha não se ouve outra coisa)

A maldade não tem fé sangrando os mares

(E desde quando maldade precisa de fé? Os dirigentes das mais importantes instituições desta cidade não precisaram de fé para anunciarem o abandono do Centro da cidade, como se este fosse uma velha caquética e condenada. )

Mensageiro da dor, liberdade roubou dos meus lugares

(Liberdade por aqui, ao que se saiba, só o bairro. Ainda assim só restou o nome)

Rompendo grilhões em busca da paz

(Romper grilhões nada mais garante. Quem estiver em busca de paz que não saia para o trânsito, senão ou volta morto por um motoqueiro ou matará um)

…Chegou de Daomé, chegou de Abeokutá toda magia do vodun e do orixá

(Sem dúvida, é mais fácil mesmo vir de Daomé e de Abeokutá do que de avião, com um aeroporto…desses )

É rainha o bumba-meu boi vem de lá

(O grande problema dos homens de São Luis é que o bumba-boi vem de lá, mas os chifres nunca se sabe de onde vêm)

No radio o reggae é do bom marrom é o tom da canção na terra da encantaria e da arte do gênio João

(Esse João é o João do Vale ou o do Trinta?)

Meu São Luis do Maranhão Poema encantado do amor Onde canta o sabiá

Hoje canta o beija-flor

(A Teoria da Evolução explica muito bem isso, Gonçalves Dias! Melhor um beija-flor na mão que dois sabiás voando)

P.S. Se a explicação não tiver sido convincente, o leitor não deve esquentar com isso. Confira a melodia do samba-enredo, que, segundo soube, terá uma introdução triunfal com Ilha Magnética, do César Nascimento. O que não é pouca coisa!

ewerton.neto@hotmail.com

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