20/01/2026

FAZER CARREATA E ROMARIA NA PANDEMIA É TAMBÉM CONVITE AO SUICÍDIO

Por Euclides Moreira Neto (*)

Tenho visto com muita preocupação a avalanche de “lives” e algumas carreatas (também apelidadas de romarias) neste final de temporada dos festejos juninos, que este ano, foi atípico, longe da normalidade de outrora. Como todos sabem o mundo parou, mudou e está se readequando ao terror da pandemia Coronavírus 19. Assim,  praticamente todas as atividades que envolvem a prática coletiva do nosso povo foram afetadas de maneira impiedosa, sendo proibida, conforme decisões de cada gestor público.

Pois bem, neste final de temporada dos chamados Santos festeiro, parte dos gestores públicos começou a liberar algumas medidas restritivas que estavam em vigor no meio comunitário, liberando, por exemplo, o funcionamento de bares e restaurantes, realização de atos religiosos em igrejas, aberturas de shoppings, o funcionamento de parte do comércio considerado familiar ou a permissão para frequentar as nossas praias, como ocorreu neste último final de semana.

Nestes contextos, os nossos produtores culturais que estão no comando das nossas manifestações populares tiveram como saída à realização das chamadas “lives” via redes sociais, tendo havido uma alastramento significativo dessa prática, que rapidamente foi absorvida pela maioria dos nossos grupos e artistas independentes, pois essa era uma forma de dizer aos seus apreciadores e praticantes de que ainda estamos vivos, portanto, esse ou aquele grupo, marcava espaço no meio sociocomunitário e se fazia presente junto à sua legião de adeptos.

Já nesta reta finalíssima da temporada das festas juninas, uma nova manifestação foi bastante difundida por alguns grupos culturais: a “carreata”. Isso mesmo, os gestores com a colaboração de apoiadores estão pondo em prática essa modalidade muito usada nas campanhas eleitorais. Desse modo, a carreata política deu o modelo para que grupos muito populares na comunidade, como o Bumba Meu Boi da Maioba, fizesse uso desse expediente para marcar presença e dizer que está vivo, atuante e ainda muito presente junto ao seu público.

Sinceramente, percebo também nessa prática uma interferência de eventuais candidatos ao pleito eleitoral que se aproxima, quando nossa população vai ter que escolher seus novos dirigentes e representantes do poder municipal, ou seja, eleger seu próximo Prefeito e escolher seus futuros vereadores, que deverá ocorrer até o final do ano. Há, por conseguinte, uma segunda intenção na execução dessas “carreatas”, que chega a impressionar aqueles mais apaixonados pela nossa cultura popular, basta verificar que estão ou estão apoiando financeiramente essas práticas.

Independente de ser confirmada ou não essa minha hipóteses, ocorre, que neste momento, todos os indicadores que registram os casos de contaminação e mortes da chamada pandemia Covid 19 estão em plena ascensão. Os números só aumentam e o colapso está sendo anunciado a todo o momento. Portanto, diante desse quadro catastrófico, fico atônito ao ver que a nossa população, que já está vivendo em restrições há mais de três meses, com o abrandamento de parte da funcionalidade da cidade e do Estado, está voltando com gosto de gás às atividades sociais, coletivas e de entretenimento, sem obedecer ao desenvolvimento de segurança que essas mesmas autoridades pedem que sejam exercitadas, ou seja, nem todos estão a usar máscaras faciais, mantendo o distanciamento social e a higiene corporal.

Sendo assim prevejo uma nova onda de contaminação em um tempo breve. O que será muito doloroso para nossa gente. Já perdemos muitas pessoas amigas, conhecidas, admiradas e/ou anônimas, mas que de alguma forma era cidadãos que tinham uma história junto a núcleos familiares e populacionais em que se inseriram. De repente é anunciada mais uma morte, mais uma partida e a dor fica naqueles que sobreviveram para vivenciar o momento triste da pós-partida. Não queiramos que essa dor se perpetue e continua a afetar nossa gente de forma infame como está fazendo no presente.

Por tudo isso seria muito oportuno que nossos gestores, praticantes, apreciadores de grupos culturais se contivessem e não arriscam a vida de seus adeptos por meios de romarias, “carreatas” e lives com muita gente sem critérios de segurança. Nossas festas tiveram um momento de pausa e elas voltarão quando a segurança de nossas vidas estiver garantida com vacinas e remédios cientificamente comprovados na sua eficácia. A exposição de cidadãos em atos que, em um primeiro momento, pareçam heroico, poderá ser a senha triste de mais sofrimento e dores para aqueles menos desavisados. Pense nisso. Continuamos a atravessar esse momento provocado pela pandemia Covid 19.

São Luís, 29 de junho de 2020.

(*)Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Cultural.

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