28/05/2024

DOCUMENTÁRIO ALDO BALDIN – UMA VIDA PELA MÚSICA SERÁ LANÇADO NO HAVANA FESTIVAL FILM NEW YORK

Aldo Baldin – Uma Vida pela Música, dirigido por Yves Goulart, é uma obra audiovisual que transcende a mera documentação biográfica para se tornar uma ode emocionante à vida e obra de um dos maiores tenores brasileiros. Desde os primeiros minutos, somos  envolvidos pela fluidez narrativa do roteiro, que habilmente entrelaça entrevistas, depoimentos e imagens de arquivo para revelar a história de Baldin de forma cativante. Goulart consegue capturar a sua essenência não apenas através da memória afetiva dos alunos, amigos e familiares, mas também das próprias reflexões do tenor, que enriquecem e humanizam ainda mais o retrato apresentado. Além disso, o documentário destaca-se pela participação do diretor, que se coloca como conterrâneo de Baldin, trazendo uma proximidade e uma conexão emocional com o público. Essa abordagem pessoal adiciona uma camada extra de profundidade à narrativa, tornando-a ainda mais envolvente.

 

O desenho de som e a escolha exemplar da trilha sonora são aspectos que elevam ainda mais a experiência cinematográfica. Cada nota musical, cada suspiro, é cuidadosamente integrado à linguagem visual, criando uma atmosfera imersiva que transporta o espectador para o mundo de Aldo Baldin. Embora a primeira vista pensemos como público-alvo os amantes da música erudita, a audiência não se completa unicamente nesse grupo. Aldo Baldin – Uma Vida pela Música é uma obra que pode e deve ser apreciada por todos, pois além de legitimar a importância do artista para a música brasileira e internacional, também nos presenteia com uma delicada estrutura de montagem, apoiada em uma pesquisa biográfica e iconográfica meticulosa. Em suas quase duas horas de duração, o documentário nos entrega um verdadeiro ensaio visual operístico, uma celebração da vida e da paixão de um homem que deixou um impacto indelével no cenário musical. É uma experiência emocional e inspiradora que ressoa muito além das páginas de uma partitura.

Vale ressaltar que a produção só saiu do papel graças à persistência incansável de Yves Goulart. Sua determinação em contar a história de Aldo Baldin, mesmo diante de desafios e obstáculos, é o que torna este filme ainda mais especial. Antes da realização desse projeto, o nome do artista não tinha o devido reconhecimento em terras brasileiras, e é graças ao trabalho rigoroso do diretor, produtor executivo e roteirista que agora podemos celebrar e reverenciar a sua trajetória.

Baldin não era apenas um tenor excepcional, mas um personagem que soube ressignificar a sua construção social e conceber a sua existência artística. O arco narrativo do documentário não apenas expõe sua genialidade musical, mas permite uma imersão em suas lutas e triunfos, em suas alegrias e tristezas. É uma homenagem sincera a um artista que deixou um legado na música erudita brasileira e internacional. Desde já,  a concepção de “Aldo Baldin – Uma Vida pela Música” nasce referência histórica para a obra musical e audiovisual do país. Este documentário não apenas ilumina a vida e a carreira de um tenor, mas nos inspira a reconhecer e celebrar o talento e a dedicação de tantos outros que moldaram nossa cultura. Ele nos convida a refletir sobre o poder transformador da música e o impacto que um artista proporciona  na formação de um ser humano.

SERVIÇO

Aldo Baldin – Uma Vida pela Música Produção: GOULART FILMES Categoria: documentário (Colorido – HD/2024 – 114 min. – Brasil)

LANÇAMENTO

Domingo, dia 14 de abril, no Havana Festival Film New York

SITE DO FILME: clique aqui

         

Minha pergunta chave era: “Quem foi Aldo Baldin para você?”

Conversamos com *Yves Goulart, diretor do documentário “Aldo Baldin – Uma Vida pela Música”. Nesta entrevista, ele nos conduz pelos bastidores da produção do filme, que mergulha na vida e na carreira do célebre tenor brasileiro. Yves compartilha os desafios enfrentados durante o processo de criação, assim como as descobertas ao explorar a trajetória de Baldin. Além disso, reflete sobre o legado deixado pelo artista na cena musical brasileira e internacional.

1 – O que te inspirou a contar a história de Aldo Baldin?

A inspiração foi a própria carreira brilhante dele, que infelizmente não era conhecida do grande público. Como documentarista achei que seria oportuno resgatar essa história que estava guardada na Alemanha na casa da família. 

2 – Aldo Baldin foi um dos tenores mais proeminentes da década de 1980, especialmente na interpretação das obras de Bach. Como foi para você mergulhar na vida e na carreira desse artista tão influente?

Foi desafiador, porque como a música clássica não faz parte da minha formação tive que aprender a lidar como essa linguagem. A cada entrevista, a cada gravação dos arquivos da TV alemã ou até mesmo as fitas VHS da família, ia descobrindo um personagem inspirador apaixonado pela sua arte. 

3 – O documentário apresenta uma variedade de depoimentos de músicos, amigos e familiares que compartilham suas memórias sobre Aldo Baldin. Como foi trabalhar com essas pessoas e reunir suas histórias para criar um retrato abrangente do artista?

Fui entrevistando cada um deles com a curiosidade de alguém que vai em busca do desconhecido deixando as pessoas serem orgânicas dentro de suas verdades e memorias. Não me fixei em formatos e estilos. Minha pergunta chave era: “Quem foi Aldo Baldin para você?” Depois de longas respostas, um lugar para o silêncio. Sim, um minuto de silêncio para pensar no Aldo. No final dos 60 segundos, a pergunta: “Qual a imagem que vêm?” Para cada um entrevistado uma surpresa, uma emoção. Não é fácil trazer um passado ao presente e transformá-lo em palavras, elas escapam, elas não são justas com o que sentimos.

4 – Aldo Baldin também foi um professor catedrático renomado. Como o documentário aborda esse aspecto de sua carreira e qual você acha que é o seu legado mais duradouro como educador musical?

Descobri no decorrer das entrevistas que ele era uma fonte de estilos musicais, dominava desde a música antiga até a contemporânea. Baldin deixou sua marca, sua força e um fogo em cada aluno. Eles trouxeram isso ao filme através de depoimentos sinceros e até mesmo nostálgicos. Como falou o regente inglês Sir Neville Marriner: “Ele foi o artista que todos queriam ter por perto quando a obra tinha problemas, sejam técnicos, musicais ou psicológicos.” Como educador ele cumpriu sua missão com maestria e sempre foi honesto com suas convicções, não admitia uma carreira fácil e vaidosa. Baldin cobrava de cada aluno ética e comprometimento como a música.

5 – Durante sua pesquisa e produção do documentário, você encontrou algum desafio particular em capturar a essência e a magnitude da carreira de Aldo Baldin? Se sim, como você lidou com esses desafios?

Sim, encontrei. Tive um pânico e uma angústia de lidar com algo tão grande. Não domino a técnica musical, essa arte me toca profundamente, mas não sei quais as notas estão ressoando, como saber se tal gravação era impotente ou não? Como saber que a música escolhida naquele momento da edição poderia ser usada? Será que está perfeita tecnicamente? A letra cantada em alemão corresponde com a narrativa do filme? Como fazer as letras e as cenas do documentário dialogarem com a narrativa? Minha solução foi a intuição de pedir ajuda à Irene Flesch Baldin, musicista e viúva do Aldo, para me ajudar a atravessar esses desafios. O nosso ‘casamento’ foi tão perfeito que ela assina a direção musical do filme.   

6 – Como você vê o papel de Aldo Baldin no contexto da cena musical brasileira e sua contribuição para promover a música clássica no Brasil e no mundo?

Uma pergunta difícil, sinceramente eu não sei. Sozinho não somos ninguém, dependemos um do outro para ter notícias de nós mesmos. Aldo me ensinou nessa jornada que além do talento, devemos ter disciplina e acreditar em nossa potência criativa. Renunciar ao nosso ego e estar a serviço da arte não é uma tarefa fácil. O papel do Aldo foi cumprido com as inúmeras gravações em diferentes estilos que servem de pesquisa e inspiração. Ele deixou como ‘carta ao futuro’ aos apreciadores da música clássica, mas somente o público poderá ler e entender o seu legado.     

7 – Além de “Aldo Baldin – Uma Vida pela Música”, você tem outros projetos cinematográficos em mente ou em andamento? Se sim, poderia compartilhar um pouco sobre eles?

Sim, tenho, um material gravado na cidade de Nova Iorque, no Maranhão, que fica a 6 horas da capital São Luiz.  Já editei, mas não finalizei. Passei duas semanas por lá, colhendo depoimentos das pessoas de como é se sentir novaiorquino, e sempre ser comparados pela mídia nacional com New York. Essa aberração sempre num tom de deboche é a denúncia publica do documentário. Dar voz a essas pessoas será o dispositivo do filme.

8 – Qual é a sua conexão pessoal com a música clássica e a ópera, e como essa paixão influenciou sua abordagem como diretor neste documentário?

Os 18 anos de idade trabalhei como ator na adaptação da ópera “A Flauta Mágica” de Mozart para o tetro infantil fazendo o personagem ‘Papagueno’ que é muito popular durante a obra e tem uma ligação direta como as crianças. Foi no projeto chamado “O Teatro Vai à Escola” do Teatro Guaíra de Curitiba. Fiquei nessa peça por dois anos. Aos 23 anos, fiz na ópera ‘La serva Padrona’, de Pergolesi, o personagem ‘Vespone’ que é sempre interpretado por atores. Foi uma experiência fantástica porque ele costura toda a narrativa e da a oportunidade de trabalhar o lado palhaço que está em nós.  Então a ‘ópera’ ou a ‘música clássica’ entrou na minha sensibilidade como instrumento da ‘formação de plateia’. Acredito profundamente que o público gosta de ouvir e sentir esse gênero musical, o que falta são oportunidades de onde e quando ouvir. Aparentemente no Brasil as salas de concertos estão longe e distantes do grande público. É dever da política pública de cultura realizar um trabalho íntimo e sério para desmistificar o ato de ouvir clássicos.    

9 – Quais foram as influências e experiências que o levaram a se interessar pelo cinema e, mais especificamente, pelo gênero documentário?

O gênero documentário sempre foi fácil para mim, talvez, por trabalhar com jornalismo e dominar a técnica de gravação de imagem e som, nunca tive problemas de enfrentar os desafios e de usar o improviso e as dificuldades a favor da obra.   Na minha formação em cinema em 2005 como Ruy Guerra e Sergio Sanz, aprendi que o ‘fazer cinema’ só tem sentido em equipe. Cada um profissional adiciona seu DNA na obra, essa identidade da direção será marca como uma linguagem em conjunto. Estudando as obras de Eduardo Coutinho percebi que os personagens sobressaem a própria produção, eles estão à disposição da ‘fazer fílmico’ é uma magia que acontece e sobressai até mesmo na montagem. Hoje, com a experiência de estudar imagens, sejam fotos ou movimentos, busco um aprimoramento e uma sofisticação. Escolher o enquadramento e o domínio da luz vem da observação do trabalho de Walter Carvalho que me traz um olhar atento e crítico.  É quase uma respirada profunda ao que está sendo enquadrado e questionando o fora do quadro. O que toca, o que se ouve e sente? Qual é a subjetividade além do óbvio?

10 – Seu documentário será lançado no Havana Festival Film New York. Qual a sua expectativa em relação à recepção do público e da crítica durante o evento e qual é a importância desse festival para o cinema latino-americano e para a promoção de filmes como o seu?

Sinceramente não tenho expectativas, a gente coloca uma régua muito baixa ou muito alta nas coisas, e isso causa no fundo, decepções. Tenho é desejos e me responsabilizo por eles. Meu sincero desejo é que esse filho, assim gosto de chamar os meus filmes, tenham vida própria, toquem os corações, cumpram seu papel e tenham uma vida longa.  Esse festival está na sua 24ª edição, é muito respeitado em Nova York, porque é um local que vai além do ‘fazer contato’, ‘vender o filme’ é um lugar de comemorar o ato criativo, de mostrar nossas identidades, nossas belezas e feiuras, nossa maneira tão única de miscigenação cultural, temos muito a aprender, mas, muito mais a ensinar com nossa forma de sentira os corações pulsantes de ser latino.