20/01/2026

O último desfile de Paulo Salaia Jesus

JP TURISMO – Por Herbert de Jesus Santos –

Uma maré de blocos tradicionais de São Luís conduziu o corpo do fundador e presidente de Os Feras, percussionista e produtor cultural Paulo Salaia Jesus (Paulinho Fera), para ser sepultado, na tardinha de segunda-feira passada (1.º de maio), e inundou o Cemitério do Gavião, após percorrer ruas do Bairro São Pantaleão, à sua última morada.  Ele morreu na noite de domingo (30.4), aos 64 anos, depois de dar entrada na sexta (28.4), em um hospital particular da Capital, com uma crise de diverticulite (inflamação de uma ou mais bolsas do trato digestivo com formato de balão, divertículos), vindo a sofrer uma parada cardiorrespiratória que o levou a óbito.

Antes do enterro, já às 16h30min, o corpo de Paulo Salaia, vindo da Pax União da Rua Grande, onde houve o seu velório muito concorrido, foi trasladado de uma limousine branca para uma maca móvel, e, num ritual admirável, integrantes de diversos blocos carnavalescos, previamente, combinados, posicionaram-se para empurrá-la com o ataúde. O cortejo foi iniciado com acompanhamento maciço de componentes de muitos tradicionais, e, igualmente, de saraivadas de foguetes, desde o Caminho da Boiada, na confluência entre a Vila Gracinha e Rua do Outeiro, onde teria acontecido um dos primeiros momentos do cordão Os Feras. Ao som de batuques e memoráveis sambas-tema de diversos carnavais da agremiação, foram intensificados os disparos dos fogos de artifício, e o blocão subiu a Rua do Passeio, aumentando mais a quantidade de assistentes chegados da Vila Bessa, Rua São Pantaleão, Madre de Deus, Centro (Apicum, Misericórdia, Rua Cândido Ribeiro, etc.). No coco da Rua Medeiros de Albuquerque, na entrada do Codozinho, ainda na Praça da Saudade, defronte de onde fora sede de Os Feras, e houve comemoração dos seus 25 anos, em 2021, oradores se revezaram nos necrológios. Já era perto das 18h, quando ele foi enterrado, sob aplausos e foguetório. Havia se consumado as palavras de Paulo Salaia Jesus que anunciou, em inúmeras vezes, que o carnaval deste ano seria o último desfile do Bloco Tradicional Os Feras.

A Festa dos 25 Anos de Luz — Fui convidado e conferi a passagem do Jubileu de Prata de Os Feras. Numa concentração de sucesso, reunindo diversas gerações de foliões do carnaval maranhense, principalmente dos chamados blocos tradicionais, o Bloco Os Feras, fundado em 12 de outubro de 1996, no Bairro São Pantaleão, comemorou seu jubileu de prata, na terça-feira passada, numa festa, realmente, bonita, em todos os pontos, para a euforia estampada no rosto do seu fundador e presidente, Paulo Salaia, que se desdobrou para receber seus convidados e falar ao microfone, de quando em vez, sobre a história da sua criação. A promoção foi prestigiada com a presença do secretário municipal da Cultura, músico e publicitário Marquinho Duailibe, de Tia Marly Abadlla, professora Vone e do jornalista, poeta, prosador, folclorista e compositor Herbert de Jesus Santos, representando o JP Turismo (semanário turístico e cultural do Jornal Pequeno). Defronte da sua sede, na Praça da Saudade, tomada por brincantes de Os Feras e seus familiares, simpatizantes e representantes de entidades folionas similares, desfilaram, igualmente, os considerados sambas da melhor qualidade (de conjuntos e artistas maranhenses e cariocas), sob a batuta do Grupo Tradicional Show, com Godinho, banda e convidados, qual Sílvio Freitas, Geovana e Fração, Jhota Júnior, Tunai e outros mais, e apresentação do Samba de Roda, com a participação de vários cantores de samba, como Leandro Tô Demais e convidados. Paulo Salaia entusiasmou sua falação, agradecendo o prestígio oferecido pelo JP Turismo, com seu diretor-geral, Gutemberg Bogéa, e com: “Para obtermos o êxito necessário, na passagem dos 25 anos de luz do Bloco Os Feras, tivemos o apoio do Bar do Bequimão, na direção da amiga Poliana, e de toda a frente do bloco na produção dos mestres Paulo Salaia, Pepeu, Nílson; Farael, Bóia, Celso, Luzianny e Miguel! Foi um sucesso a nossa festa, como você viu! Obrigado pela sua presença!”— concluiu Paulo Salaia para Herbert de Jesus Santos, e adiantando que a diretoria de Os Feras está agendando viagem, com o declínio da Covid-19, e esquematiza sua programação para o carnaval de 2022, incluindo o desfile da Passarela do Samba. A euforia estava estampada na face de todos os presentes, seguindo o presidente e fundador de Os Feras, percussionista, e carnavalesco, e anfitrião, Paulinho Salaia.

“Está todo mundo aí?!” — O grito de guerra dos cantores dos blocos tradicionais, antes de suas exibições, na Passarela do Samba, no Anel Viário, na disputa acirradíssima, pelo título de campeão, ali, não precisou ser entoado, e estavam todos, sim, com os seus presidentes, incluindo os dos quais integrou bem antes  dele dar à luz Os Feras: William Moraes Correa (Os Foliões), Raimundo Melo (Os Tremendões) e Almeida (de Os Versáteis, já extinto), e que avalizou Paulinho, há uns 40 anos, para ingressar no tido um dos mais requisitados grupos daquela gênese carnavalesca, quando Almeida, entrevistado por mim, na porta da capela do cemitério, foi lembrado de ser o mestre do mestre e do Comendador da Cultura, este título que lhe fora concedido  no governo Roseana  Sarney.

“Vai ter passarela?!” — Esse era o bordão contumaz de Paulinho Fera, na aproximação do carnaval, sem ver movimento para haver a passarela móvel, com que estimularia a competição dentre os principais concorrentes em seus grupos. Aproveitando o ensejo, a maneira como os participantes dos blocos tradicionais se comportaram no trajeto do último “desfile” de Paulo Salaia, eles, com organização, ou no peito e na raça, poderiam lutar, condignamente, pela passarela do samba fixa, e nunca moveram um dedo por essa iniciativa. Se com as escolas de samba na estratégia da campanha, há muito São Luís teria a redenção do carnaval maranhense de passarela, como capitais do Norte e Nordeste, sem essa nossa tradição momesca, ergueram e evoluíram muito mais suas escolas de samba, com que deslanchou o turismo delas, no período. Numa vez, em que o sistema pesado botou para exterminar as escolas de samba, em 1997, com a astúcia do desfile das nossas relíquias acontecer na Av. Litorânea, enquanto o Marafolia (de blocos de axé baiano e de reggae) se daria melhor no Anel Viário, eu fiquei sozinho, clamando no deserto, contra um iceberg em forma do megaempresário Fernando Sarney. Todos os meus amigos da onça recuaram no meio do caminho, quando observaram o todo-poderoso da mídia indígena chegando, e ele seria o mentor da lambança às nossas coisas preciosas, sem haver o concurso, que não tiveram subsídio oficial, com um som na passarela mixuruca e arquibancada de circo penico sem tampa. Era para acabar, e não conseguiram!

Eu conheço as feras! — Assim como eu assisti ao nascimento de Os Feras, em 12.10.1996, registrei a boa-nova em jornal, fiz uma página no seu Jubileu de Prata, eu conheço as feras dos chamados por mim magníficos blocos tradicionais. Deste modo, não adianta fazer muxoxo, torcer o nariz, para mim, em pensamento, ou na minha passagem, pois, nesta História da Cultura Popular, em que ofereço, graciosamente, o meu talento exacerbado e reconhecido, prestígio e honorabilidade, o jornalista ereto, e o cronista desaforado (no dizer do grandioso jornalista e poeta maior JM Cunha Santos), pelo que é nosso mais sagrado, e o poeta premiado aqui, geralmente, tenho toda a razão!

Bloco Show Feras — Paulo Salaia Jesus não deixou nenhuma permissão para a continuação do Bloco Os Feras. Quem disse que ficaria só por isso mesmo? Os ouvidos antenados do repórter aqui captou, no velório do sambista maranhense já de saudosa memória, que aquele legado todo, entre percussionistas, dentre outros ritmistas, compositores, só feras, não deixaria essa história terminar assim. Vai nascer o Bloco Show Feras! Nota 10 para o espírito carnavalesco da terra timbira!