22/05/2024
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O MISTICISMO DOS CAZUMBAS

BELEZA MÍSTICA DOS CAZUMBÁS

Carla Melo (Do Alternativo)

Ligados ao lado místico do bumba meu boi, os cazumbas são personagens encontrados, mais comumente, nos grupos de sotaque da baixada. Alguns atribuem a eles a função de “varrer” o terreiro antes da chegada boi, expulsando, assim, os maus espíritos. Trajados com caretas e batas decoradas, eles balançam os quadris guiados pelo som inconfundível de seus chocalhos, que acompanham o ritmo do sotaque. Este personagem, assim como o próprio boi, tem sofrido modificações ao longo dos anos.

Cada vez mais enfeitados e luxuosos, chamam a atenção do público pela beleza de sua evolução e pela capacidade que têm de interagir com os presentes. “São os palhaços encaretados”, resume a coordenadora do Boi da Floresta, Nadir Cruz.

De acordo com a pesquisadora e professora da Universidade Federal do Maranhão, Elisene Castro Matos, não há um padrão estético pré-definido e cada grupo mantém suas peculiaridades. Ela frisa também que o caráter místico muitas vezes atribuído ao personagem não é vivenciado pela maioria dos integrantes. “Eles não se veem com este caráter mais voltado para o espiritual, como costumamos pensar. É claro que o uso da máscara favorece. Ali eles se sentem protegidos. De uma maneira geral, o uso das máscaras sempre desperta a imaginação das pessoas”, destaca a pesquisadora.

O cazumba é também um dos personagens mais livres e que mais interagem com as pessoas. “Eles gostam de brincar com as crianças, de chamar o povo para a roda e até mesmo de assustar com suas caretas”, diz Nadir Cruz. Em décadas passadas, no entanto, esta função era mais acentuada. “Eles chegavam a rolar no chão, faziam muitas estripulias”, diz Elisene Castro.

Esta espontaneidade do cazumba, de acordo com a pesquisadora, vem se alterando ao longo dos anos. Ela aponta alguns motivos como, por exemplo, a indumentária cada vez mais elaborada, com máscaras enormes e que dificultam determinados movimentos da dança. Além disto, a bata (ou farda) usada pelos personagens deixou de ser confeccionada em chita ou estopa, como era no passado, para ser feita, normalmente em veludo, e com muitos bordados e acessórios. “Assim, os movimentos ficam mais limitados e ninguém vai querer estragar a roupa, que atualmente sai muito cara”, pondera a pesquisadora.

Mesmo primando pelo luxo e beleza, ainda hoje, como no passado, a maioria dos cazumbas é responsável pela confecção de sua própria indumentária. Para a pesquisadora Elisene Castro, a diversidade e o dinamismo dos personagens dificultam sua classificação. No entanto, ela define alguns parâmetros, tendo por base as máscaras. “Existem os que usam caretas de madeira, os que usam as de pano e ainda os que usam máscaras de borracha, compradas em armarinhos. Há também os que compõem as caretas com as chamadas torres ou coroas”. Estas últimas são fixadas sobre as caretas de madeira, feitas em acetato ou isopor, madeira ou vergalhão e representam figuras variadas sendo que a maioria traz a imagem de São João. As caretas representam, no geral, formas

animalescas.

Estética – A mudança na estética do personagem vem acompanhando as alterações ocorridas nos grupos de bumba meu boi ao longo dos anos. Se antes a alegria e a irreverência eram o que mais chamavam a atenção para os cazumbas, hoje são suas indumentárias. “Isso tem feito com que muita gente que antes brincava nos grupos acabe ficando de fora, pois a confecção da roupa e da máscara ficam caras e todo ano esta indumentária tem de ser, se não completamente nova, ao menos reformada, trazendo algum diferencial”, observa Elisene Castro.

Esta tendência é confirmada pelo amo do Boi de Santa Fé, José Figueiredo, seu Zé Olhinho. “Os cazumbas são a vitrine do nosso boi. Muita gente quer sair de cazumba, mas nem todos podem, porque tem que ter qualidade, precisa zelar pelo material [roupa] que é muito caro”, destaca o amo.

Ele conta que cada indumentária de cazumba custa, em média R$ 1.000,00, entre bata e careta. Estas últimas são encomendadas, em sua maioria, no município de Penalva. “Aqueles que já são acostumados a brincar de cazumba preferem estas caretas grandes. Parece que quanto maior mais eles gostam. As de pano são usadas, ou por mulheres ou por crianças e ainda por quem está começando e ainda não tem a prática de sustentar a careta grande”, explica Zé Olhinho.

Além da careta, o cazumba traz consigo o chocalho, responsável por marcar o passo da dança e alguns, em especial nos bois dos municípios da Baixada, têm ainda uma espingarda de madeira. Para dar movimento aos quadris usam, por baixo da roupa, um cesto ou cofo de palha amarrado à cintura.

Mulheres ganham mais espaço

Mesmo ainda sendo maioria, os homens começam a abrir espaço para a participação de mulheres no grupo de cazumbas. “O negócio é que para ser cazumba é necessário um preparo físico muito bom. A roupa é pesada e a careta também”, opina Zé Olhinho explicando o Boi de Santa Fé reúne 40 cazumbas e destes, apenas um dos personagens é mulher.

Já no Boi da Floresta, a participação feminina é maior. Dos 28 cazumbas, pouco menos da metade é mulher. “De uma forma geral, não há preconceito. Embora a maioria ainda seja de homens, as mulheres participam e isso é algo que não se pensava em anos atrás”, diz Nadir Cruz, do Boi da Floresta.

Se na capital é possível encontrar mulheres que se vestem de cazumba, no interior do Maranhão isso ainda é algo novo.

“Existem grupos que não permitem que mulheres vistam a indumentária”, explica a pesquisadora Elisene Castro, que tem como objeto de estudo os cazumbas de um dos grupos de bumba meu boi do município de Penalva.

Características das caretas

Madeira: são confeccionadas em paparaúba, embaúba ou cedro, madeiras mais leves e mais fáceis de esculpir. Não têm nome específico, sendo chamadas apenas de “caretas de cazumba”.

Tecido (pano): coloridas e feitas em tecido grosso como, por exemplo, o brim. São chamadas pelos brincantes mais antigos de “caretas de pelego” por serem enfeitadas com pelego (lã) de carneiro. As mais antigas não recebiam enfeites.

Cazumba ou cazumbá?

A pronúncia do nome do personagem sempre foi motivo de dúvida. Afinal, é cazumba ou cazumbá? A pesquisadora Elisene Castro explica: “O nome cazumbá começou a ser usado por pessoas de fora dos grupos, pesquisadores e outros, mas, de um tempo para cá, já foi incorporado por integrantes de alguns grupos, em especial os de São Luís. No interior do estado, o termo cazumba ainda prevalece e a maioria dos brincantes, mesmo em São Luís se denomina assim”.

Mais

O cazumba representa na brincadeira funções peculiares, tais como:

– Inicia as apresentações e são os primeiros a entrar no terreiro;

– Dialoga com o patrão durante a morte do boi;

– Tem total liberdade para interagir com o público.

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