19/05/2024
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O jornalismo não pode ser um samba de uma nota só”, diz Sergio Vilas-Boas

Jéssica Oliveira* PORTAL IMPRENSA

Como produzo uma pauta fora de agenda para o editor aceitar? Como administro o espaço? Como administro o tempo? Como estruturo a matéria? Como faço para a matéria ter vários planos de fundo? Essas foram algumas das dúvidas que o jornalista Sergio Vilas-Boas ouviu ao ministrar o curso “Jornalismo Narrativo”, para jornalistas do Grupo Estado, na última semana.

Em três manhãs de curso, o jornalista falou para 25 repórteres e um editor, de vários cadernos e editorias, do impresso e da web. No curso, foi discutido o jornalismo na era digital, a gestão do negócio jornal, a aparentemente imutável cultura interna das redações, os necessários diálogos entre editores-chefes, editores assistentes e repórteres, além de como tornar uma reunião de pauta produtiva, o conceito original de reportagens especiais (do ponto de vista do conteúdo e da forma) e como realizá-las com qualidade e distinção.

Vilas fez um tour pela produção desse tipo de jornalismo, da criação da pauta à edição, passando pelos processos de trabalho de campo, escrita e estruturação, e falou sobre os conceitos de jornalismo narrativo no mundo. Ele levou exemplos da imprensa internacional, como o New York Times e o El País, para mostrar que eles nunca deixaram de praticar esse tipo de jornalismo, mesmo nos maiores momentos de crise.

“Mostrei que isso é muito mais uma questão cultural. De ousadia, de iniciativa, não apenas uma questão de ter ou não ter dinheiro para investir”, diz. Vilas falou ao Portal IMPRENSA sobre a cultura interna das redações no Brasil e como o jornalismo narrativo pode ajudar a sair do “gesso”.

Sergio Vilas-Boas durante LID& 2011, em Paraty

Segundo ele, é difícil ver jornalistas interessados nesse tipo de jornalismo, por uma razão lógica. “É muito difícil desejar aquilo que não se sabe que existe, que não se tem, não se lê”. E a rotina das redações contribui muito para a situação. “A rotina é tal, às vezes mecânica e sem interlocutores, que os editores cada vez menos editam, mas administram. É preciso sair dessa ideia de que um jornal em papel noticia apenas”, explica. Mas, para ele, o atual contexto possibilita tentar mudanças. “Os jornais se abrem para ouvir isso, porque querem sair daquela agenda sufocante, o que era impensável há 20 anos”. E aconselha. “O repórter tem que ter uma agenda de pautas especiais, que seja independente da agenda do dia”.

Para ele, o modelo atual de jornalismo começa a dar sinais de desgaste. “O modelo funciona e só. Talvez pelo prestígio centenário, mas não pelo prestígio do que produz, não tem experimentação de conteúdo nem da forma”.

Com a velocidade da internet, Vilas reforça que os jornais precisam oferecer algo além da informação. “Não tem como um jornal competir com a velocidade da web, informação é muito fácil de ter, é grátis e rápida. Não da pra ficar só com conteúdo noticioso no mundo, onde as pessoas tem uma infinidade de informações. É preciso oferecer algo aprofundado, com reportagens especiais no modo de fazer, no modo de editar. Tem que experimentar”.

No quesito experimentação, a década de 60 é sempre lembrada em nomes como Gay Talese, Norman Mailer e Tom Wolfe, alguns dos principais protagonistas norte-americanos do New Journalism (Novo Jornalismo).

Apesar de não tão novo assim – em essência, esse jornalismo já era praticado desde o século 19 – a década de 60 foi um tempo inquieto em geral, de uma grande efervescência, cujos reflexos são sentidos até hoje. “Ainda há certo romantismo, como se a coisa fosse congelada nos anos 60, e pudesse ser descongelada hoje. As pessoas querem que você faça uma matéria ‘estilo Gay Talese’, mas nem tudo que era feito nos anos 60, pode ser feito hoje”, diz.

O jornalista lembra ser preciso fazer “a coisa” circular nas redações para evitar o “mais do mesmo”. “É preciso perder essa mentalidade compartimentada de editoria, e de repórteres que não se falam, pra não virar uma atividade automática, ou ficar preso aos releases que chegam, às efemérides…”.

Mas Vilas deixa claro que a responsabilidade por não existir essa forma de jornalismo no Brasil é de todos. “Quando você se acomoda, você não está debilizando o seu jornal, mas a sua carreira. Quando você desiste da sua profissão, da sua carreira, do seu dia a dia, a realidade vai virar uma rotina insuportável. Porque fica cada um com seu osso e não muda nada. Não existe essa de editor não gosta ou não quer. O que existe é: ‘não há quem faça bem, não existe treinamento adequado e, muitas vezes é autocensura, questão cultural'”, explica.

Para o jornalista, o momento é favorável no país para a discussão de uma nova forma – ou não tão nova – de se fazer jornalismo. Mas ressalta que o jornalismo narrativo é uma delas, não a única para salvar o jornalismo. “Os jornais sabem, apreciam, e assumem que apreciam publicamente, porque não adianta bater numa tecla só, sem melodia e sem harmonia”, finaliza.

Vilas-Boas é jornalista, autor e professor. Dá palestras, workshops e desenvolve projetos de Jornalismo Narrativo em formato livro para empresas de diversos setores. De 2003 a 2011, criou e editou a revista eletrônica TextoVivo, que incentiva o texto não-ficcional de qualidade, principalmente entre autores jovens. Ajudou a criar a Academia Brasileira de Jornalismo Literário (Abjl) e um curso de pós-graduação pioneiro. Recebeu prêmios como repórter e como escritor (seu romance “Os Estrangeiros do Trem N”, foi um dos ganhadores do Jabuti 1998). Seus livros mais conhecidos são “Perfis” e “O Estilo Magazine”. É mineiro de Belo Horizonte, viveu em Nova York e atualmente mora em São Paulo.

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