ALDIR PENHA COSTA FERREIRA
04/03/2013 00h00

Nascemos e crescemos ouvindo dizer que as duas grandes paixões dos brasileiros são o futebol e o carnaval. Não há dúvida. Embora certos grupos se afinem mais às artes e a outras modalidades esportivas, é nítida a preferência da maioria pelas festas de Momo e pelos jogos da bola com os pés.
Por esse motivo, e devido ao status conquistado pelos desfiles das escolas de samba, são perceptíveis os esforços destas em busca da perfeição, estimulados, sem dúvida, pelo pesado lastro de recursos financeiros subjacente. A disputa pela conquista de títulos e prestígio mobiliza a população, estimula o espírito empreendedor e leva os desfiles a merecerem, com justiça, o título de “maior espetáculo ao ar livre do mundo”.
Este ano, no Rio de Janeiro, foi a vez, mais uma vez, do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Mereceu. Trata-se de uma agremiação antiga que nasceu, segundo a internet, lá pelos idos de 1945, com um bloco carnavalesco chamado Vermelho e Branco. Depois de altos e baixos, o bloco deu origem a um time de futebol, e mais tarde voltou a ser, de novo, apenas um bloco carnavalesco. Parece que o seu destino era mesmo juntar as duas grandes paixões.
Essa grandeza da escola parece ter a ver, também, com a aura do local onde ela surgiu. Aura de arte, beleza e boemia, pois lá nasceu também o gênio Noel Rosa, um dos grandes da música brasileira de todos os tempos. Noel foi autor de mais de 200 peças musicais, “admiráveis por sua riqueza melódica e letras de conteúdo lírico e satírico”. Por tudo isso, foi “um marco na história da nossa música”. Ao lado de grandes personagens como Ismael Silva, Braguinha e outros, foi autor de criações imortais como “Com que roupa”, “Fita amarela”, “O Orvalho vem Caindo” e muito mais. Como os bons – e os maus – nem sempre duram, Noel Rosa morreu aos 27 anos de idade, na mesma casa onde nasceu.
Hoje a escola se firmou como uma das maiores do Rio de janeiro. Possui instalações amplas e modernas, e conseguiu atrair, entre os seus líderes, figuras de renomada competência. Consta que por lá passou também Joãosinho Trinta, que por motivo de saúde foi forçado a se afastar.
Um dos mais ativos entusiastas da escola é o senhor Martinho José Ferreira, o famoso Martinho da Vila. Consta que a sua chegada por lá aconteceu em 1965, e logo se fez notar a sua influência: reestruturação da forma de compor sambas-enredos, “com a introdução de letras e melodias mais suaves”. Foi um inovador.
A conquista do primeiro título no Grupo Especial do Rio de Janeiro aconteceu em 1988, com o enredo “Kizomba – festa da roça”, e a segunda, em 2006, com “Soy loco por ti América – A Vila canta a latinidade”. Neste ano, cujo desfile por coincidência aconteceu no dia do aniversário do grande Martinho, o enredo focou novamente a vida no campo: “A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – Água no feijão, que chegou mais um”.
O investimento para o carnaval deste ano não foi pequeno: além da liderança da carnavalesca Rosa Magalhães, houve a participação do coreógrafo Carlinhos de Jesus e da apresentadora Sabrina Sato como Rainha da Bateria. Os carros alegóricos e as fantasias, por outro lado, foram um show de criatividade: vale citar os primeiros mestres-salas, que desfilaram fantasiados de espantalhos. Como tempero final, o samba-enredo – O Caminho da Roça – foi considerado um dos mais bonitos dos últimos tempos.
Médico, ex-professor da UFMA, membro das academias de Medicina e Vianense de Letras
