20/01/2026

Morreu FOFÃO (*)

A cultura Maranhense é um tesouro, no modo de falar, por exemplo, utilizamos um português “dito” culto, que em outrora nos deu o título de Atenas. Temos expressões no nosso cotidiano recheadas das línguas indígena e africana, que torna peculiar o nosso jeito de conviver, além de traduzir uma essência regionalizada do estado e daqueles vizinhos do norte e nordeste.

A diversidade é tamanha que foram criados dicionários, souvenir e roupas com estampas que fazem sucesso com os termos considerados “raiz” do nosso Maranhão. Contudo, mesmo tendo estes impulsos na valorização cultural onde explicamos e replicamos os termos, como: marrapá, gaiato, não me trisca, juçara (em contraponto ao açaí), não mencionamos o uso da frase, “Morreu Fofão,” por que será?

Segundo o antropólogo e pesquisador de religiões e cultura popular do Maranhão, Sebastião Cardoso Júnior, o “Fofão” personagem carnavalesco maranhense vem sumindo, e por ironia, digo, gaitice, o esquecimento vem se agravando em tempos onde a máscara é item obrigatório de prevenção da covid-19.

Mas, como quem não é visto não é lembrado, e por associação buscamos entender o desconhecido por algo que nos tem significado, adianto que o termo “Morreu Maria Preá”, é o sentido mais próximo, daquilo que não merece mais ser discutido, ou manter-se esquecido ou calado, já que o caso já foi resolvido, não lhe diz respeito ou deve ser compartilhado com mais ninguém. Mas quem foi Maria Preá?

Segundo Braulio Bessa, o também poeta, Itanildo Medeiros em um dos seus Cordeis nos ensina que Maria era uma mulher que mantinha relacionamento amoroso com um padre, e que ao serem descobertos por um sacristão, ele passou a ameaçar revelar o segredo. Seria um verdadeiro escandalo, que lhe atormentou tanto, pois iria expor a vida de Maria e ao mesmo tempo geraria a perda da batina “Haja Deus”, suplicou aos céus.

A situação estava “russa”, a perseguição só cessou após o padre descobrir que o sacristão também tinha algo semelhante a esconder. Certo dia, devido ao esquecimento de um documento, o padre retornou no meio do caminho de uma viagem que faria a cidade vizinha para a casa paroquial, e chegando flagrou o chantagista com outro homem, ambos nus e em plena troca de intimidades.  Logo ao ver a cena, ficou aliviado, ao lembrar de Maria Preá, mas movido pelo sentimento de pena e vergonha, gritou ao casal: “Sacristão se oriente, pois para nós, daqui para frente, Morreu Maria Preá”.

Já diferente dos personagens presentes no Cordel, o interessante na brincadeira de ser um Fofão é também guardar em segredo a identidade de quem veste aquela fantasia grotesca, é como se o belo ou o interessante estivesse “no miolo” se compararmos ao nosso bumba meu boi.

O personagem símbolo do Carnaval maranhense, é de origem europeia, mas é graças profusão adivinda da idade média até o período de colonização portuguêsa que transformaram o Fofão inconfundível tanto na forma e material da máscara como no som dos guizos, e além de ser tradicionalmente coloridas, suas vestes folgadas e grandes, são semelhantes a um macacão, que carrega nas mãos uma varinha e um brinquedo, geralmente uma boneca.

Segundo o antropólogo “Quem pegar nas bonequinhas acaba tendo que pagar algum trocado, senão, fica sendo perseguido até o dia acabar.”
Verdade ou não, o cordel sobre Maria Preá, assim como o Fofão nos mostram que nossos segredos e medos podem ser representados por situações difíceis ao mesmo tempo fascinantes numa mistura de emoções que merecemos experimentar, dar significados e sentido.

Caro leitor, imagine o medo vivenciado quando uma criança vê alguém vestido de Fofão se aproximando. É graças a segurança dada por um adulto, que a confiança de que nada de ruim vai acontecer se estabelece, permitindo que a curiosidade favoreça com que o desconhecido e assustador, possa ser descoberto, compartilhado e superado, trazendo risos e momentos colaborativos e inesquecíveis na vida de ambos.

Assim, ao explicar que o papel machê é a matéria prima das máscaras, que o som vem dos guizos, e que a roupa é folgada, podemos compartilhar episódios vividos e compreender como podemos melhor lidar com os nossos sentidos, alegrias e dores, sonhos e desejos.  Acredito que de maneira afetuosa e lúdica, aprendemos e ensinamos sobre os sinais e sintomas de que as coisas não vão bem, e por meio do diálogo equacionamos o melhor trato com as frustrações e angústias. Tal oportunidade é a estrutura de uma oficina de laços de confecção de foliões, assim como de cidadãos inteligentes emocionalmente, mesmo neste período pandêmico, eleitoral e de guerra, assim nos preservamos e garantimos um guarnicê.

Até porque o Carnaval, nos tempos medievais, se traduzia como o momento em que é possível inverter as ordens das coisas, ficando tudo de cabeça para baixo, com a extravagância dos prazeres, antes de se iniciar o período da quaresma.

Por fim, é certo que no Maranhão, a beleza da cultura é singular e se revela no enredo de 2009 da Escola Flor do Samba, Haja Deus, onde “no jogo de baralho quem se espanta é o Fofão ôlálá”.

(*)RUY RIBEIRO MORAES CRUZ
Psicólogo da Escola de Saúde Pública-SES CRP:22-00582.

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