22/02/2024
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Edemar Cid Ferreira:- Sinto falta do cheiro da minha casa”

Despejado há um mês de sua mansão, o ex-dono do Banco Santos, que foi liquidado pelo Banco Central, conta como era sua rotina na prisão

Rodrigo Cardoso

NA RUA
Ele sobrevive com a ajuda de amigos.
“Vou lá no cara e digo: ‘Me empresta tanto e um dia eu lhe pago’”

Edemar Cid Ferreira está mo­rando de favor na casa de um amigo, ao lado da mansão de 4 mil m2, avaliada em R$ 50 milhões, onde viveu por 23 anos. Faz um mês que o ex-dono do Banco Santos foi despejado por falta de pagamento de aluguel – uma dívida de R$ 1,7 milhão. Ele sempre foi o dono do local, mas, durante seis meses, uma empresa em nome de sua esposa passou a receber o valor de R$ 20 mil mensais. Esse contrato foi desfeito em 2005. Um juiz, porém, entendeu que Ferreira deveria seguir honrando o compromisso e o ex-banqueiro teve de encarar mais esse revés. Ex-presidente da Bienal, ex-vice-presidente do Teatro Municipal de São Paulo e considerado o maior colecionador de obras de arte do Brasil, Ferreira foi condenado a 21 anos de cadeia, em 2006, por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta. Dois anos antes, o Banco Central descobriu um rombo no Banco Santos de R$ 2,2 bilhões. “O banco tinha caixa. Intervieram dizendo que o dinheiro advinha de operações fraudulentas. De lá para cá, a massa falida já recebeu R$ 1,9 bilhão. E está em discussão judicial um valor de R$ 3 bilhões para receber. Isso desmonta a teoria do rombo”, alega Ferreira, que chegou a ser preso e teve sua coleção de 12 mil obras, dinheiro e bens no Brasil e Exterior arrestados pela Justiça. Aos 66 anos, o ex-banqueiro, por meio de seu advogado, Arnaldo Malheiros Filho, recorre da sentença em liberdade.

“O presídio de Tremembé é um hotel seis-estrelas, um spa.
Trabalhei na lavanderia, passava roupas”

“Silvio Santos é meu cossogro.
Gosto muito dele, a filha dele se casou com o meu filho.
Nunca falamos sobre a situação dos bancos”

Istoé –

Na sua família, quem mais sentiu o despejo da mansão?

Edemar Cid Ferreira – Minha mulher. Ela era dona da casa. Eu estou há um mês aqui do lado, na casa de um amigo. A minha esposa nunca ficou aqui. Ficou na casa de praia de uma amiga e, agora, está em uma fazenda. Nos falamos duas vezes por dia. Ela sente muito.

Istoé – Do que tem saudade da sua casa?

Edemar Cid Ferreira – Sinto falta do local onde sempre vivi, dos livros, dos quadros. Sinto falta do ambiente, do cheiro da minha casa.
Istoé –

Pôde retirar algo de lá?

Edemar Cid Ferreira – Peguei algumas roupas. O interventor (Vânio Aguiar) do Banco Santos, que, hoje, administra a massa falida, só iria me deixar entrar lá para pegar roupas às segundas-feiras às 15h. Aí, um juiz liberou para, em dez dias, eu entrar na hora que quiser para relacionar o que é meu. Mas não estou na casa do meu amigo descoberto. Estou aqui, bem elegante… O interventor tem feito barbaridades na minha casa. Levou dez computadores, meus, da minha mulher, dos meus filhos, da secretária. Quebrou a senha, viu o conteúdo, copiou. Isso é vandalismo, é contra a lei. Ele levou todos os processos – tenho lá um cartório com processos arquivados, cópias, para poder me defender. Ele levou tudo. Agora está sendo obrigado a devolver.
Istoé –

O sr. foi acusado de sumir com quadros da sua coleção. Alguns, como uma tela de Basquiat avaliada em ­US$ 8 milhões, apareceram em Nova York. Como explica?

Edemar Cid Ferreira – Alguns quadros foram vendidos, em junho de 2004, e enviados para o Exterior. Então (a polícia) achou dois quadros que estavam vendidos. O Basquiat é de um comprador. Não sumi com quadros. O juiz Fausto De Sanctis queria saber para quem eu os havia vendido. Não disse, não tenho obrigação. Há uma confidencialidade nesse negócio. Aí, ele pediu a minha prisão – a primeira de duas. E eu respeito a Justiça, ela sempre tem razão.
Istoé –

Como foi a rotina na prisão?

Edemar Cid Ferreira – Fiquei 15 dias preso, em Guarulhos. Quando você vai preso, fica interno em uma cela durante uma semana, para saberem como é o seu comportamento. Não deu nem para ver isso, éramos eu e mais 20 dentro de uma cela. A gente tinha de se organizar para dormir, quem limpa e quem não limpa… Depois, fui transferido para outra cela com oito presos.
Istoé –

E a convivência?

Edemar Cid Ferreira – O problema da cela coletiva é que a conversa tem de ser em um nível igual entre todos que estão ali. Na minha cela havia morador de rua, assassino, ladrões e até o prefeito de uma cidade (não revela quem). Você acaba ganhando a confiança deles; passam a gostar de você. Aí, me mandaram para uma cela especial em Tremembé. O presídio de Tremembé, em relação a Guarulhos, é um hotel seis estrelas, um spa. O nível é outro. Aquela prisão é feita para policiais que cometem crime e também para pessoas extremamente perigosas. Ali, estavam os irmãos Cravinhos, o Cabo Bruno, o rapaz que atirou no cinema (Mateus da Costa Meira) e eu estava também lá. Eu tinha uma cela só para mim. Ali, passei quase três meses, em 2006.
Istoé –

E voltou a ser preso quando foi condenado a 21 anos.

Edemar Cid Ferreira – Em dezembro de 2006, por mais 15 dias. Quando o juiz Fausto deu a sentença, fui para casa e pensei: “Amanhã, estou preso.” Acordei às 6h e vieram me buscar. Na cadeia em Tremembé existem uma indústria de plástico e uma metalúrgica onde todos trabalham. É a ressocialização. Além disso, tem uma cozinha, onde os próprios presos cozinham, a lavanderia onde nós trabalhamos. Se não é uma cadeia-modelo, está próximo. Em três meses lá, eu nunca vi uma briga! Há um respeito muito grande.
Istoé –

Que atividade desempenhou lá dentro?

Edemar Cid Ferreira – Trabalhei na lavanderia, passava roupas, lia para eles. Havia cursos de computador, de religiões. Fiz vários, dei algumas palestrinhas. Mas esse cerceamento de liberdade, principalmente quando você sabe que não é culpado, pode angustiar a pessoa. Não senti angústia, meus familiares me visitaram nos finais de semana. Você passa a entender como a alma humana funciona. Quando saí de lá, falei com o chefe da secretaria de penitenciárias… eu até queria fazer uma cadeia-modelo em uma cidade (prefere não dizer qual), mas achei que não era a hora. Tinha até lugar para eu instalar uma indústria, para eles (presos) trabalharem.
Istoé –

É uma pessoa melhor hoje?

Edemar Cid Ferreira – É que eu nunca fui pior, né? Então, não é que eu melhorei. Lá, havia gente de todas as religiões… católicos, protestantes, espíritas. Eles se reuniam e eu estava em todas, ouvindo para aprender.

Istoé –
Os amigos se afastaram?

Edemar Cid Ferreira – Nunca recebi sequer uma ligação de um credor reclamando. Nunca vi ninguém se afastar de mim. Todos foram solidários, amigos. As pessoas sabem que eu não fiz nada. Os meus amigos nunca acreditaram nisso (falência do Banco Santos). Os diretores que trabalhavam no banco eram os melhores do mercado, estão superbem, todos empregados. Nunca houve má-fé.

Istoé – O que houve, então?
Edemar Cid Ferreira – Para mim, a intervenção foi algo pessoal. Eu estava incomodando. Foi uma bobagem o que fizeram, vai ser provado o contrário. Nunca saiu dinheiro nenhum do banco (fala pausadamente) que tenha ido para o Exterior e voltado como acusaram.
Istoé –
Que erro o sr. cometeu
?

Edemar Cid Ferreira – Quando se está dentro de um processo de realizações, você não mede muito o que vai deixando pelo caminho, vai atropelando pessoas. À medida que vai crescendo, em uma necessidade de alcançar objetivos muito rapidamente… isso pode levar as pessoas a pensar: “O que esse cara quer da vida?” Não que eu me vangloriasse da minha posição. Mas houve excesso de ações. Fiz exposições em vários países ao mesmo tempo, o banco foi o que mais cresceu em 2002 e 2003. Se eu fosse mais comedido… Não sou ganancioso. Tive, sim, compulsão em realizar.

Istoé – Quem lhe estendeu a mão?

Edemar Cid Ferreira – Várias pessoas. Inclusive me emprestaram muito dinheiro.

Istoé – É assim que o sr. se mantém?

Edemar Cid Ferreira – Me mantenho com o dinheiro que tomo emprestado. Vou lá no cara e digo: “Me empresta tanto e um dia eu lhe pago.” Assim, pago meus advogados, vivo, etc. É uma situação muito desconfortável, mas as pessoas sabem o que está acontecendo. Tenho muito dinheiro a receber e acho que recebo rapidamente. A velocidade dos processos, hoje, anda a meu favor.

Istoé – O sr. ficou pobre?

Edemar Cid Ferreira – O que quer dizer pobre e rico? Eu tenho um dinheiro muito grande no banco, fiz o banco, tenho um patrimônio grande dentro dele que me tomaram e que tem de ser devolvido. Esse dinheiro é meu, uma hora ele virá.

Istoé – Tem mágoa de alguém?

Edemar Cid Ferreira – Não tenho ódio, raiva, medo, pessimismo. As pessoas têm o hábito da inveja, do ciúme. Eu não. Mas sei que quando estive em posições excepcionais… eu sei que estive desse jeito (aponta para cima) e hoje estou desse (faz o mesmo para baixo). E sei que isso também muda. Vai mudar, evidente que vai! Por isso me exercito bastante para viver até os 94 anos lúcido.

Istoé – Privou-se de alguns luxos?

Edemar Cid Ferreira – Não. Faço tudo igual. Tudo o que quero eu faço.
Istoé –

Fuma charuto ainda?

Edemar Cid Ferreira – Não. Parei na prisão, em Tremembé. Eles me deixavam fumar lá. Eu fumava dentro da cela, sozinho, não incomodava ninguém. Mas, um dia, achei que isso fazia mal para a saúde. Charuto é uma boa companhia, mas deixei de ser um fumante habi­tual. Fumo ocasionalmente.

Istoé – Sai para jantar fora?

Edemar Cid Ferreira – Evito exposições públicas. Estaria esnobando. Muita gente não entendeu o processo do banco. O Banco Central foi quem me quebrou, eu não quebrei ninguém! Primeiro, não posso gastar dinheiro, não tenho dinheiro, tenho, mas é emprestado. Não tem sentido eu gastá-lo em restaurante. Não estou levando uma vida franciscana, mas levo uma vida mais comedida. Nos finais de semana, sou convidado a ir à casa das pessoas e não tenho despesa. Não ficaria bem ficar me expondo.

Istoé – Como o sr. vê a quebra do banco PanAmericano?

Edemar Cid Ferreira – Não posso falar. Ele (Silvio Santos) é meu cossogro. Gosto muito dele, a filha dele casou com o meu filho, preferia não comentar.

Istoé – Quando o seu banco teve problemas, foi liquidado pelo BC. Quando o PanAmericano teve problemas, foi socorrido pelos banqueiros. O que o sr. pensa disso?

Edemar Cid Ferreira – São situações antagônicas. Não devo nada a ninguém, pô. Eu não queria falar sobre isso, fica deselegante. Não converso com fre­quência com o Silvio, nunca falamos sobre a situação dos bancos.

Istoé – Como o sr. se vê no futuro?

Edemar Cid Ferreira – Não penso em futuro. Me reeduquei para conviver com o dia de hoje. Tenho ensinamentos que leio diariamente, de manhã. Eu devo voltar a trabalhar, ligado à arte e tecnologia. Banco não quero mais.

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