Por Euclides Moreira Neto (*)
Fui provocado pelo professor, cineasta e fotógrafo José Murilo Moraes dos Santos para refletir sobre alguns conceitos vigentes do campo cultural referente ao momento que enfrentamos com a Pandemia Covid 19 e a época junina. Para Murilo era fundamental nossa gente e estudiosos da cultura perceber que o que é “Tradição” e “Inovação” no campo cultural.
Essa preocupação surgiu a partir da tentativa de se entender a dicotomia entre grupos consolidados e grupos que vêm surgindo no nosso meio comunitário. Por isso, uma discussão do que seja tradição no nosso meio social, referindo-se aos grupos de Bumba Meu Boi (BMB) de orquestra e os grupos classificados de “parafolclóricos”, é muito pertinente. Para exemplificar essa discussão partimos da experiência desenvolvida pelo grupo Boi Pirilampo, que segundo nossa percepção está construindo sua tradição, a partir da constância e manutenção do mesmo ao longo de vários anos.
Um dos pontos questionados pelos estudiosos, é o de que os grupos jovens formados por apreciadores e gestores do meio cultural, o fazem incorporando os diversos sotaques do BMB e de outras manifestações culturais locais, utilizando dançarinas e dançarinos jovens, escolhidos a dedos e que demonstrem uma beleza aguçadora para o público, que a rigor poderá ser massivo, heterogêneo e anônimo, especialmente junto aos turistas, pois pretende-se que esses grupos – que classifico como “parafolclóricos”, – atendam sobretudo as necessidades da Cadeia Produtiva do Turismo e da Cultura, ou seja, foram criados para vender um produto que refletisse a cultura tradicional do Maranhão. Portanto, os grupos jovens ou “parafolclóricos”, são produtos do meio, que se hibridizam e naturalizam-se com o passar do tempo, na aceitação das demandas de sua época.
Esses grupos como o Boi Pirilampo são, portanto, instrumentos dessa adequação pragmática e assumem o lugar de fala dos demais grupos atuantes do ciclo junino, especialmente quando a imprensa lhe dá vez e voz para que se posicionem como tal, sem se mencionar a intensa campanha promocional desenvolvidas nas redes sociais e nos diversos eventos promocionais que se executam ao longo do tempo, entre participações em programações oficiais do poder público, editais de apoios à produção, premiações, sucessos musicais, desempenho dos praticantes, indumentárias utilizadas, exageros nas confecções dos personagens típicos como o “Pai Francisco”, “Catirina”, “miolos de bois”, “cazumbás”, “burrinhas”, entre outras, destacando-se a beleza dos índios de corpos atléticos (bombados) e das índias esculturais loiras de pele brancas em vez de índias de pele cafuza, mulatas ou negras. Essas duas últimas questões são dois pontos muito sensíveis, mas que de minha parte não contém nenhuma espécie de preconceito, o cito, por ser ponto colocado corriqueiramente nas discussões dessa temática.
Sou daqueles que não se enquadra no leque de estudiosos, apreciadores ou praticantes puristas. Não, não sou, mas, o que é ser purista nesta ótica? Seria negar o direito dos cidadãos que não tem ligação étnica com as manifestações que herdamos de nossos ancestrais? Se for, definitivamente não me enquadro como purista, pois entendo que devemos neste ponto de vista ser liberal para que todos e qualquer cidadão que convive conosco, no nosso dia a dia, tenha oportunidade de praticar aquilo que some com a sobrevivência de nossas práticas culturais, entre elas as manifestações do ciclo junino, religioso, carnavalesco, etc.
Em tempos não muito distantes, já tive oportunidade de promover uma mostra audiovisual chamada “Mostra Refestança” durante o Festival Guarnicê de Cinema e essa questão vinha sempre à tona, especialmente quando o júri técnico se reunia para dar seu veredicto. Discutia-se muito a questão da postura liberal e da busca purista nas manifestações consideradas tradicionais, pois alguns estudiosos insistem em ver os grupos “parafolclóricos”, como uma inovação agressora da tradição, havendo alguns críticos que incluía nesse bojo até os grupos de BMB do sotaque de orquestra, que incorporam praticantes da área musical mais erudito, a exemplo dos instrumentos de sopro e cordas. Esses críticos consideravam a introdução dos instrumentos inovadores uma interferência indevida na manifestação BMB, transformando-os em produtos não legítimos, portanto os grupos do sotaque Orquestra eram vistos como produtos artificiais, os quais deveriam ser expostos em vitrines de shoppings e lojas chiques da elite consumidora, ou como cultura inventada (idêntica a tese defendida por Eric Hobsbawm, Stuart Hall, Raymund Williams ou Pierre Bourdieu), não representando necessariamente as manifestações classificadas como tradicionais, embora, seja muito comum, as tradições também ser inventadas.…..
Vale lembrar que toda manifestação desenvolvida no meio social foi um dia uma cultura inventada e com a sua constância, percebida por um público numeroso ou não, mas que aos poucos teve sua hibridização e consequente naturalização, tornando-se fator indenitário de um público específico, portanto legitimando-se tradição. Assim, virou-se tradicional. Poderíamos perguntar: até quando essa tradição vai durar? Só a prática em que ela foi implantada poderá determinar, enquanto isso vai curtindo fervorosamente nossas manifestações culturais, que a cada ano nos demonstra que o Maranhão é um celeiro de diversidade e expressões culturais singulares, únicas e totalmente originais.
Vamos continuar a refletir sobre esse tema, pois tentar entender esse fenômeno que atua na sociedade é muito apaixonante e complexo. A prática de nossos grupos de BMB é tão emblemática que temos pelo menos cinco divisões de sotaques com características bem distintas, mas da mesma forma muito desafiadora do ponto de vista étnico, existencial e cultural. Pense nisso… Continuamos atravessando esse período de distanciamento social provocado pela Pandemia Covid 19.
São Luís, 12.06.2020
(*) Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Cultural.

