20/04/2024
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PERFIL de Josehilton Silva , dançarino da Companhia Barrica, sonha em ter seu próprio grupo

Dançarino há 22 anos da Companhia Barrica, Josehilton Silva é responsável também por todas as indumentárias e por cuidar da Casa Barrica; além disso, artesão se dedica a decorar festas de santos no centro de São Luís.

“Quando você veste a roupa e entra no terreiro, a mágica acontece”

 ANDRESSA VALADARES / DA EQUIPE DE O ESTADO
O São João é uma festa que agrada muita gente. No entanto, não é todo mundo que tem a oportunidade de crescer, viver e se tornar a cara dos festejos juninos. É o caso de Josehilton Silva Melo, artesão e dançarino da Companhia Barrica, que há 22 anos se entrega ao ofício de levar para os terreiros o brilho e a alegria dessa festa tão tradicional.
Nascido e criado na Madre Deus, hoje morador da Vila Beça, também no centro de São Luís, Josehilton Silva Melo é a cara do São João. Artesão e dançarino, o seu maior prazer é dançar bumba-boi, uma paixão que vem desde a infância. Sua relação com as festas juninas é algo que sempre fez parte de sua vida, quando, morador da Rua São José, na Madre Deus, participava das quadrilhas da época.

“Na minha infância, tinha uma quadrilha chamada Alegria da Mocidade. Era um pouco mais difícil participar, pois naquela época as mães prendiam mais as crianças. Então, a gente sempre tinha que estar muito cedo em casa para dormir. Mas foi evoluindo, porque a brincadeira foi crescendo. Eu achava muito bonito os arraiais de antigamente. Cada porta tinha seu ariri e os moradores enfeitavam toda a rua”, relembra.
Foi também dançando quadrilha que Josehilton Silva começou a ter contato com outra paixão: os festejos de santos. No Caldeirão Quebrado da Madre Deus – também conhecido como Praça Demerval Rosa -, começou a ter contato com as pessoas que organizam o Festejo de São Sebastião, arrumando andores e participando das rezas.
“Com 15 anos, eu comecei a trabalhar com festas de santos, arrumando os festejos. Nisso, eu fui aprendendo a fazer uma coisa que hoje não se vê muito, que são as rezas. Eu aprendi toda aquela ladainha das rezadeiras. Eu comecei a ouvir essa reza e fui praticando. Hoje, eu faço muita reza por aí e continuo trabalhando nos festejos”, conta.
Barrica – A história de Josehilton Silva com o bumba meu boi começou em 1991, quando, convidado por uma amiga, foi dançar no grupo Mocidade de Rosário. “O que eu mais gostava era porque o boi tinha uma tradição muito grande, que hoje não existe mais, de subir a Rua Grande. Saía da porta da Igreja do Carmo e vinha em direção à Rua Grande e depois para a Praça Deodoro e ali se encerrava”, rememora.
Após sua passagem de um ano pelo Mocidade de Rosário, Josehilton encarou novos desafios. Como quem estava no lugar certo e na hora certa, o artesão teve a oportunidade de dançar pela primeira vez na Companhia Barrica durante um ensaio do grupo. O ano era 1993 e, 22 anos depois, a história continua.
“Marlon, que já faleceu e segurava o boizinho do Barrica, me chamou para olhar um ensaio, antes de uma viagem que o grupo iria fazer. Eu fui nesse ensaio. Estava lá sentado e faltou uma pessoa. O José Pereira Godão, diretor artístico da Companhia Barrica, me chamou para ocupar esse lugar. Nisso que eu entrei na roda e comecei a dançar, aqui mesmo fiquei, dançando bumba-boi até hoje”, conta.
Além de dançar pelo Barrica, Josehilton Silva é responsável, também, por todas as indumentárias, por cuidar da Casa Barrica e de organizar todo o material do grupo. Tanta dedicação também o levou a viver novas experiências, como conhecer países que nunca pensou um dia poder conhecer. “A minha primeira viagem foi para a França, em 1995. Eu realmente não esperava ser chamado para ir. Foi uma experiência muito importante, pois nunca imaginei que um dia teria essa oportunidade. Logo após, fui para Portugal, depois México, Xangai, na China, e, mais recentemente, para a Rússia”, elenca.
Paixão – O amor pela cultura maranhense corre em suas veias. A mãe, Maria da Conceição Silva dos Santos, foi durante 25 anos porta-estandarte da Turma do Quinto. Apesar de também fazer parte das festas carnavalescas, é no período junino que Josehilton encontra o seu porto. “Eu adoro o São João, pois é uma festa familiar. As pessoas se confraternizam, participam das brincadeiras. São João é divertimento. O público se identifica mais”, afirma.
Este ano, a Companhia Barrica completa 30 anos de existência e história na cultura maranhense. O artesão, que já é a cara do grupo e, porque não, uma das identidades do Barrica, nunca se viu em outro lugar que não fosse na Companhia. Basta vestir as indumentárias, que a transformação começa.
“Nunca pensei em sair da Companhia Barrica e nem me vejo indo para outro lugar. Na verdade, nem sei como seria a minha vida longe daqui. Nunca estudei essa possibilidade. Quando você veste a roupa e entra no terreiro, a mágica acontece. Eu me envolvo e me entrego àquilo que estou fazendo”, finaliza Josehilton Silva.
Foto de arquivo pessoal mostra dançarino em apresentação antiga; ele está no Barrica há 22 anos (Foto: Arquivo pessoal)
Maior sonho é ter sua própria brincadeira
Como quem nasceu para brilhar no terreiro, o sonho de Josehilton não poderia ser outro senão o de, algum dia, ter a sua própria brincadeira de São João. Seu amor pelo bumba meu boi e toda a energia da festa alimenta a esperança do artesão em montar o seu próprio grupo de bumba-boi, especificamente embalado pelo sotaque de orquestra, ritmo que o acompanha desde o início de sua trajetória.
“Eu gostaria de ter qualquer tipo de brincadeira junina, principalmente uma com que eu me identificasse – como o bumba meu boi. Eu me identifico com o sotaque de orquestra, pois foi onde eu passei a maior parte da minha vida. Se um dia eu pudesse ter uma brincadeira, eu queria ter um grupo de bumba meu boi”, afirma.
São anos de experiência e, não fossem todas as dificuldades impostas não só pela falta de incentivo, mas também em relação aos custos de uma brincadeira junina, com certeza Josehilton Silva já estaria com os dois pés em seu sonho. “Gostaria de fazer uma coisa que é o meu jeito. Meu jeito de coordenar, meu jeito de criar. Ter um grupo de bumba-boi para sair brincando pelas ruas de São Luís, durante o São João, com o compromisso de levar alegria para todo mundo”, assinala o artesão.
Ainda segundo ele, hoje, as brincadeiras sobrevivem mais pelo amor à tradição do que necessariamente pelo incentivo que recebem. “Nós temos uma cultura tão rica, como o bumba meu boi, que acaba esbarrando nessa falta de incentivo. Hoje as brincadeiras saem mais por amor, pois se veem sem incentivo”, completa.
(Foto: Paulo Soares)
RAIO-X
NOME COMPLETO
Josehilton Silva Melo
NASCIMENTO
29 de abril de 1975
PROFISSÃO
Artesão
FILIAÇÃO
Maria da Conceição Silva dos Santos
ESTADO CIVIL
Solteiro
QUALIDADE
Dançar
DEFEITO
Sinceridade
ALEGRIA
Estar fazendo tudo que gosta sem ter arrependimentos
TRISTEZA
Não poder fazer mais o que faz algum dia
SAUDADE
“Do que eu vivi no passado, brincando o bumba meu boi em uma festa maior que a de hoje”
PLANOS
Ter, um dia, sua própria brincadeira de São João


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