01/06/2026

Galeria Trapiche: onde a inovação e o empreendedorismo se aliam para revelar novos talentos nas artes plásticas. Por Euclides Moreira Neto

Equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Luís se consolida como principal polo de exposições, formação e circulação artística da capital. Sob direção do performer Uimar Jr., espaço reconstrói ponte entre poder público e fazedores de cultura após anos de descontinuidade

Em pleno Centro Histórico de São Luís, na Avenida Pedro II, a Galeria Trapiche Santo Ângelo pulsa. Onde antes havia silêncio, hoje há tinta fresca, vozes de oficina, palmas em lançamentos de livros e o vai e vem de estudantes, curadores, turistas e artistas que encontram ali não apenas paredes para expor, mas um território de pertencimento. Vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, SECULT, da Prefeitura de São Luís, a Galeria Trapiche se firmou nos últimos anos como o principal equipamento público de artes visuais da capital maranhense. E o motor dessa retomada tem nome: Uimar Jr.

Descrita por artistas e produtores como um “trator sem freio”, a gestão de Uimar Jr. à frente do Trapiche é marcada por uma entrega apaixonada, pela ousadia de experimentar e pela capacidade de articular. Em pouco tempo, o espaço deixou de ser apenas uma sala de exposição para se transformar em plataforma de inovação, empreendedorismo e formação. Cursos, palestras, oficinas, residências, feiras gráficas, lançamentos literários e projetos culturais ocupam a agenda mensal da galeria, atendendo a uma demanda reprimida de fazedores de cultura que, por anos, reclamaram da falta de visibilidade e de política continuada para as artes plásticas em São Luís.

“Hoje a Galeria Trapiche é o coração das artes visuais da cidade”, resume a artista visual e professora da UFMA, Maria das Dores Silva, que expôs no espaço em março deste ano. “Não é só sobre abrir a porta para mostrar trabalho. É sobre formar público, criar rede, profissionalizar o artista, pensar em economia criativa. O Uimar entendeu que galeria pública não pode ser depósito de quadros. Tem que ser viva”.

A TRAJETÓRIA DE UM EQUIPAMENTO QUE RESISTIU 

A história da Galeria Trapiche Santo Ângelo começa na gestão do ex-prefeito João Castelo, entre 2009 e 2012. Foi naquele período que o município implementou a galeria e criou o Salão de Artes Plásticas de São Luís, estabelecendo uma rotina mensal de exposições para artistas maranhenses. A iniciativa revelou dezenas de novos talentos e colocou São Luís no circuito regional de artes visuais. Artistas que hoje têm projeção nacional, como Marlene Barros, Airton Marinho e Romário, tiveram suas primeiras individuais no espaço.

Contudo, a prática foi interrompida na gestão seguinte, do prefeito Edvaldo Holanda Jr. Sem calendário fixo, sem salão e com programação esvaziada, a galeria perdeu protagonismo. Para muitos artistas, foi um período de “apagão institucional” nas artes plásticas. “A gente voltou a depender de favor, de espaço cedido, de edital que nunca saía. Foi um retrocesso”, lembra o pintor Raimundo Carvalho, de 62 anos.

A virada veio na gestão do ex-prefeito Eduardo Braide, que deixou o cargo recentemente para disputar o Governo do Estado do Maranhão. Além de retomar o investimento em cultura, Braide determinou a transferência da Galeria Trapiche da Praia Grande para um casarão na Avenida Pedro II, também no Centro Histórico. A mudança de endereço foi simbólica e estratégica: tirou o equipamento de um ponto de fluxo turístico sazonal e o colocou no eixo administrativo e cultural da cidade, próximo à Prefeitura, ao Palácio dos Leões e ao Teatro Arthur Azevedo. Com a nova sede, veio também um novo fôlego. E foi nesse contexto que o artista performer Uimar da Rocha Gama Jr. assumiu a direção.

UM “TRATOR SEM FREIO” NA GESTÃO PÚBLICA 

Uimar Jr. não chegou à direção do Trapiche como gestor tradicional. Chegou como artista. E isso, segundo ele, faz toda diferença. “Eu sei o que é esperar seis meses por uma resposta de edital. Sei o que é montar exposição do próprio bolso. Sei o que é não ter onde guardar uma obra. Então a minha gestão parte da escuta e da urgência do artista”, afirma. 

Nascido em Codó, Uimar começou na arte cênica aos 18 anos, ainda como aluno da então Escola Técnica Federal do Maranhão, sob orientação do professor Cosme. Desde então, acumulou um currículo que atravessa teatro, dança, performance, cinema e carnaval. Atuou em peças como Incursão a Flor do Lácio, Reisado, ABC da Cultura Maranhense, Aves de Arribação e Barrela. No Rio de Janeiro, em temporada com o monólogo Maré Memória, no Teatro da Praia, integrou os elencos de O Conquistador, Aprendiz de Feiticeiro e O Gato de Botas.

Discípulo do coreógrafo Reynaldo Faray, também deixou marca na dança com espetáculos como Nordestinados e Chapeuzinho Vermelho. Mas foi na performance que Uimar Jr. se tornou referência nacional. Pioneiro na Arte do Estatuísmo no Brasil, criou em 1991 a Escultura Viva, obra que virou cartão postal de São Luís e lhe rendeu Moção de Reconhecimento da Câmara Municipal ao ser destaque no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1993.

Daí em diante, sua trajetória é uma coleção de prêmios e invenções. Dirigiu e interpretou o monólogo Maré Memória, de José Chagas, conquistando prêmios de melhor iluminação e maquiagem no 7º Festival Nacional de Monólogos. Com Alma de Palhaço, levou o prêmio de melhor figurino no 8º Festival Nacional de Monólogos em São Paulo. Criou Busto Vivo ou Atenas Brasileira, que homenageia Gonçalves Dias e recebeu menção honrosa no Palm Springs International Short Film Festival, na Califórnia, com direito a convite para o Oscar de 1998.

No audiovisual, atuou em Terra Sem Chuva, de Jorge Macau, obra que integrou o bloco dos quatro melhores vídeos nacionais no 14º Guarnicê de Cine-Vídeo e recebeu Placa de Prata, Troféu Vídeo-Escola e Menção Honrosa da Fundação Roberto Marinho. Em 30º Guarnicê, foi homenageado com o documentário Alma Performática, também dirigido por Macau, com menção honrosa para o ator. 

No carnaval, Uimar é figura lendária. Foi destaque da Escola de Samba Unidos da Ponte em 1994 com a Escultura Viva em homenagem a Alcione. Conquistou três prêmios no Hotel Glória, no Rio, com as performances Estátua Cidade Maravilhosa em 1995, Busto Vivo Atenas Brasileira em 1996 e Chega de Meio Ambiente, lute por um Inteiro em 1997. Em São Luís, criou uma galeria de personagens que marcaram época na passarela: Bicha Terra, O Padre e a Prostituta, Caranguejo, Marafugida, Ana Jansen, Faraó, Netuno, Cazumbá, Minotauro, Cristo Vivo, ET Gay, Mulher Babaçu, entre dezenas de outros.

Nas artes visuais, foi um dos introdutores da arte contemporânea no Maranhão ao apresentar, em 1991, a Escultura Viva, completamente nu, em coletiva. “Existe a arte no Maranhão antes e depois do Uimar”, costuma dizer o curador José Fernandes. Participou de salões com obras-provocação como Desequilíbrio Social, O que é Arte… Para que serve???, Estômago de Lixo e Sustentabiliarte. Recentemente, integrou a exposição Guarda Volume, na própria Galeria Trapiche, com a instalação. Classificasse.

Essa bagagem múltipla, entre o palco, a rua, a tela e a gestão, explica o estilo “trator sem freio” que artistas atribuem a ele. “O Uimar não espera o processo. Ele faz o processo acontecer. Ele liga, articula, busca parceria, resolve. E ele faz isso com paixão, porque ele é um de nós”, diz a gravurista Ana Luiza Cantanhede.

INOVAÇÃO, EMPREENDEDORISMO E PARCERIA: O TRIPÉ DO NOVO TRAPICHE 

Sob a direção de Uimar Jr., a Galeria Trapiche Santo Ângelo adotou um modelo de gestão que se apoia em três pilares: inovação curatorial, empreendedorismo cultural e parceria com a sociedade civil.

Na inovação, a galeria rompeu com o formato de exposições engessadas. Além das mostras individuais e coletivas, o espaço passou a abrigar experimentações, instalações imersivas, vídeo-arte, performance e cruzamentos de linguagens. Em 2025, a exposição Territórios em Transe reuniu artistas visuais, grafiteiros, indígenas e mestres da cultura popular em uma mesma sala, propondo diálogos entre o contemporâneo e o tradicional. “A gente não pode ter medo do novo. A galeria pública tem que ser laboratório”, defende Uimar. Só para reforçar essa acerti9va, vale lembrar que na atual gestão o artista passou a ter espaço na Feirinha São Luís com o Projeto “A Trapiche vai à Feira”, que oportuniza espaço para exposições de artistas que precisam de apoio e promoção cultural, além de vender suas obras em espaço público.

No empreendedorismo, o Trapiche tem atuado para inserir o artista maranhense na cadeia produtiva da economia criativa. A galeria promove oficinas de precificação de obra, elaboração de portfólio, como vender para colecionadores, como acessar leis de incentivo e como usar redes sociais para circulação. Em parceria com o Sebrae-MA, realizou em abril o ciclo Arte que Sustenta, com quatro workshops gratuitos sobre microempreendedoríssimo individual para artistas. “Muita gente boa não vive de arte porque não sabe vender. A gente está mudando isso”, conta o diretor.

Já as parcerias se tornaram marca registrada. A Galeria Trapiche firmou acordos com a UFMA, UEMA, IFMA, Sesc, Aliança Francesa, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e com coletivos independentes como o Ocupe a Cidade e o Zumbi Ateliê. O resultado são exposições coproduzidas, residências artísticas e circulação de obras por outros municípios. Em junho, a mostra Filhos da Ilha, nascida no Trapiche, itinerou para Barreirinhas e Alcântara.

FORMAÇÃO E VISIBILIDADE PARA QUEM MAIS PRECISA 

Um dos pontos mais elogiados da atual gestão é o olhar para artistas em início de carreira e para fazedores de cultura de bairros periféricos. A galeria criou o projeto Trapiche Aberto, que destina uma pauta por mês para exposições de artistas que nunca tiveram individual. A seleção é feita por edital simplificado e com comissão de artistas convidados.

“Eu sou da Cidade Operária, nunca tinha entrado numa galeria antes, quanto mais expor. O Trapiche me deu essa primeira vez”, emociona-se o pintor de 24 anos, Weverton Sousa, que em maio apresentou a série Asfalto e Fé.

Além disso, a galeria mantém programação contínua de oficinas. Só em 2026, já foram realizados cursos de aquarela, xilogravura, fotografia com celular, curadoria para iniciantes e elaboração de projetos. Todas gratuitas e com certificado. As palestras trazem nomes de fora do estado para trocar com a cena local. Em março, a curadora do MAM Rio, Keyna Eleison, falou sobre Curadoria e Ancestralidade.

Os lançamentos de livros e projetos culturais também ganharam casa fixa. O espaço já recebeu, este ano, o lançamento da coletânea Poéticas do Centro, do Dossiê Catirina e do fotolivro Ladeiras de São Luís. “Antes a gente ficava implorando auditório. Hoje a gente tem um lugar que entende que livro e exposição conversam”, diz a escritora e produtora Cíntia Rodrigues.

O TRAPICHE COMO INSTRUMENTO DE POLÍTICA PÚBLICA 

Para fazedores de cultura, especialmente os que atuam no campo visual, a Galeria Trapiche se tornou o principal instrumento do poder público municipal para executar política de artes visuais. De acordo com Uimar Jr., “A gente tem uma determinação da prefeitura de descentralizar e profissionalizar. O Uimar conseguiu traduzir isso na ponta. O Trapiche hoje cumpre papel de formação, difusão, fomento e memória. É uma política pública que funciona”, avalia.

Os números reforçam a fala do secretário. Entre janeiro e maio de 2026, a galeria recebeu 14 exposições, 27 oficinas, 11 lançamentos e um público superior a 12 mil visitantes, segundo dados da SECULT. Mais de 200 artistas foram diretamente beneficiados com pauta, cachê ou formação. A página do Instagram do equipamento saltou de 3 mil para 21 mil seguidores em um ano, ampliando a visibilidade dos artistas para além da Ilha.

A retomada do Salão de Artes Plásticas de São Luís, extinto na gestão passada, está prevista para outubro deste ano. O edital, com premiação de R$ 40 mil, já está em fase final de elaboração. Nossos esforços é para que “O Salão volte maior, com categoria nacional e júri de fora. É a coroação desse processo de reconstrução”, adianta Uimar Jr.

DESAFIOS E FUTURO 

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A equipe da galeria ainda é reduzida e o orçamento, embora maior que em anos anteriores, segue limitado diante da demanda. O casarão da Avenida Pedro II passou por reforma e adequações no telhado e de climatização, inclusive foi adequada para receber obras de grande porte. “A gente faz muito, mas a gente precisa avançar na estrutura. Arte visual exige cuidado técnico”, pondera o diretor.

Outro ponto é a necessidade de criar um programa municipal de aquisição de obras para formar acervo público, lacuna histórica em São Luís. “A gente expõe, mas a obra volta para casa do artista. A cidade precisa comprar, preservar, contar sua história através da arte”, defende produtores do campo das artes plásticas.  Uimar Jr. diz que já apresentou projeto para criação do Fundo Municipal de Artes Visuais. Enquanto isso, segue no ritmo que o consagrou: “trator sem freio”.

Afirma Uimar Jr., “Eu brinco que sou gestor 24 horas. Se o artista me liga 11 da noite com uma ideia, eu atendo. Porque arte não tem hora para nascer. E a Galeria Trapiche tem que estar aberta, nem que seja o coração, para essa ideia acontecer”, finaliza.

No fim da tarde, quando o sol se põe na Avenida Pedro II, as luzes do Trapiche se acendem. E lá dentro, mais um artista maranhense encontra parede, holofote e público. É a prova de que, quando inovação e empreendedorismo se aliam na gestão pública, quem ganha é a arte. E quem ganha é a cidade.

 

SERVIÇO 

Galeria Trapiche Santo Ângelo 

Endereço: Avenida Pedro II, s/n, Centro – São Luís – MA

Funcionamento: Terça a sexta, 9h às 18h. Sábados, 9h às 13h. Entrada gratuita. 

Instagram: @galeriatrapiche.slz

Agendamento de visitas mediadas e pautas: galeriatrapiche

@secult.saoluis.ma.gov.br