20/01/2026
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Peça Horses Hotel aborda temas pesados

Um decadente quarto de hotel, sem cidade definida, mas localizado em algum ponto do início dos anos 1980, é cenário para um desenrolar de personagens com suas angústias e desejos. Temas ainda tão atuais, como a busca pelo sucesso e a vivência plena da sexualidade, permeiam o enredo de Horses Hotel, peça que estreou semana passada no Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro. Como moldura para toda a encenação, os atores encaram guitarras e microfones para levar ao palco clássicos do rock setentista e oitentista.

O texto é do gaúcho de Porto Alegre Alex Cassal (que integrou o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz nos anos 1980), hoje radicado no Rio. A montagem surgiu a partir de uma ideia da atriz Ana Kutner, que divide o palco com os atores Renato Linhares (também gaúcho), Emanuel Aragão e o ator e músico Roberto Souza. “Ana me procurou há dois anos querendo montar um espetáculo sobre valores dos anos 1970, com questões como liberdade, sexo, música e arte. A questão era como montar isso e trazer para a cena atual? Então ficamos um bom tempo trabalhando nesse sentido”, conta Cassal que, além da dramaturgia, assina a direção de Horses Hotel com Clara Kutner. Antes da estreia propriamente dita, no Rio, a peça foi encenada duas noites no recém-encerrado Festival de Teatro de Curitiba.  

O hotel é refúgio de artistas e marginais, cenário de um triângulo amoroso. Em cena, uma série de outros moradores convivem com eles: roqueiros, dramaturgos, colecionadores de arte e viajantes. As relações destas pessoas abordam ideias sobre amor, lealdade e liberdade. “Nos anos 1970, estes personagens eram jovens, acreditavam na arte e em si mesmos. É uma love story punk rock”, afirma Ana. Ela é conhecida, entre outros trabalhos, por Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar, comovente montagem sobre a poetisa Ana Cristina Cesar em que contracena com o pai, Paulo José. A peça integrou a grade do Porto Alegre em Cena há três anos.

E por que um quarto de hotel como cenário? Conforme Cassal, por ser um lugar de trânsito, de passagem. A história das relações vividas pelos personagens de Ana, Linhares, Aragão e Souza claramente é constituída por ritos que marcam mudanças como a adolescência e a idade adulta. Não poderiam faltar referências também à morte. Para o diretor de cultura Oi Futuro, Roberto Guimarães, “um hotel é um lugar de solidão, mas também de encontro. Em certa medida, pode ser comparado ao teatro, onde, isoladamente ou em companhia, sempre vivemos”. 

A montagem investe na expressão dos atores, que vivem a juventude e maturidade dos moradores. A fluidez das relações cria um confuso triângulo amoroso, que vai desde a delicadeza do primeiro beijo até a exploração de novos papéis sexuais. Um dos moradores vividos por Emanuel Aragão – um dos vértices da história -, é um michê que se apaixona pelo personagem de Linhares e vai para o hotel em busca desta experiência. Em determinado momento, completamente nu no palco, a analogia sugere Aragão despido de emoções em uma comovente cena, pedindo: “Me aceitem”.  

Ana convidou Amora Pêra e Paula Leal, do grupo Chicas, para que, tanto ela quanto os atores, incorporassem instrumentos musicais à cena. A guitarra estridente manejada por Ana, em certos momentos, funciona como elemento de fuga para a angústia que faz daquele quarto de hotel a casa ideal para ideias ainda utópicas – em sua maioria. A narrativa transita por referências musicais e artísticas brasileiras e estrangeiras, como Cássia Eller, The Doors, Andy Warhol, Lou Reed e Arthur Rimbaud, Blow-up e Macunaíma, Sex Pistols e Tropicália.

Às vezes lento, às vezes agitado demais, Horses Hotel é um exercício que evoca do espectador – acima dos 30 anos e, principalmente, quarentão – memórias de um tempo em que a busca por liberdade e ideais de expressão marcou uma geração. Vendo assim, caro leitor, parece ser um trabalho pesado, difícil, que traz à tona memórias dolorosas. E é, como admite Ana Kutner: “Nossa mão é pesada por natureza”. A montagem segue em cartaz no teatro do Oi Futuro Flamengo até 2 de junho. Não há planos, por enquanto, de excursionar pelo País.
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Fonte:Cristiano Vieira, do Rio de Janeiro

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