O pulsar dos tambores dos Blocos Tradicionais, que ecoa pelas ruas do Centro Histórico e passarelas da capital maranhense, para além de um fenômeno sonoro, resulta de uma complexa teia de transformações sociais, políticas e culturais. É o que revela a pesquisa ‘A Trama dos Tambores: Os Blocos Tradicionais no Carnaval de São Luís (1920-2019)’, do graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), André Araújo de Menezes. O projeto mergulha em um século de história para entender como essa manifestação única se consolidou como um dos pilares da identidade cultural ludovicense. Das ruas para a passarela e com transformações marcantes em sua estrutura, estas manifestações carnavalescas vêm se mantendo como referência da festa na capital.
Para analisar este cenário, o pesquisador cruzou dados da Hemeroteca Digital Brasileira, arquivos da Biblioteca Pública Benedito Leite e fragmentos da história oral colhida junto aos ‘bambas’ – detentores do saber e da vivência do carnaval maranhense. Um dos pontos mais instigantes do trabalho, é a desconstrução da ideia de que os blocos tradicionais surgiram de forma plenamente classificada, já na década de 1920.
Embora o período tenha sido marcado por uma explosão de cordões e grupos rítmicos, o estudo indica que a normalização de 1920 como ‘marco zero’ do surgimento dos blocos é, em grande parte, uma construção narrativa da imprensa da época e da memória coletiva. Na verdade, a diferenciação clara entre blocos tradicionais e escolas de samba só ganharia contornos definitivos décadas mais tarde, revelando uma festa popular que está em constante e produtiva evolução.
O trabalho aponta que, após um esforço isolado da prefeitura em 1950, foi a partir de meados da década de 60 que o poder público passou a atuar de forma mais permanente na organização das festividades. Esse movimento de gestão profissionalizada permitiu que as manifestações ganhassem novos espaços e estruturas, culminando na criação da Passarela do Samba em 1977. Essa mudança para os espaços oficiais é vista como um marco de valorização.
Sobre esse processo, o pesquisador aponta que, ao adentrar a década de 70, constata-se a contribuição das transformações ocorridas na festa carnavalesca a partir desse período. Elas nortearam mudança substancial na prática de consumo dos integrantes de blocos tradicionais. “Longe de representar uma perda de essência, essa transição para a passarela foi absorvida pelos grupos como uma oportunidade de expansão”, observa André Menezes.
Os blocos souberam ‘negociar’ com a modernidade, atraindo novos simpatizantes e garantindo a sustentabilidade de sua arte na dinâmica do carnaval oficial. Assim como as demais manifestações, também foram influenciados pelas mutações nas formas de gestão e consumo da festa, que ocorreram nas décadas de 70 e 80, em São Luís. Sendo assim, absorveram as mudanças como forma de se estabelecer na nova dinâmica do carnaval oficial e atrair maior número de simpatizantes”, explica. A pesquisa, coordenada pelo professor de História da UEMA, Fábio Henrique Monteiro Silva, conclui que os blocos tradicionais são organismos vivos, capazes de se adaptar às novas formas de consumo, sem abrir mão do ritmo e da poesia que encanta maranhenses e o mundo.
O apoio a projetos que investigam o patrimônio cultural é uma vertente estratégica, pois transforma a história popular em conhecimento científico, pontua o presidente da Fapema, Nordman Wall. “Projetos como este, que mergulham em nossas raízes, é a reafirmação do compromisso do governo estadual e da Fapema, com a ciência a serviço da nossa gente. Entender nossa cultura e tradições com suas transformações ao longo dos tempos, é preservar a identidade maranhense e elevar nossa cultura e também, história, como vetor de desenvolvimento social”, observa.
Ao longo dos anos, a Fapema tem apoiado pesquisas sobre o Carnaval maranhense, a partir de diferentes perspectivas – históricas, sociais, políticas e culturais. Os estudos analisam relações entre poder público, políticas culturais, mídia e manifestações carnavalescas, além dos impactos simbólicos e identitários na construção da festa. A Fundação também apoia investigações sobre memória, patrimônio e expressões tradicionais, como blocos e turmas de samba, promovendo a preservação das tradições. Além disso, incentiva iniciativas ligadas à literatura, economia criativa e formação cultural, marcando seu empenho e valorização destas manifestações como patrimônio do estado.

