Dando continuidade a nossa discussão sobre o que é tradição no meio cultural ludovicense, venho apresentar ainda alguns pontos relativos aos olhares dos cidadãos que apreciam nossa rica e diversificada manifestações culturais como elemento indenitário. Pois bem, parcela desses apreciadores que curtem o ciclo junino local vê nos grupos de Bumba Meu Boi (BMB) do sotaque deOrquestra, como uma manifestação artificial, que em vez de buscar o que era considerado tradição, pelos olhares daqueles mais conservadores de nossa sociedade, implantou-se uma artificialidade na cultura local, transformando-se em uma espécie de cartão postal para agradar turistas e visitantes de nossa cidade.
Assim, o Boi de Orquestra que se popularizou inicialmente na região do Rio Munin, no litoral norte do Maranhão, abrangendo especialmente os municípios de Rosário, Axixá, Morros, Icatu, entre outros, teve uma hibridização fenomenal para acolher os músicos que integravam bandas e fanfarras daquela região e músicos das forças de segurança que atuavam na região, a exemplo de policiais militares e integrantes das forças armadas, fatores que deram aos grupos dessa região uma característica bem específica e criando-se um laço de romantismo, lirismo e afetividade com a própria população dos municípios que integram o portal de entrada da região dos lençóis maranhenses.
Como é sabido, os grupos de BMB são vistos pela população local como devoção que é mantidos no meio social como obrigação pragmática, inclusive há gestores que mantém ou desenvolve esses grupos como ritual para pagar promessas e atender necessidades religiosas de suas comunidades. Portanto, o Boi de Orquestra é também ritual mitológico, e eles seguem um calendário ritualístico, que envolve uma extensa cadeia de atores, incluindo celebrações que abrangem todo ano, assim, os gestores são responsáveis por executar um calendário amplo de ações, como confecção de indumentárias, escolhas de padrinhos, batizados, permuta entre os grupos, apresentações espontâneas, pagamentos de promessas, apresentações contratadas por diversos setores comunitários, viagens para participações em eventos diversos, ensaios, escolhas de repertório, gravação de novas músicas, contratação de músicos, seleção de novos integrantes, escolha dos principais personagens do ritual dramático da lenda do boi, pré-temporada junina e a temporada propriamente dita, entre outras atividades.
Desse modo, os gestores seguem a cada ano um leque de ações bem amplo e isso se constitui rituais de uma prática social constante. As novas toadas, por exemplo, que em muitos casos são constituídas de versos tirados de improvisos, são também elementos de construção poética e elas, a rigor, atendem a necessidades do grupo o do que ele se propôs a fazer na nova temporada, por isso, as toadas, assim como a música de samba enredo, de uma Escola de Samba, é um ato ritualístico, ou seja, toadas, sambas, ladainhas, canções de roda e/ou cirandas, entre outras, se constituem na trilha sonora dos grupos de manifestações culturais que são num primeiro momento elementos sonoros e músicas ritualistas, considerando que elas são feitas prioritariamente para atender uma necessidade do grupo. Se essa música (toada) fizer sucesso na estrutura da indústria cultural massiva, ela vira outra coisa, mas não se espera que ela seja feita para fazer sucesso, espera-se que essa música atenda necessidades da dramaticidade de cada manifestação ou carências ritualísticas. –
Neste contexto, as festas do ciclo junino, como do carnaval são rituais e ao mesmo tempo atos de devoção. Os grupos de BMB, como o boi de Orquestra é devoção; como é devoção, os Blocos Tradicionais do Maranhão; como é devoção às manifestações afras religiosas (Tambor de Mina, Candomblé, Terecô, etc.), como é devoção os festejos do Divino Espírito Santo, o carnaval e os festejos juninos, entre tantas outras, pois as festas populares são atos identitários de devoção, entretenimento, sociabilidade, fortalecimento dos laços sociais, que atendem o clamor de um povo e as demandas da cadeia Produtiva da Cultura e do Turismo, fatores que geram trabalho e renda para toda uma região.
Diante do exposto, podemos concluir que os quês construíram neste limiar envolvem as manifestações culturais do campo da cultura popular, constituindo-se, portanto elementos básicos para a compreensão do que se conceitua como tradição, ritual ou devoção. Assim, não temos como desautorizar, multar e penalizar os grupos jovens que surgiram inspirados nos grupos considerados ancestrais, segundo os olhares daqueles mais tradicionais. Portanto, ao respondermos aos questionamentos se os novos grupos culturais criados a partir da década de 1980, inspirados nas manifestações do ciclo junino e considerados “para folclóricos”, se são bons ou ruins para o movimento sociocultural ludovicense? A resposta será sim, sem necessariamente ser considerada por parte desses grupos, uma ação pejorativa. Como não foram pejorativos os grupos da dança Cacuriá e os próprios grupos de BMB de orquestra que ao longo do tempo legitimam-se e foram pouco a pouco sendo reconhecidos como símbolos culturais identitários de nossa terra. Pense nisso. Continuamos atravessando esse período da Pandemia Covid 19.
São Luís, 14.06.2020.
Euclides Moreira Neto – Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Cultural

